Gasolina na floresta e aviso sobre 'queimar de novo': ministro vê 'ação deliberada' em 'incêndios criminosos' na Amazônia

Gasolina na floresta e aviso sobre 'queimar de novo': ministro vê 'ação deliberada' em 'incêndios criminosos' na Amazônia - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

O ministro do Meio Ambiente, João Capobianco, e autoridades do governo do Amazonas afirmaram, em coletiva nesta quarta (14), que a identificação e punição de responsáveis por incêndios criminosos são um dos principais focos da atuação no combate às queimadas que vêm levando fumaças a cidades como Manaus e Porto Velho.  A Polícia Civil já abriu 120 procedimentos criminais, e o ministro disse que há suspeitas até de ação organizada. A fumaça do fogo chegou em Rondônia: veja o antes e depois das imagens aéreas de Porto Velho O caminho da fumaça: veja as rotas de ventos que transportaram fuligem das queimadas do Pará e do Amazonas até Manaus Entenda: Crise da fumaça no Amazonas gera embate entre governos e mobiliza aviões da Força Aérea — Vamos intensificar a ação com objetivo de identificar e levar à justiça os responsáveis pelos incêndios criminosos, que estão ocorrendo em grande quantidade. Há realmente uma situação impressionante de ação deliberada — explicou João Capobianco, que destacou a integração entre governos federal,  estadual e das forças de segurança. — Precisamos livrar a população de Manaus dessa fumaça extremamente prejudicial, mas ao mesmo tempo garantir que os responsáveis sejam efetivamente punidos. Se nós não punirmos os responsáveis, não vamos conseguir resolver o problema, porque é algo deliberado. O ministro e o presidente do Ibama, Jair Schmitt, relataram dois exemplos de ação deliberada identificados nos últimos dias. Em um, a equipe do Ibama encontrou garrafas com combustíveis sendo jogadas nas florestas, ao longo das estradas. Relatos dão conta de que o material seria lançado de dentro de caminhonetes. Outro caso preocupante foi relatado pelos próprios bombeiros, que dizem terem ouvido de pessoas que não adiantariam apagar o fogo, que elas iriam queimar os locais novamente. Ainda não há clareza das motivações por trás desses atos, mas João Capobianco explicou que tudo está sendo investigado, inclusive a possibilidade de relação política. Questionado, o ministro também confirmou as suspeitas de ação organizada em rede. — Existe uma suspeita de ação organizada. Por isso, também temos a participação da Abin para verificar se está acontecendo aqui o que aconteceu no Dia do Fogo, no Pará, que teve ação combinada (em 2019). E a ação combinada em São Paulo em 2024 com mais de 2 mil incêndios simultâneos iniciados. É uma suspeita sendo investigada, ainda não é possível afirmar nada — disse Capobianco. El Niño atrasou período do fogo Tradicionalmente, o pico dos incêndios no Amazonas e no Pará acontece em agosto. Mas, nesse ano, o efeito crítico começou em setembro e continua em outubro. Esse "atraso" na temporada de fogo seria um efeito do El Niño, disse João Capobianco. Desde setembro, já houve 20.203 focos de queimadas na Amazônia, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, sendo 48% no Pará e 26% no Amazonas. Nas últimas semanas, a Polícia Civil do Amazonas abriu 120 procedimentos criminais para detectar criminosos que possam ter ateado fogo de forma deliberada, explicou Coronel Anézio Paiva, secretário de Segurança Pública do Amazonas. Esses procedimentos, porém, são Termos Circunstanciados de Ocorrências (TCOs), usados para infrações de menor potencial ofensivo, como as infrações ambientais. Nessas situações, o cidadão é ouvido na delegacia, liberado e depois pode responder pela infração. Para a apuração dos casos, a polícia está usando drones termais durante o dia, aeronave águia à noite com equipamento termal e equipes em terra. Através do canal 181, mais de 100 denúncias anônimas foram verificadas, complementou Paiva. — Os casos são repassados para os delegados, para que não tenha situação de cidadão fazer incêndio, causar transtorno à sociedade amazonense, e ficar impune — explicou o secretário, que acrescentou que o decreto estadual com proibição de uso de fogo é usado para embasar os procedimentos. —Se identificar organização criminosa, aí vira prisão em flagrante. Mas nesse momento, infelizmente, só tem lavratura de TCO.  Jair Schmitt explicou que cerca de 75% das áreas de incêndio estão em um raio de até 150 quilômetros de Manaus. Segundo ele, os números mostram uma redução dos eventos de fogo, a partir dos esforços de combate e dos variáveis climáticas, pois houve chuva recente. — A situação é sensível e o trabalho continua até a extinção total dos incêndios — disse o presidente do Ibama, que destacou a ampliação dos esforços de modo integrado e coordenado — Grande parte dos incêndios criminosos tem origem antrópica. Desse fogo causado pelo ser humano, boa parte é criminoso. Precisamos coibir a ignição para que não ocorra incêndio. Não adianta só ir lá combater, se sempre tem alguém reacendendo, colocando fogo, frequentemente. Área queimada aumenta 249% em outubro De acordo com o sistema Alarmes, do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais do Departamento de Meteorologia da UFRJ Lasa/UFRJ, a área queimada no Amazonas em setembro foi 38,8% maior que a média histórica, passando de 209.651 para 291.060 hectares. Em outubro, o aumento será muito maior. Pois, até aqui, a área queimada já soma 220,7 mil hectares, 249% maior que a média histórica do mês inteiro: 63,2 mil hectares. Pesquisadores apontam que a alta de fogo desde setembro já é o início do efeito do forte El Niño que está se formando. O fenômeno climático causa excesso de chuvas no Sul brasileiro e seca severa e ondas de calor no Norte.

