Governo admite obstáculo da guerra para o BC, mas lamenta custo do 'atraso' no início do corte dos juros
O choque do preço do petróleo e os problemas logísticos decorrentes do fechamento do Estreito de Ormuz não deixaram ao Banco Central (BC) alternativa e a autoridade precisa mesmo ser mais cautelosa no processo de corte de juros nesse momento. A visão é espalhada no governo, mas tem vindo sempre com um lamento acoplado: o atraso no início do ciclo de cortes está custando caro e a taxa Selic poderia hoje estar pelo menos um ponto porcentual abaixo do nível de 14,50% ao ano em vigor.
Pode parecer pouco, mas, em um ano, isso significaria uma economia de gastos da ordem de R$ 56 bilhões considerando que mais da metade da dívida bruta brasileira está atrelada à taxa básica de juros definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Apesar de entender a necessidade de maior cautela, também há uma avaliação no governo de que a taxa poderia continuar caindo, por conta do alto juro real da economia brasileira.
A leitura de diversos setores do governo é de que havia uma janela para iniciar os cortes pelo menos em dezembro do ano passado a um ritmo de 0,5 ponto por reunião. Mas o time liderado pelo presidente Gabriel Galípolo só foi iniciar o ciclo de “ajuste” a partir de março e, mesmo assim, já com a guerra no Oriente Médio se iniciando e impondo a estratégia de cortar a Selic em um ritmo de conta-gotas.
Até o momento houve duas reduções de 0,25 ponto porcentual nos encontros de março e abril. As sinalizações dos documentos divulgados após a última decisão apontam que a tendência seria continuar nesse ritmo por pelo menos mais uma reunião, mas nas últimas duas semanas o tom de cautela do comando do BC ficou maior, ampliando as chances de que o ajuste possa até ser interrompido na próxima reunião, prevista para meados de junho.
Na semana passada, ao abrir a conferência anual do BC, Galípolo falou que o momento demanda cautela “ainda maior” e serenidade na condução da política monetária. Nessa terça, em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, ele defendeu o mandato do BC de colocar a inflação na meta de 3% e deu especial ênfase ao fato de as projeções do mercado financeiro estarem fora da meta inclusive para 2028.
Assim, subiu o risco de que o ciclo de reduções tende a ser mais curto e a Selic terminar o ano em nível acima do originalmente previsto, inclusive pelo mercado financeiro, que hoje espera 13,25% ao ano no fim de 2026.
Na CAE, Galípolo destacou que, nos últimos anos, o Brasil tem enfrentado uma sequência de choques que aumentaram o custo de vida e dificultaram o trabalho do Banco Central, tanto que, em seis anos, a meta foi descumprida. Para ele, é de fato um enigma que o Brasil tenha juros tão altos e ainda assim não só tenha dificuldades de chegar na meta como a própria economia se mantém em um ritmo bom de crescimento.
Nesse sentido, o presidente do BC falou na necessidade de se fazer mais reformas para que seja aumentada a capacidade de os juros cumprirem seu papel de controlar a inflação. Ele não mencionou quais seriam essas reformas.
Mas é curioso que a última década foi marcada por uma série de reformas econômicas, inclusive no crédito direcionado, por exemplo com a criação da Taxa de Longo Prazo (TLP), que hoje indexa a maior parte das operações do BNDES. E hoje a Selic está no patamar mais alto das últimas duas décadas. O enigma é maior do que parece.
