Gercina Borges: a mulher mais poderosa de Goiás

Gercina Borges: a mulher mais poderosa de Goiás - Foto
Fonte da notícia: Jornal Opção Jornal Opção

Goiás encontrou uma maneira muito educada de diminuir Gercina Borges Teixeira: chamou-a de santa. A mulher que conhecia os caminhos do poder, mobilizava dinheiro, aproximava adversários e influenciava o fundador de Goiânia, seu marido, foi acomodada no altar da caridade.

Ali podia receber flores sem perturbar a distribuição masculina dos feitos históricos. Pedro construía a capital.

Gercina ajudava os necessitados. A divisão parece impecável – sobretudo para quem escreveu a história.

Pedro e Gercina: inseparáveis | Foto: Divulgação O entanto, basta examinar um pouco melhor essa aparente organização doméstica para descobrir que a senhora dos retratos tinha participação bem menos decorativa.

A assistência social lhe permitiu organizar instituições, estabelecer contatos, estreitar laços e construir uma autoridade própria. A bondade existia.

A política também. Separá-las é, no mínimo, uma conveniência estabelecida por quem veio depois.

Nascida em Rio Verde, em 26 de agosto de 1900, Gercina era filha de Antônio Martins Borges, liderança política do sudoeste goiano. Estudou em Franca, no interior paulista, onde se formou normalista em 1917.

No ano seguinte, casou-se com Pedro Ludovico Teixeira. Teriam seis filhos.

A futura primeira-dama chegava ao casamento com educação formal e o pertencimento a uma família que conhecia o exercício da influência muito antes do marido alcançar o governo. Gercina, desde o início do casamento com Pedro, em 1917, já exercia grande influência sobre o líder goiano | Foto: Divulgação

Esse detalhe incomoda um pouco a narrativa do fundador que emerge sozinho, armado de vontade, para enfrentar as velhas oligarquias. O pai de Gercina havia sido aliado de Totó Caiado antes de se aproximar politicamente do genro e combater o antigo grupo.

A renovação goiana também se fez com relações herdadas do mundo que pretendia superar. As rupturas costumam ter parentes.

Gercina conheceu, ainda em Rio Verde, a parte da política que chega à porta acompanhada de soldados. Um relato preservado pelo Museu da Memória de Goyaz conta que ela enfrentou um delegado que pretendia entrar em sua casa à procura de Pedro Ludovico.

Gercina o  impediu exigindo ordem judicial. Mais tarde, diante do risco de ser capturada junto à família, deixou a cidade de madrugada com as crianças.

Caminharam até encontrar um transporte que os deixou em Uberaba. É um episódio transmitido pela memória biográfica, mas suficientemente expressivo para perturbar a imagem da esposa apenas serena, recolhida à espera dos acontecimentos.

Nesta história, ela tomou a decisão e retirou os filhos do perigo. Goiânia, final da década de 1930: Gercina ajudou a cidade a aprender a existir | Foto: Divulgação

Com a vitória de 1930, o casal chegou ao Palácio Conde dos Arcos, na antiga capital. A mudança para Goiânia, em 1935, colocaria Gercina diante de uma cidade que precisava aprender a existir enquanto era construída.

Havia o desenho das avenidas. Havia também gente adoecendo.

O projeto modernizador podia prever palácios, repartições e perspectivas monumentais. A população chegava com necessidades menos fotogênicas: comida, abrigo, atendimento médico, um lugar para deixar os filhos.

Entre a capital anunciada e a cidade vivida, abria-se um espaço que Gercina ajudaria a ocupar. A Santa Casa foi sua realização mais duradoura.

Ao lado dos vicentinos, participou da mobilização iniciada em 1936. Vieram festas, quermesses, sorteios, doações e trabalho voluntário.

Operários empregados na construção dos edifícios públicos ofereciam dias de descanso à obra assistencial. Em 1937, instalaram-se o dispensário e o ambulatório.

O atendimento cresceu com serviços voltados à infância, maternidade e formação de profissionais de enfermagem. A instituição resultou de um esforço coletivo que encontrou nela a articuladora central.