Além disso, como houve poucas queimadas nos últimos dois anos no Brasil, há muito material combustível disponível, como folhas secas, nos terrenos, o que facilita a propagação de fogo, destacam especialistas.

Incêndios no Amazonas: focos em áreas preservadas da floresta indicam ação humana intencional, diz ministro Fumaça no Amazonas: com 36 cidades em emergência, aeronaves da FAB atuam no combate a incêndios 'Estamos sendo defumados vivos': moradores de Manaus sofrem nova onda de fumaça por queimadas e Defesa Civil emite alerta A fumaça que encobriu Manaus nas últimas semanas e que deixou a cidade com a pior qualidade de ar do Brasil foi transportada por correntes de vento que vieram desde o Pará. Simulações do Lasa/UFRJ mostram as trajetórias de massas de ar desde o último dia 10 e os locais mais prováveis de origem da fuligem, oriunda de queimadas na região. Rotas para a fumaça Editoria de Arte A análise do Lasa UFRJ se baseou nas rotas do vento ocorridas e previstas entre os dias 10 e 15 de outubro. As simulações revelam que a fumaça veio de queimadas ao leste de Manaus, desde o Pará. Na área ao sul de Santarém, onde fica a Floresta Nacional do Tapajós e cidades como São Benedito e São José, a corrente de ar passa exatamente pel área de maior concentração de queimadas.

Já no Amazonas, a maior concentração está na Região Metropolitana de Manaus, em cidades como a Itacoatiara, Autazes, Careiro e Careiro da Várzea. As correntes de ar também passam por essa região, mostra o Lasa. — Foi realizada uma análise de trajetórias de massas de ar com o objetivo de investigar a origem das massas de ar que alcançaram Manaus e identificar regiões que potencialmente contribuíram para o transporte de fumaça até a cidade. A análise buscou, portanto, avaliar a possibilidade de transporte atmosférico proveniente de regiões situadas a montante de Manaus e sua potencial contribuição para alterações na qualidade do ar local — explicou Renata Libonati, coordenadora do Lasa. — A distribuição espacial das trajetórias indica que as massas de ar que influenciaram Manaus podem ter percorrido áreas do Pará.

Somente a análise de trajetórias não é o suficiente para especificar os locais de origem da fumaça, frisa Libonati. Entretanto, o acréscimo das informações de ocorrência de queimadas ajuda a desvendar a rota. — A combinação das trajetórias com informações sobre a ocorrência e localização dos focos de incêndio sugere que as regiões situadas a leste de Manaus apresentaram um elevado número de focos de incêndio no acumulado de sete dias anterior ao período analisado, sendo potencialmente relevantes como áreas de origem da fumaça transportada até Manaus. Pior ar do Brasil Desde a semana passada, Manaus vem registrando a pior qualidade do ar entre as cidades brasileiras monitoradas pela plataforma internacional IQAir. Na quinta-feira (8), a concentração de partículas finas PM2.5 chegou a 200 microgramas por metro cúbico (µg/m³) às 22h, segundo a Defesa Civil municipal.

Já o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), ligado à Universidade do Estado do Amazonas, registrou um pico de 344,5 µg/m³ às 2h da madrugada de sexta-feira (9). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o limite recomendável de PM2.5 é uma concentração de 15 (µg/m³), na média de 24 horas.

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