Geraldo Azevedo relembra 60 anos de carreira e diz que não para de compor:

Geraldo Azevedo relembra 60 anos de carreira e diz que não para de compor: 'Quero dizer muito mais coisas'

 

Fonte: Bandeira



Para o pernambucano Geraldo Azevedo, a “velhança”, como ele chama a velhice, não tem tanto peso assim. Viajar para fazer shows pode ser um pouco mais cansativo hoje aos 81 anos de idade — e 60 de carreira —, mas, quando ele sobe num palco, se sente como um menino de novo, afirma, em entrevista ao GLOBO por telefone, na terça-feira.

— Brincar é tocar e, para mim, brincadeira é a coisa mais séria do mundo — diz o artista, que traz nesta sexta (29) ao Rio, pela primeira vez, a turnê “Oitentação”, que começou ano passado, como celebração aos 80, e vai seguir, ele brinca, até virar “Noventação”. — Sempre vou gostar de brincar.

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O show no Rio vai ter participação de Paulinho Moska. Na abertura, DJ João Pedro Rocha, o primeiro com Síndrome de Down do Brasil. No setlist, sucessos de seis décadas de carreira, como “Dia branco” e “Bicho de 7 cabeças”, se unem a uma versão de “O sal da Terra” (Ronaldo Bastos e Beto Guedes) e à inédita — e, segundo ele, “feminista” — “Arthur e Alice”.

Criada em homenagem a uma cantora baiana que conheceu pelas turnês da vida, há muitos anos, a música leva o nome dos filhos da homenageada, que costumavam ficar nos bastidores dos seus shows em Teixeira de Freitas, no interior da Bahia.

— É uma homenagem a uma mãe que tinha que criar os filhos sozinha — conta. — E a gente vê muito no Brasil a batalha das mulheres que seguram a barra sozinhas, sem o apoio do pai da criança.

As parcerias

Geraldo Azevedo e Alceu Valença em 1972

Paulo Moreira / Agência O Globo

Como num fio de novelo que vai se desenrolando, a história da mãe solo no interior baiano puxou, na memória de Geraldo, a de outra baiana — esta, natural de Juazeiro: Ivete Sangalo. Quando ela estava começando a carreira na música, entre o final dos anos 1980 e o início dos 90, Geraldo a apoiou.

— Fui tocar em Juazeiro e me falaram: "Rapaz, tem uma menina aqui que está começando e ela é louca para tocar para um público grande assim como o seu. Você dá a oportunidade dela abrir o seu show?". Ela chegou, e perguntei: "Você se garante?". Ela disse que sim, foi lá só de voz e violão e arrasou — recorda. — Ela tem uma gratidão muito grande por eu ter aberto esse espaço para ela provar que podia cantar para um público grande. Hoje, ela é uma das maiores estrelas do Brasil.

Geraldo Azevedo e Ivete Sangalo em gravação do CD "Casa do Forró", em 1998

Simone Marinho

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Décadas antes, Geraldo já havia estendido a mão para outra artista iniciante, a paraibana Elba Ramalho, com quem chegou a dividir um apartamento. Elba sonhava em ser atriz, mas, percebendo a grande voz que ela tinha, Geraldo deu forças para o (bem-sucedido) caminho que ela começaria a trilhar na música:

— Ela fez o primeiro disco, praticamente, porque foi morar comigo. Ela fazia teatro, eu fui dirigir uma peça dela e descobri aquela pessoa com uma veia musical muito grande. Ela vivia de uma maneira muito "aqui e acolá", na casa das pessoas, e então fomos morar juntos. Com isso, falei: "Vamos fazer um disco seu, você canta para caramba". Fizemos, e ela praticamente largou a profissão de atriz.

Anos depois, em 1996, com carreiras já consagradas, os dois formaram “O grande encontro” com Zé Ramalho e Alceu Valença — “irmão musical” com quem começou a carreira praticamente junto, no final dos anos 1960, quando se mudou para Recife (em 1972, eles lançaram, em conjunto, o disco autoral “Quadrafônico”).

