O Google e empresas de segurança digital identificaram, em uma investigação, que cerca de 1,3 milhão de aparelhos Android TV em todo o mundo, incluindo dispositivos no Brasil, foram infectados por um programa malicioso que permitia a criminosos controlar os equipamentos remotamente e utilizar suas conexões para atividades ilegais.
De acordo com relatório do Grupo de Inteligência de Ameaças do Google, publicado nesta semana, o software era instalado diretamente nos decodificadores, utilizados em diferentes modelos de televisores, sem que os consumidores soubessem. Pratos limpos ou sujos: a nova etiqueta do Airbnb que está causando polêmica entre hóspedes
Entenda: Anatel determina que usuários de linhas de celular terão de validar biometria Segundo o Google, o esquema era operado pela fabricante Videostrong Technology, com sede em Shenzhen, na China.
A empresa fabrica TV Box Android com sua própria marca e para terceiros. Em seu relatório, o Google afirma ter identificado evidências de que a companhia desenvolveu e operou intencionalmente um programa malicioso chamado XCPE com o objetivo de obter ganhos financeiros indevidos.
A investigação apontou que o programa foi encontrado em diferentes marcas e modelos. O esquema funcionava como uma cadeia interligada, na qual fabricantes, distribuidores de equipamentos e operadores de serviços atuavam em diferentes etapas, explicou o Google.
Segundo a empresa, a Videostrong permitia que outros grupos comprassem acesso aos aparelhos infectados e instalassem módulos maliciosos adicionais, também para coletar informações de forma ilegal. O programa também utilizava a conexão residencial dos usuários para acessar sites e serviços na internet.
Dessa forma, eram geradas visualizações de anúncios, cliques e interações com páginas da web em segundo plano, sem que os consumidores precisassem estar utilizando os equipamentos. Para interromper a operação, o Google adotou, na semana passada, medidas para retirar do ar os servidores utilizados pelos criminosos.
Segundo a empresa, a ação também pode impedir que outros 10 milhões de dispositivos sejam comprometidos. No relatório, o Google diz que atuou em conjunto com parceiros da indústria de segurança digital, como Lumen, HUMAN Security, Plume, Synthient e TrendAI, além da Agência Nacional de Polícia do Japão.
Em comunicado, a TrendAI, unidade de negócios de segurança cibernética da Trend Micro voltada à proteção de empresas e governos contra ataques digitais, informou que foram registrados casos em mais de 170 países. Malásia, Brasil, Iraque, México e Taiwan concentram o maior número de ocorrências. A análise abrangeu o período de junho a outubro de 2026.
A estimativa é que, além dos mais de 1,3 milhão de dispositivos infectados, cerca de 3,8 milhões de endereços IP residenciais tenham sido usados para retransmitir tráfego de forma ilegal. Modelo era usado desde 2024
Segundo a TrendAI, o Brasil aparece como o segundo país mais afetado, com 150 mil casos, atrás apenas da Malásia, com quase 301 mil. O Google afirmou que o software malicioso estava integrado diretamente a diferentes modelos e marcas de dispositivos havia vários anos, com configurações ajustadas para evitar a detecção.
Para a empresa americana, a Videostrong utilizava esse modelo ilegal pelo menos desde o fim de 2024. Além de televisores, o Google também identificou outros dispositivos baseados em Android infectados, como aparelhos de telessaúde, máquinas de karaokê e equipamentos de sinalização digital (como tela de publicidade em shoppings, cardápios em restaurantes e telas de aviso).
De acordo com a investigação, um código malicioso era incorporado ao software responsável pelo funcionamento dos equipamentos, chamado de firmware. Dessa forma, assim que o consumidor comprava o aparelho, o programa irregular já estava instalado.
Uma vez conectado à internet, o dispositivo podia receber outros programas de forma irregular. "Descobrimos que esse software malicioso estava integrado diretamente em diversos modelos e marcas de dispositivos ao longo de vários anos, com o suporte de infraestrutura dedicada e configurações em constante evolução para evitar a detecção", explicou o Google.
BC vai interromper cortes de juros? Entenda por que mercado espera manutenção da Selic em 13,75% hoje A empresa destacou que, como parte do código ficava armazenada em uma área protegida do sistema, o software podia ser reinstalado automaticamente quando o aparelho fosse reiniciado.
Além disso, o equipamento desativava a verificação de aplicativos do Google Play Protect, ferramenta de segurança do Android. Por isso, o Google passou a recomendar que os usuários "garantam que as proteções de segurança integradas, como o Google Play Protect, estejam ativas".
Segundo o Google, a Videostrong teria explorado comercialmente o acesso aos aparelhos, vendendo a dezenas de grupos a possibilidade de instalar seus próprios módulos maliciosos. Com isso, os aparelhos eram transformados em pontos de acesso para atividades criminosas.
O Google disse que encerrou as relações com a Videostrong e proibiu a companhia de fabricar e vender dispositivos com o sistema operacional Android pré-instalado. A empresa também anunciou mudanças nos procedimentos de análise de segurança, já que a Videostrong instalava o código malicioso depois da primeira inicialização do equipamento.
Cadeia interconectada, diz Google O relatório alertou ainda para problemas futuros.
Segundo o comunicado, como os operadores de programas maliciosos que permitem o acesso remoto a dispositivos e quadrilhas especializadas em fraude publicitária atuam como uma cadeia interconectada, quando um desses componentes é desativado, os criminosos migram rapidamente para outros programas que instalam códigos maliciosos ou ferramentas que permitem ganhar dinheiro com os aparelhos infectados. Assim, para combater esse tipo de ameaça, o Google ressalta que é preciso "responsabilizar toda a cadeia, desde os fabricantes de equipamentos até o setor de serviços que utiliza conexões de internet de usuários comuns e o ecossistema tecnológico como um todo".
De acordo com o Google, fabricantes de hardware, revendedores de marcas próprias, provedores de telecomunicações e marketplaces de comércio eletrônico também compartilham a responsabilidade de eliminar essa vulnerabilidade. "Varejistas e distribuidores devem exigir auditorias de segurança independentes dos fabricantes e remover rapidamente de suas plataformas os fabricantes envolvidos em abusos na cadeia de suprimentos", destacou a companhia.
Por isso, o Google afirma que "os consumidores devem comprar dispositivos conectados, como decodificadores, apenas de fabricantes de boa reputação". Em nota, o Google disse que foi desmantelado o XCPE que a Videostrong criou, implantou e operou intencionalmente em uma variedade de dispositivos.
Lembrou que ao derrubar o comando e controle da chinesa em 1,3 milhões de receptores de TV Android, cortou o acesso a pelo menos 10 milhões de dispositivos comprometidos adicionais, incluindo receptores de TV de varejo, máquinas de karaokê e equipamentos de telemedicina. O Google frisou que os mais de 10 milhões de dispositivos adicionais não são todos dispositivos Android.
"O Google acredita que suas ações mitigaram o risco para os usuários e causaram um revés a mais de uma dúzia de organizações criminosas", destacou. Procurados, Anatel e Videostrong ainda não retornaram.
O Globo