Hackers associados à Coreia do Norte são suspeitos de estar por trás do recente ataque cibernético à Binance, considerada a maior corretora de criptomoedas do mundo, que afetou aproximadamente US$ 6,3 bilhões em ativos digitais. Empresas especializadas em análise de criptomoedas identificaram indícios de ligação com o grupo TraderTraitor, conhecido por operações criminosas contra o setor.
A autoria, porém, ainda não foi confirmada. Negócios: Gastos da Amazon disparam em meio à desaceleração do crescimento das vendas on-line
Leia também: Justiça determina que Meta remova posts de assédio eleitoral A dimensão do ataque pode torná-lo o maior da história do mercado de criptomoedas, superando o roubo de US$ 1,5 bilhão sofrido pela corretora Bybit no ano passado.
O laboratório TRM Labs identificou semelhanças entre os dois episódios e afirmou que, assim como o crime de 2025, o ataque à Binance parece ter sido obra da "unidade de hackers de elite da Coreia do Norte", segundo o jornal americano The New York Times. A Binance conseguiu congelar cerca de US$ 3 bilhões na blockchain, em coordenação com parceiros, mas uma parcela significativa dos recursos continua sob controle dos invasores.
Segundo reportagem da BBC, a empresa afirmou que cobrirá todas as perdas com recursos do fundo SAFU e do próprio patrimônio. Como surgiu a suspeita de participação norte-coreana?
A Chainalysis, outra empresa especializada em análise de criptomoedas, afirmou ter "alto grau de confiança" de que o grupo TraderTraitor está ligado ao incidente. A autoria, entretanto, ainda não foi confirmada.
Questionada pela BBC sobre uma possível participação norte-coreana, a Binance não respondeu diretamente. A empresa declarou que está "trabalhando em estreita colaboração com parceiros das forças de segurança para confirmar a identidade desses criminosos e levá-los à Justiça".
Hackers norte-coreanos são frequentemente apontados como responsáveis por grandes ataques contra o setor de criptomoedas. Os grupos Lazarus e TraderTraitor são associados a operações criminosas cibernéticas que, segundo especialistas, serviriam para obter recursos financeiros para o regime norte-coreano, submetido a sanções internacionais.
O governo do país nega essas acusações. Como o ataque à Binance aconteceu?
A investigação inicial aponta que a invasão pode ter começado com o comprometimento do computador portátil de um engenheiro de DevOps, profissional responsável pela infraestrutura e pelas operações tecnológicas da empresa. Segundo o co-CEO da Binance, Richard Teng, o invasor conseguiu acessar um contêiner de serviço e, por meio dele, enviar transações de retirada não autorizadas.
O executivo ressaltou que não se tratou de uma operação simples, realizada com as permissões de apenas um funcionário. "Para deixar claro: o invasor não utilizou simplesmente as permissões de um único engenheiro, e isso não foi uma ação isolada, realizada com um único clique.
O ataque envolveu um processo mais complexo. Nossa investigação não atribuiu responsabilidade a nenhum indivíduo.
Até o momento, não encontramos evidências de vazamento de chaves privadas de carteiras", explicou em comunicado. A Binance informou que pretende divulgar uma análise técnica detalhada após a conclusão da investigação e a verificação dos fatos.
Corretora suspendeu saques e tenta recuperar recursos Após identificar o ataque, a Binance adotou medidas para proteger os ativos e rastrear os recursos retirados.
Entre as providências estão a suspensão temporária dos saques durante uma reformulação de segurança do serviço de retirada e a revogação das autorizações dos endereços afetados. A empresa também acionou forças de segurança e companhias especializadas em inteligência de blockchain para acompanhar as movimentações e tentar recuperar os ativos.
A co-CEO Yi He informou que os saques ficariam temporariamente desativados até que a segurança do ambiente fosse confirmada. Os depósitos, por sua vez, continuaram funcionando normalmente.
Além da Binance, as plataformas Tether e Circle informaram ter congelado aproximadamente US$ 2,4 bilhões em ativos, somados. Não foi detalhado quanto desse valor corresponde a cada empresa nem se todos os recursos estão diretamente relacionados ao ataque.
A corretora também anunciou que publicará uma versão atualizada de sua Prova de Reservas depois da conclusão das medidas corretivas. Segundo a empresa, não foram encontradas evidências de vazamento de chaves privadas das carteiras.
O episódio mais próximo em dimensão havia ocorrido em 2025, quando a corretora Bybit sofreu um ataque que resultou no roubo de US$ 1,5 bilhão. Na ocasião, hackers supostamente ligados ao Grupo Lazarus, também conhecido como TraderTraitor pelo governo dos Estados Unidos, foram apontados como responsáveis.
Cerca de duas semanas depois do ataque, pelo menos US$ 300 milhões já haviam sido convertidos em recursos considerados impossíveis de recuperar. Em agosto, 18 meses após o incidente, o cofundador da Bybit, Ben Zhou, informou que a empresa havia recuperado aproximadamente US$ 48,4 milhões e mantinha outros US$ 30,5 milhões congelados.
Ele também afirmou que a corretora havia aberto um processo civil contra a Coreia do Norte e o Grupo Lazarus. Bitcoin cai mais de 4% após alertas
Após os alertas sobre o ataque à Binance, o Bitcoin registrou uma queda superior a 4%. Ainda não está claro, porém, se episódios dessa dimensão terão efeitos duradouros sobre a confiança dos investidores no mercado de criptomoedas.
Fundada na China em 2017, a Binance é uma corretora centralizada que permite a compra e a negociação de ativos digitais. A empresa reúne centenas de milhões de usuários registrados em diferentes países e oferece serviços como negociação de criptomoedas, carteiras digitais, contratos futuros, títulos, contas de poupança e empréstimos.
A plataforma Binance.US, destinada a residentes dos Estados Unidos, informou que não foi afetada pelo incidente. A empresa também acumula questionamentos regulatórios.
Em 2023, seu então diretor-executivo, Changpeng Zhao, renunciou após se declarar culpado de violações relacionadas à lavagem de dinheiro. Em 2024, a Binance informou manter mais de US$ 160 bilhões em ativos sob custódia.
A investigação sobre o ataque continua. A identidade dos responsáveis, a dinâmica técnica completa da invasão e a possibilidade de recuperar os recursos que permanecem com os invasores ainda não foram totalmente esclarecidas.
O Globo