Que armas os Estados Unidos já colocaram em órbita e como elas poderiam ser usadas em um eventual conflito? A pergunta ganhou força depois que a Força Espacial americana admitiu, pela primeira vez, que mantém armamentos posicionados fora da atmosfera, capazes de "disputar e controlar" o domínio espacial e afetar as capacidades de adversários.
O GLOBO no Mundo: Receba as notícias internacionais direto no seu celular Quer morar fora? Ferramenta do GLOBO reúne informações sobre custo e qualidade de vida, salários, vistos, oportunidades e características de 36 países O secretário da Força Aérea dos EUA, Troy Meink, afirmou na segunda-feira que a arma "em órbita" é necessária para proteger as forças americanas contra ações hostis de inimigos. O porta-voz da Força Espacial acrescentou que as capacidades podem ser utilizadas tanto para fins ofensivos quanto defensivos e fazem parte das operações necessárias para disputar e controlar o espaço. O governo americano não explicou por que decidiu tornar pública a existência do armamento neste momento. Meink afirmou apenas que a divulgação é importante para a dissuasão e que há "muitos fatores" envolvidos na maneira como os Estados Unidos tratam do assunto.
A falta de informações deixa em aberto a natureza do arsenal. Para Bleddyn Bowen, pesquisador associado de Ciências Militares do Royal United Services Institute (Rusi, na sigla em inglês) e professor de Astropolítica da Universidade de Durham, uma das possibilidades é que se trate de uma plataforma de guerra eletrônica ou de bloqueio de sinais de rádio. Esse tipo de equipamento poderia interromper as comunicações de um satélite sem necessariamente destruí-lo. — Eu esperaria algum tipo de plataforma de guerra eletrônica ou de bloqueio de rádio. Possivelmente, seria um tipo não destrutivo de arma antissatélite — afirmou Bowen à BBC Radio 4. Segundo o especialista, equipamentos desse tipo já existem em terra e podem interferir nas comunicações de satélites.
— Se os enlaces de rádio forem interrompidos, o satélite se torna praticamente inútil — afirmou Bowen. 'Guerra nas estrelas': EUA ampliam investimentos para expandir capacidade de ataque no espaço, o novo campo de batalha Bowen também não descarta a possibilidade de o armamento americano ter uma função mais destrutiva. Uma das hipóteses seria um veículo capaz de lançar algum tipo de projétil contra outro satélite e destruí-lo, embora ele considere essa possibilidade menos provável. Outra hipótese é de que seria um satélite de inspeção e acoplamento, capaz de se aproximar de outro equipamento e prendê-lo. A possibilidade de equipamentos capazes de se aproximar e interferir em outros satélites já é uma realidade no espaço. Nos últimos dez anos, Rússia e China aumentaram as manobras conhecidas como operações de encontro e proximidade, ou RPOs, nas quais um satélite se aproxima de outro. Para especialistas, essas movimentações podem ter diferentes finalidades, desde inspeção e manutenção até ações contra equipamentos de outros países. — Teoricamente, esses satélites de RPO podem se tornar satélites caçadores-matadores, colidindo com outros satélites ou empurrando-os para fora de órbita — afirmou Rod Thornton, pesquisador de Estudos de Defesa e Segurança Russa do King's College London. Contra satélites: Entenda a arma nuclear espacial que os EUA acusam a Rússia de estar desenvolvendo A China, segundo Bowen, já demonstrou capacidade de atuar como um "rebocador espacial". Um veículo pode se aproximar de um satélite, prendê-lo e movê-lo para uma órbita diferente. A tecnologia pode ser usada para remover lixo espacial, mas também poderia servir para retirar de operação satélites em funcionamento. Pequim vem ampliando seus recursos. Segundo a agência Reuters, uma espaçonave chinesa não tripulada lançou, em junho, um satélite que analistas militares consideraram ter capacidades avançadas de monitoramento. Na ocasião, os mesmos analistas reconheceram que os EUA operavam um sistema semelhante, e que pode se mostrar vital em guerras futuras. A Rússia, por sua vez, possui outras formas de atingir equipamentos em órbita. Segundo Thornton, Moscou dispõe de mísseis lançados do solo capazes de alcançar satélites em órbita baixa da Terra, além de mísseis antissatélite que podem ser disparados por aeronaves em grandes altitudes.
PEM nuclear: Plano russo para reator no espaço reacende debate sobre possível arma para destruir satélites em órbita A capacidade russa também inclui meios de interferir em satélites de comunicação. O tema ganhou destaque durante a guerra na Ucrânia, período em que Moscou continuou desenvolvendo outras capacidades militares voltadas ao espaço. A disputa ocorre em um ambiente no qual satélites já são fundamentais para as operações militares. Eles são usados para garantir comunicações seguras, realizar reconhecimento, fornecer informações precisas de localização para ataques e detectar lançamentos de mísseis. À medida que os conflitos se tornam mais dependentes de tecnologia, a expectativa entre analistas é que o uso militar do espaço aumente. A militarização da órbita, porém, não é recente. Ela acompanha a própria exploração espacial. O Tratado do Espaço Sideral, firmado em 1967, proíbe a colocação de armas de destruição em massa, incluindo armas nucleares, no espaço. Ainda assim, as principais potências continuaram investindo no desenvolvimento de capacidades militares fora da atmosfera. Cosmos 2576: Pentágono acusa a Rússia de lançar e estacionar 'arma antiespacial' na mesma órbita de satélite americano Em abril, o chefe do Comando Espacial dos EUA, general Stephen Whiting, defendeu uma postura mais agressiva no espaço e afirmou que o país precisa estar preparado para um eventual conflito. — Devemos estar bem preparados para um conflito no espaço. E, se a dissuasão falhar, lutaremos e venceremos — disse Whiting, defendendo o emprego de interceptadores e outros armamentos. O cenário também pode envolver capacidades ainda mais destrutivas. O especialista aponta que, como último recurso, Moscou poderia lançar armas nucleares no espaço. Uma explosão desse tipo produziria um pulso eletromagnético capaz de inutilizar satélites não protegidos em uma área extensa. Vega-C: Foguete europeu coloca em órbita com sucesso dois satélites de observação da Terra Para Thornton, a possibilidade está relacionada à diferença entre os arsenais espaciais da Rússia e da Otan. Segundo ele, o que Moscou não tem em armamento espacial e satélites, compensa em capacidade de mísseis. — Do ponto de vista russo, eles veem a Otan como tendo muito mais satélites do que os militares russos conseguem mobilizar. Por isso, investiram pesadamente em armas antissatélite para, de certa forma, "equilibrar o campo de batalha" — afirmou o especialista. Na avaliação de Thornton, essa assimetria poderia fazer da Rússia a "grande vencedora" de uma eventual guerra espacial, justamente por depender de um número menor de satélites. Um confronto desse tipo poderia envolver mísseis lançados do solo contra equipamentos em órbita baixa, projéteis disparados de aeronaves, satélites capazes de se aproximar e deslocar ou destruir outros equipamentos e lasers instalados em terra.
O Globo