Governo Trump mira autoridade eleitoral de Nevada com intimações antes do pleito legislativo

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Fonte da notícia: Valor Valor

A primeira intimação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos exigindo informações sobre eleitores pegou de surpresa o secretário de Estado democrata de Nevada, Cisco Aguilar. Era junho, e seu gabinete vinha trabalhando informalmente com o FBI em questões rotineiras de segurança eleitoral.

Semanas depois, em um pronunciamento no Salão Oval, em 16 de julho, o presidente Donald Trump afirmou, sem apresentar provas, que centenas de milhares de pessoas sem cidadania americana haviam se registrado para votar, citando uma análise feita por seu governo. Essa análise apontava Nevada, um Estado crucial na disputa de novembro pelo controle do Congresso dos EUA, como um dos quatro Estados onde o registro eleitoral de pessoas sem cidadania americana era generalizado.

"Vamos ser alvo disso", Aguilar se lembra de ter dito ao governador republicano Joe Lombardo antes do pronunciamento de Trump.

Em seguida, outras três intimações exigindo dados de eleitores chegaram em 1º e 2 de setembro.

Ao todo, o Departamento de Justiça enviou sete intimações ao gabinete de Aguilar entre 16 de junho e 2 de setembro, segundo documentos obtidos por meio de um pedido de acesso a registros públicos.

À medida que o governo Trump intensifica seus esforços para obrigar os Estados a entregar listas de eleitores registrados em busca de fraudes, a pressão federal está influenciando uma revanche eleitoral de alto risco pelo cargo de Aguilar em Nevada, um dos principais campos de batalha eleitorais do país.

Como secretário de Estado, Aguilar é a principal autoridade eleitoral de Nevada, responsável, entre outras atribuições administrativas, por supervisionar as eleições e certificar os resultados.

As intimações sobrecarregaram Aguilar com trabalho burocrático, desviando sua atenção da própria campanha à reeleição contra o republicano Jim Marchant, que afirma falsamente que a eleição de 2020 foi fraudada para favorecer os democratas e que foi derrotado por Aguilar por uma margem estreita em 2022.

Lombardo não declarou apoio a nenhum dos candidatos e não respondeu a um pedido de comentário sobre quem está apoiando.

Trump tem apresentado muitas de suas iniciativas relacionadas às eleições como um esforço para ajudar os republicanos a conquistar cadeiras em um ano em que há ampla expectativa de que seu partido perca o controle da Câmara dos Deputados e, possivelmente, do Senado. Ele afirmou, sem apresentar provas, que os democratas querem permitir que pessoas sem cidadania americana votem porque seu apoio os levaria de volta ao poder, acusação rejeitada pelos democratas.

Mais de 50 autoridades eleitorais e especialistas em legislação eleitoral identificam diversas maneiras pelas quais o governo Trump poderia potencialmente interferir nas eleições legislativas de meio de mandato de 2026, informou a Reuters na quarta-feira. Eles apontaram possíveis focos de conflito que vão desde alegações de fraude eleitoral e pressão sobre autoridades estaduais até apreensões de materiais eleitorais e operações de fiscalização imigratória nas proximidades dos locais de votação.

A Casa Branca afirma que o objetivo do governo é preservar a integridade das eleições e a segurança do voto.

Aguilar afirmou considerar a enxurrada de intimações uma tentativa deliberada do governo Trump de enfraquecer sua campanha à reeleição e influenciar quem supervisionará a votação em Nevada na eleição presidencial de 2028.

Um porta-voz do Departamento de Justiça afirmou que o órgão não confirma nem comenta intimações de grandes júris e se recusou a abordar as alegações de Aguilar sobre motivações políticas. A Casa Branca não respondeu a um pedido de comentário.

Aguilar disse que seus dias têm sido consumidos pela necessidade de tranquilizar funcionários preocupados, contestar as alegações de Trump em entrevistas à imprensa, reunir-se com seus advogados particulares e responder às intimações. Alguns doadores retiraram seu apoio por temer que isso pudesse prejudicar seus negócios, e o tempo que ele dedica a telefonemas para arrecadação de recursos caiu de até três horas por dia para uma hora por semana, afirmou.

"Se conseguirem me tirar do cargo em 2026, terão o controle em 2028", disse Aguilar, um dos apenas dois secretários de Estado democratas que disputam a reeleição em Estados decisivos neste ciclo eleitoral. "É absolutamente intencional", afirmou em entrevista à Reuters.

Não há informações de que qualquer outro secretário de Estado democrata — inclusive no Arizona, o outro Estado decisivo onde o atual ocupante do cargo disputa a reeleição — tenha recebido intimações, segundo a Associação Democrata de Secretários de Estado e outros secretários de Estado de unidades federativas importantes para a disputa eleitoral.

