Glaura Lacerda avalia repercussão de Gisleyne em 'Três Graças' e comenta parceria com Grazi Massafera
Aos 18 anos de trajetória nos palcos, Glaura Lacerda finalmente realiza um sonho antigo: estrear na televisão. Na novela das nove "Três Graças", interpreta Gisleyne, uma personagem divertida, fofoqueira e repleta de nuances que refletem tanto o humor quanto os dilemas do cotidiano. Cada cena representa para ela a materialização de memórias de infância e a oportunidade de levar sua comicidade ao público de todo o país.
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"Fui uma criança que assistia novela com a família reunida no sofá da sala e que decidiu se tornar atriz a partir das histórias que via na TV durante a década de 80/90. Contribuir com uma, de Aguinaldo Silva, é a mistura de tudo de mais gostoso que uma artista pode sentir: dignidade, prazer e sensação de realização", afirma ao GLOBO.
Sobre o lado cômico da personagem, completa: "Para minha felicidade, essa fração divertida e 'fofoqueira' de Gisleyne desperta uma parte do meu trabalho artístico com a qual eu adoro trabalhar: o humor. São mais de 18 anos subindo aos palcos e percebo como a comédia se fez presente em toda a minha trajetória."
Glaura Lacerda abre o jogo sobre carreira, público e o método E.L.A.
Divulgação Nanda Araújo
A transição do teatro e do improviso para a televisão das 21h trouxe desafios técnicos e de adaptação.
"No teatro, o corpo e a voz precisam alcançar uma plateia inteira; na televisão, um pensamento já conta uma história. Isso exige outro tipo de precisão e preparo do corpo, como, por exemplo, em situações que o ator precisa se enquadrar 'naturalmente' diante de três câmeras ao mesmo tempo", explica Glaura. Ela ressalta ainda a novidade de acompanhar diariamente a reação do público:
"Saber que o trabalho entra na casa das pessoas todos os dias e estar atuando na construção de uma narrativa que se transforma junto com o olhar dessas pessoas são dinâmicas muito desafiadoras, trazem responsabilidades significativas e me estimulam profundamente como atriz."
A inspiração para Gisleyne, segundo Glaura, veio de pessoas próximas e de experiências reais. "Sem dúvidas, na minha mãe, Denise. Ela me ensinou muito sobre generosidade, presença e cuidado com o outro, e esses valores atravessam a Gisleyne. Contudo, há características que não são ensinadas, como quando minha mãe comete alguma gafe sem querer ofender. Ali, ela não está tentando 'fazer graça' ou ferir o sentimento de alguém, mas a situação se torna naturalmente engraçada e pode, ao mesmo tempo, 'pegar mal'. Isso é impossível de se copiar, mas serve de inspiração para ajudar a personagem existir com verdade e espontaneidade", conta.
Além da família, a atriz realizou uma imersão em uma cozinha profissional para observar as dinâmicas de convivência e hierarquia entre mulheres em ambientes de trabalho. "Essas observações ajudaram muito a construir a Gisleyne, especialmente na forma como ela se posiciona, ou deixa de se posicionar, diante da patroa Arminda 'Dona Cobra' (Grazi Massafera) e da família dela. Gisleyne reage como muitas pessoas reagem na vida real: tentando se adaptar, se manter no trabalho e seguir em frente, mesmo em ambientes emocionalmente desgastantes", detalha.
Glaura Lacerda transforma experiência nos palcos em estreia marcante na TV
Divulgação Nanda Araújo
O equilíbrio entre comicidade e momentos mais sérios da trama surge de forma orgânica. "O humor nasce da verdade com que a personagem se coloca no mundo, gerando identificação. As gafes e a falta de timing da Gisleyne existem, mas sempre atravessadas por um desejo genuíno de se conectar, de ajudar, de pertencer. Ela não tem consciência das próprias gafes; Gisleyne age movida por afeto", pontua.
A atriz cita uma de suas cenas mais icônicas: "Dentre suas gafes, umas delas, por exemplo, é a resposta diante da pergunta dos ‘bandidos’ sobre haver mais alguém naquela casa: 'Só tem eu e mais uma galinha na pia da cozinha... Mas ela já está morta.'"
Nos bastidores, o ambiente é colaborativo e generoso. "A Grazi é muito parceira em cena e o elenco todo tem um clima de troca e apoio. Às vezes, a 'dica' vem nos pormenores. Muita conversa e trocas sobre a possível intenção da personagem, por exemplo, com a atriz que eu mais admiro e tenho a honra de trabalhar que é a Arlete Salles. Enfim, é um ambiente que convida a gente a crescer junto", destaca.
O engajamento com o público nas redes sociais tem sido gratificante. "Primeiramente, eu encaro a presença no digital como um trabalho, porque dá trabalho, viu? Apesar de ser um canal cada vez mais acessível, a atividade de fomentar o digital envolve roteirização, captação de imagem, edição, produção, direção e tudo isso, quando se pretende fazer algo bem feito, requer investimento de recursos e dedicação", avalia.
Entre vídeos virais e mensagens de fãs, Glaura reforça que a conexão verdadeira é o que mais importa: "Minha mensagem chega geralmente com humor ou informação. Então, eu fico muito feliz quando isso alcança um milhão de gente, mas também fico contente quando 'só' chega a algumas centenas de pessoas. É sinal de que a mensagem chegou de forma leve a quem tinha que chegar e porque eu não me conectaria tão facilmente a essas pessoas em um espaço físico", observa.
Da comédia ao improviso: Glaura Lacerda reflete sobre carreira e novos projetos para 2026
Divulgação Nanda Araujo
A metodologia de atuação de Glaura, fruto de anos de estudo no teatro, improviso e da criação do método E.L.A. (Engajamento Lúdico na Aprendizagem), também influencia sua presença na TV.
"O E.L.A. não entra na minha atuação como uma técnica externa ou adjacente. Foram anos de estudo e desenvolvimento de uma metodologia que, hoje, é inerente a mim, como ser humano, portanto, atravessa e se manifesta em todas as minhas criações artísticas. Na televisão, onde tudo é rápido, dinâmico e com alto nível de exigência ao encontro da 'perfeição' ou da satisfação da audiência, E.L.A. faz muita diferença: são técnicas que me ajudam, racional e emocionalmente, a me adaptar às propostas da direção, ao parceiro de cena e ao ritmo da gravação, sempre a serviço da história", acrescenta.
Para 2026, a atriz traça planos ambiciosos nas artes cênicas e no desenvolvimento humano. Entre eles estão a conclusão de seu solo de humor, a nova temporada da peça "A Vida Começa aos Sessenta" em São Paulo, apresentações do grupo de improviso "3 é demais" e a expansão do método E.L.A., disponível tanto em formatos online quanto presenciais.
"A comédia sempre foi meu lugar de conforto nos palcos. Dessa vez, gostaria de explorar minha linguagem de humor também nas telas de cinema, TV e streaming. No teatro, seria interessante navegar por águas que me elevam e me desafiam como artista, como um drama ou até mesmo um musical", adianta.