Gercina e Pedro, na porta da Santa Casa de Goiânia, inaugurada por ela em 1936 | Foto: Divulgação A palavra “caridade” parece pequena para descrever o trabalho de convencer, arrecadar, organizar e sustentar uma iniciativa dessa dimensão.

A experiência de Gercina ajuda a compreender como as mulheres exerciam influência nos espaços em que lhes era permitido atuar. A religião e a benemerência ofereciam uma passagem para a vida pública.

Podiam liderar, desde que sua liderança fosse apresentada como extensão da virtude doméstica. A competência precisava entrar acompanhada de um atestado de bondade.

Gercina presidiu a Legião Brasileira de Assistência (LBA) em Goiás, mobilizou campanhas e participou da construção de uma rede de atendimento que ampliava sua presença para além do palácio. A primeira-dama recebia as demandas que a administração não resolvia — ou sequer enxergava.

O trabalho social ajudou Gercina Borges ampliar sua presença bem além do Palácio das Esmeraldas | Foto: Divulgação Na Santa Casa, ela apoiou a criação de um serviço funerário para quem não podia pagar.

Também incentivou cursos profissionalizantes e defendeu a construção de moradias populares, apelidada de Vila dos Pobres, que atendia as  pessoas que habitavam em condições insalubres na cidade. Gercina defendeu a construção de bairros populares em Goiânia para que pudessem abrigar a população carente da cidade | Foto: Divulgação

Gercina também fundou a Organização das Voluntárias de Goiás (OVG). Foi o afinco ao trabalho de assistência que lhe rendeu o título d mulher mais importante da história social de Goiás no século XX.

Há generosidade nessa história, mas também existe a questão política que uma homenagem não deveria dispensar: quando o acesso à assistência depende da intervenção pessoal de alguém próximo ao governante, o direito adquire o rosto de quem atende. A gratidão se dirige à pessoa.

O governo recebe parte dos dividendos. Reconhecer esse mecanismo não desqualifica o cuidado prestado.

E explica claramente por que aquela mulher era poderosa. A casa, os encontros políticos e as relações pessoais faziam parte da vida de Gercina tanto quanto os gabinetes.

Ela era, de fato, uma mulher poderosa | Foto: Divulgação A primeira-dama aprendeu com o pai, e sabia reunir quem precisava conversar.

Gercina teve grande atuação na aproximação de adversários do ludoviquismo, tanto na composição de alianças como no aconselhamento dos assuntos políticos ao marido. Sua autoridade atravessaria ainda o período em que Mauro Borges, seu filho, governou Goiás.

A casa, encontros e as relações pessoais faziam parte da vida política dessa mulher tanto quanto os gabinetes. Casarão da Rua 26, onde moravam Pedro e Gercina.

Hoje, um museu. (Foto: Divulgação)

No casarão da rua 26, Dona Gercina acompanhava as reuniões à porta e em silêncio; antes de concluir acordos, Pedro procurava sua reação. A imagem concentra uma ordem inteira: a mulher podia influenciar a decisão, enquanto a cadeira continuava reservada aos homens.

De longe, Pedro buscava no olhar da esposa a aprovação ou desabono sobre assuntos que diziam respeito à decisões que poderiam alterar ou não a vida dos goianos. Imagem que estabelece posição

Até a elegância merece ser observada com menos distração. Nos retratos, os tailleurs e a composição cuidadosa da aparência ajudam a construir uma presença pública.

Gercina descobriu bem cedo que a roupa também estabelece posição. Havia naquela apresentação uma autoridade que a legenda “esposa do governador” não conseguia explicar por inteiro.

Gercina sabia que elegância fazia parte do pacote do poder | Foto: Divulgação A aproximação com Evita Peron, sugerida pela associação entre assistência, imagem e influência, funciona como uma pergunta, não como equivalência histórica.

Gercina teve outra origem, escala e maneira de se apresentar. Sua força se construiu no mundo político goiano, com vínculos familiares, a religiosidade e formas particulares de negociação.

O poder tampouco lhe poupou a experiência da perda. Em 1952, perdeu o filho, Antônio Borges Teixeira, em um acidente de avião quando viajava de Rio Verde para a capital.