Geraldo Azevedo e Alceu Valença em 1972

Paulo Moreira / Agência O Globo

'O segredo' dos oitentões da MPB

Desde o ano passado no time dos oitentões da música brasileira — com Caetano Veloso, Gilberto Gil (ambos com 83), Ney Matogrosso (84), Jorge Ben Jor (87) e tantos mais —, Geraldo em breve recebe nesse grupo o amigo Alceu, que completa 80 anos no dia 1º de julho. Todos os artistas citados na última frase estão em plena atividade. Qual é o segredo deles? Geraldo tenta responder:

— É impressionante. Participei do show "Tempo Rei", do Gil, num encantamento incrível. O show era de duas horas e meia, e ele ficava em pé, sentava só num pedacinho. Fiquei impressionado com a energia dele. E, na passagem de som, ele passava praticamente o show inteiro. Era como se fizesse dois shows por dia. Meu Deus do céu, o que é isso? Aquela música de Caetano que diz "por isso essa força estranha..." traduz muito essa coisa da gente, que faz a gente cantar. Tem uma força estranha. Realmente, chego no palco e viro um menino. Meus músicos, todos mais novos, ficam impressionados.

O rótulo de 'regional'

Rotulado muitas vezes como um artista “regional”, Geraldo relembra as fortes influências da bossa nova para tentar se definir musicalmente:

— Aqui no Sudeste, eu sou um artista regional. No Nordeste, sou da MPB. Quando vou para fora do Brasil, me tratam como “World music” — comenta. — Hoje sinto que sou a música popular brasileira. Não me sinto “regional”. Sou um artista do mundo.

No 33º Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira, que acontece dia 10 de junho, no Theatro Municipal do Rio, Geraldo concorre como "Melhor artista" dentro da categoria "Raízes" (com Dona Onete, João Gomes, Mestrinho e Orquestra Malassombro). Como "Melhor artista" em "MPB" estão Djavan, Dori Caymmi, Marisa Monte, Mateus Aleluia e Mônica Salmaso).

Música e política

Longe das definições e perto da música, ele lembra as duas vezes em que foi preso durante a ditadura militar (em 1969 e em 1975) e destaca a dimensão política do trabalho artístico.

— Sempre fui um batalhador nesse sentido de fazer um mundo melhor. Cheguei a ser preso duas vezes durante a ditadura. E sinto que existe uma comunidade querendo tornar esse planeta mais vivo e saudável. Mas, hoje em dia, a gente tem um Congresso muito difícil, onde as pessoas não trabalham em função do país e da Terra, é mais em função delas próprias. É uma coisa triste. Sinto falta daquelas manifestações que a juventude e os estudantes faziam. A gente "se ligava" muito mais — destaca Geraldo (que, em setembro do ano passado, participou do protesto contra a “PEC da Blindagem”, em Copacabana, com Caetano, Gil e mais parceiros).

Desde sempre ligado às questões ambientais, Geraldo se diz um "artista ecológico". "Salve São Francisco" (2011), álbum criado para a conscientização da preservação das águas do rio homônimo, rendeu à ele uma indicação ao Grammy Latino de "Melhor Álbum de Música de Raízes Brasileiras". Hoje, 15 anos depois, ele lamenta as mudanças sofridas pelo rio em razão da ação humana e se mostra preocupado com a falta de água no planeta ("O Rio São Francisco, para mim, é quase como uma veia que passa no meu coração", destaca)

— A música é um viés que facilita a união. A manifestação que eu faço através dela é pequena, mas ao menos é como um beija-flor que leva um pingo d’água para apagar o fogo. Vou levando os meus pinguinhos (risos) — completa.

O futuro

As tantas memórias do artista se misturam ao seu anseio pelo futuro. Emocionado e realizado de ver que suas músicas atravessam gerações e marcam as vidas das pessoas (que, nos shows, cantam junto com ele, a plenos pulmões), Geraldo garante que não para de compor:

— Eu quero dizer e fazer muito mais coisas. Tomara que eu continue com a disposição que tenho agora até os 100. Tenho uma família longeva: minha mãe morreu com 95 e, meu pai, com 97. Posso não ter a mesma energia ou os mesmos hormônios (da juventude), mas quando temos boa vontade, bom humor e esperança, prolongamos isso. O Ney Matogrosso (84) no palco é um menino, é impressionante. Eu quero ser assim, feito o Ney (risos).

Geraldo Azevedo chega ao Vivo Rio com "Oitentação"

@thiagolemosc/Divulgação

Programe-se: Geraldo Azevedo no Rio

Onde: Vivo Rio, Parque do Flamengo

Quando: Sexta (29), às 21h

Quanto: De R$ 120 a R$ 260 (assinante O GLOBO tem desconto)

Classificação: 18 anos

Próximas datas

31 de maio: São Paulo (Espaço Unimed)

3 de junho: Brasília (Centro de Convenções Ulysses Guimarães)

11 de julho: Belo Horizonte (Palácio das Artes)

17 de julho: Salvador (Concha Acústica do Teatro Castro Alves)