Governo demite presidente do INSS em meio à pressão por fila de requerimentos

 

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O governo Lula demitiu nesta segunda-feira o presidente do INSS, Gilberto Waller, que estava no cargo há 11 meses. Ele assumiu o posto no ano passado como resposta às investigações sobre descontos indevidos em aposentadorias e pensões, mas se desgastou por conta do tamanho da fila de requerimentos no instituto, que chegou a 2,6 milhões em março. O Palácio do Planalto teme o impacto disso nas eleições deste ano.

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A demissão foi anunciada pelo ministro da Previdência, Wolney Queiroz, que estava em rota de colisão com Waller desde o ano passado. Um dos principais focos de tensão era o tamanho da fila de requerimentos do órgão.

Ana Cristina é servidora de carreira e ingressou no Instituto em 2003 como Analista do Seguro Social. Antes de assumir a presidência do INSS, ocupava o cargo de secretária-executiva adjunta do Ministério da Previdência Social. Seu currículo inclui, ainda, a presidência do Conselho de Recursos da Previdência Social (CRPS) por quase três anos.

“Agradeço a Gilberto Waller pela importante contribuição nesse período e dou as boas-vindas à Dra. Ana Cristina. Ela tem o perfil ideal para iniciar esse novo momento e cumprir a determinação do presidente Lula, que é solucionar a fila e não deixar nenhum brasileiro para trás. Sua nomeação também entrega o comando do Instituto nas mãos de seus próprios servidores. Tenho a alegria ainda de anunciar mais uma mulher para a alta cúpula do órgão, que já tem quatro diretoras”, disse o ministro da Previdência, Wolney Queiroz, em nota.

Fila elevada

Dados mais recentes mostram que o INSS ainda lida com uma fila elevada. Em março, o estoque de pedidos aguardando análise caiu de 3,1 milhões para 2,7 milhões. Apesar da melhora pontual, o volume segue alto e pressionado pela entrada constante de novos requerimentos, cerca de 61 mil por dia, segundo o próprio instituto. Nos bastidores, integrantes do governo avaliam que a queda não tem sido suficiente para mudar a percepção negativa da população.

Gilberto foi avisado da demissão nesta segunda-feira pelo secretário executivo da Previdência, Felipe Cavalcante e Silva. Logo depois, o INSS divulgou nota dizendo que 1,625 milhão de processos foram concluídos em março, um recorde.

Desgaste entre ministro e presidente

A crise entre Queiroz de Waller ganhou força no fim do ano passado e ia além da fila. Em ofício ao ministro, Waller pediu a demissão da vice-presidente do INSS e diretora de Tecnologia da Informação, Léa Bressy Amorim, servidora de carreira.

Ele alegou que o cargo é estratégico e que a servidora “tem notória proximidade” de Alessandro Stefanutto, ex-presidente demitido do cargo e preso no desdobramento da Operação Sem Desconto da Polícia Federal (PF), que apura fraudes contra aposentados por associações e entidades sindicais.

O ministro respondeu com outro ofício ao presidente do INSS, dizendo que as “alegações são genéricas, sem qualquer indicação de irregularidade e não constituem motivos para a exoneração da servidora”. No documento, Queiroz disse que foi o próprio Waller quem indicou Léa para ser a número 2 do INSS. O presidente do instituto aguarda uma definição sobre a situação, mas tem dito a auxiliares que “está no limite”.

As desavenças remontam a meados do ano, quando a cúpula do INSS caiu após a operação da PF. Waller foi nomeado para presidir o instituto e, dias depois, Wolney Queiroz tornou-se ministro da Previdência no lugar de Carlos Lupi, que pediu demissão.

Nos bastidores, o ministro responsabiliza o presidente do INSS pelas filas e diz que ele é um auditor, não gestor. Em uma solenidade para comemorar o aniversário do INSS, em junho do ano passado, Queiroz contou, em tom de brincadeira, que, quando assumiu, Waller já tinha sido nomeado presidente do INSS. Para um auditório lotado de servidores, disse que reclamou da indicação ao presidente Lula pelo fato de ter escolhido “um corregedor, um cara frio, lavajatista” (em referência à Operação Lava-Jato). Segundo Queiroz, Lula respondeu: “Calma rapaz, vocês vão se dar bem”.

— Eu falei mal de você com o presidente Lula — disse o ministro ao se dirigir a Waller, que fazia parte da mesa, provocando risadas e constrangimento ao mesmo tempo.

A disputa se dá enquanto a fila do INSS não para de subir. A automação da análise dos pedidos acelerou a triagem, mas não conseguiu absorver o grosso das solicitações.

Investigação de descontos indevidos

Waller assumiu o cargo a partir da crise gerada com a Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagrada no fim de abril para combater descontos não autorizados em aposentadorias e pensões pagas pelo INSS. O chefe do órgão, Alessandro Stefanutto, foi afastado do cargo por decisão judicial e depois demitido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Poucos dias depois, o ministro da Previdência, Carlos Lupi, pediu demissão.

A operação, que envolveu centenas de policiais e auditores, foi autorizada pela Justiça do Distrito Federal para combater um esquema nacional de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões. As investigações apontam que a soma dos valores descontados chega a R$ 6,3 bilhões, entre 2019 e 2024, mas ainda será apurado qual porcentagem foi feita de forma ilegal.

As investigações apontaram que havia descontos sobre valores pagos mensalmente pelo INSS como se os beneficiários tivessem se tornado membros de associações de aposentados, quando, na verdade, não haviam se associado nem autorizado os descontos.

Após a operação, o governo suspendeu todos os acordos que previam desconto nas aposentadorias e montou uma operação para devolver os recursos.