Pedro Ludovico e Gercina ficaram desolados ao saber da notícia. Mas foi Pedro, o revolucionário de 1930, o homem que transferiu a capital goiana, que desmoronou ao ver o caixão do filho.

O semblante abatido e a necessidade de ser amparado pelos amigos demonstraram o golpe que aquela perda aplicou em sua alma. Ele ainda tentou se manter firme durante o enterro de Antônio no Cemitério Santana, em Goiânia, mas a dor era tanta que sofreu uma vertigem e teve que ser levado para casa.

Gercina permaneceu. Em 1964, ela acompanhou a deposição de Mauro Borges do governo estadual.

A família que estivera no centro das decisões conhecia agora a vulnerabilidade diante de forças que já não controlava. Gercina foi atuante na gestão do filho, principalmente como orientadora.

Sugeriu nomes para a equipe como Iris Rezende, e defendeu o mandato de Mauro até mesmo durante a crise da legalidade imposta pelo regime militar. Quando os aviões da FAB sobrevoaram o Palácio das Esmeraldas, em 1964, Gercina disse ao filho, o ex-Governador Mauro Borges, que morreria ao lado dele | Foto: Divulgação

Segundo Mauro Borges, em entrevista à jornalista Patrícia Machado para o Jornal Opção, o ex-governador contou que a mãe, ao ver os aviões da Força Aérea sobrevoando o Palácio das Esmeraldas, chegou e disse:” Meu filho, viemos morrer com você”. Anos depois, um consultório médico produziria uma das cenas mais fortes dessa trajetória.

Hélio Moreira contou, em depoimento ao Jornal Opção, que examinou Gercina e identificou um tumor no intestino. Pedro Ludovico, também médico, compreendeu a gravidade.

Perguntou sobre a urgência e o custo da cirurgia. Moreira dispensou seus honorários; restariam as despesas hospitalares.

Pedro pediu uma semana. Gercina e Pedro Ludovico viveram juntos por quase 60 anos: uma vida intensa e cheia de histórias | Foto: Divulgação

Segundo o médico, só depois ele soube a razão: Ludovico precisava vender algumas vacas para completar o dinheiro. A solicitação partiu do marido, e o relato não autoriza transformar o episódio em uma história de indigência.

Mostra algo mais preciso: diante de uma cirurgia urgente, faltava dinheiro disponível ao casal que ocupara durante tantos anos o centro do poder estadual. Gercina morreu em 22 de novembro de 1976, aos 76 anos.

A memória que deixou passaria por suas próprias humilhações como discussões sobre a devolução de seu busto a um lugar de destaque na Santa Casa. A peça ficou anos guardada no almoxarifado.

Uma homenagem à mulher que ajudara a erguer o hospital aguardava espaço entre os objetos armazenados. Até hoje, o busto continua guardado.

Há outro busto dela à frente da capela que um dia fez parte do complexo da Santa Casa de Misericórdia na rua 4, no Centro de Goiânia. Em 2019, o Jornal Opção publicou a denúncia de furtos no Cemitério Santana que atingiram também o jazigo da família Ludovico Teixeira.

Levaram puxadores de bronze. A cidade encontrava dificuldade para preservar até o lugar onde repousavam aqueles a quem dedicava seus discursos.

Às vésperas dos cinquenta anos de sua morte, Gercina merece leitura que suporte suas dimensões: uma mulher de origem privilegiada, católica, articuladora, mãe enlutada, dirigente assistencial e participante de um projeto político que mudou a história de Goiás. Chamá-la de “mãe dos pobres” registra um vínculo real.

Usar a expressão para encerrar sua biografia é deixá-la outra vez à porta. Goiânia cresceu em torno de uma praça onde o poder ganhou edifícios, nomes e monumentos.

Gercina ajudou a sustentar a vida que chegava até eles. Para compreender a cidade, será preciso acompanhá-la além do retrato, seguir o dinheiro arrecadado, os encontros organizados, as instituições construídas e decisões que ajudou a tomar.

Depois de tanto tempo, a cadeira ao lado de Pedro naquela mesa de homens continua esperando. Mas Gercina já não precisa mais pedir licença para se sentar.

Gercina Borges Teixeira: muito mais que a “mãe dos pobres” | Foto: Divulgação

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