Diferentemente de Estados como o Arizona, onde os condados têm mais poder, o sistema eleitoral de Nevada concede ao secretário de Estado maior controle sobre a organização das eleições, afirmaram Aguilar e outros secretários de Estado. O secretário de Estado de Nevada, Cisco Aguilar, ouve integrantes de sua equipe do lado de fora de um evento de arrecadação de fundos do Partido Democrata no condado de Washoe REUTERS/Elizabeth Mendez

Não há provas de fraude eleitoral generalizada Marchant recebeu positivamente a atenção do governo federal, argumentando que ela levaria os eleitores a questionar a gestão de Aguilar.

"As pessoas estão muito cansadas de não confiar em seu sistema eleitoral", disse Marchant em entrevista, afirmando, sem apresentar provas, que Aguilar supervisionou eleições marcadas por fraudes generalizadas.

Aguilar rejeita essas alegações.

Ele ressaltou que já é ilegal que pessoas sem cidadania americana votem em Nevada, assim como ocorre em todos os Estados nas eleições federais e estaduais. Seu gabinete também investigou as alegações de Trump e não encontrou provas de que qualquer uma das pessoas apontadas pelo governo fosse de fato estrangeira sem cidadania americana, afirmou.

Nevada, onde aproximadamente 30% do eleitorado é latino, votou por uma margem estreita em Trump em 2024, com uma vantagem de 46 mil votos.

Louis Jacobson, colunista sênior do site de política Sabato's Crystal Ball, revisou em setembro sua avaliação da disputa em favor de Aguilar, escrevendo que a postura de Marchant de negar a legitimidade dos resultados eleitorais provavelmente não seria bem recebida em um ambiente político favorável aos democratas.

Ainda assim, Jacobson disse à Reuters que a atenção do Departamento de Justiça poderia afastar alguns eleitores de Aguilar caso eles acreditassem que ele supervisionou eleições fraudulentas. Por outro lado, também poderia fortalecê-lo como defensor do Estado contra os excessos de Washington. O candidato republicano a secretário de Estado de Nevada, Jim Marchant, ouve um assessor de imprensa durante uma reunião em Reno, Nevada REUTERS/Elizabeth Mendez

Campanha de pressão de Trump O governo Trump intensificou uma campanha para exercer controle sobre as eleições estaduais, mesmo enfrentando dificuldades nos tribunais. O Departamento de Justiça processou 30 Estados e o Distrito de Columbia para obter dados de eleitores e perdeu 26 desses processos, incluindo um contra Nevada.

O Departamento de Segurança Interna (DHS) afirmou que até 16 mil pessoas sem cidadania americana constam das listas de eleitores de Nevada, em uma iniciativa que, segundo Aguilar, busca intimidar eleitores latinos que podem temer que agentes federais de imigração tentem detê-los nos locais de votação.

Em reuniões, autoridades do DHS disseram a responsáveis pelas eleições em Nevada que, até então, haviam confirmado apenas 185 desses casos, de acordo com e-mails e um vídeo analisados pela Reuters. Autoridades de Nevada, porém, afirmaram nos e-mails que seus registros indicavam que todas as 185 pessoas eram cidadãs americanas e que o DHS não havia fornecido nenhuma informação substantiva que sugerisse o contrário.

Um porta-voz do DHS afirmou que as autoridades identificaram posteriormente que pelo menos 2 mil nomes da lista inicial de 16 mil pertenciam a pessoas sem cidadania americana. O DHS disse ter fornecido a Nevada informações suficientes para que o Estado analisasse a lista por conta própria, mas Aguilar afirmou que o órgão ainda não havia apresentado provas confiáveis.

Aguilar disse que as acusações tinham como objetivo esgotar os recursos de seu gabinete e minar a confiança da população.

"Toda essa sequência de acontecimentos é como uma lasanha", afirmou. "Eles continuam acrescentando camadas de ameaças e consumindo nossos recursos para responder a elas."

A pressão acompanhou Aguilar até sua casa e por todo o Estado. Publicamente, no entanto, ele tem tentado transmitir otimismo e tranquilidade.

Aguilar relembrou a época em que atuou como principal advogado dos negócios do ex-tenista Andre Agassi. Agassi tinha treinadores e assessores ao seu redor, afirmou, mas, quando uma partida começava, era ele quem entrava sozinho em quadra.

Aguilar disse não se sentir tão isolado quanto Agassi nessas ocasiões, mas, como principal autoridade eleitoral de Nevada, é ele quem toma as decisões finais e representa publicamente o sistema eleitoral do Estado.

Sua preocupação inicial com as intimações agora se transformou em uma postura de desafio. "Podem vir", afirmou. "Não me assustam."

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