'Gandhi está pegando fogo': Boom das cervejas artesanais desafia campanha contra o álcool na Índia

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

"Gandhi está pegando fogo!", repetiam alguns dos clientes do bar Fort City, em Nova Délhi em uma movimentada noite de segunda-feira. Eles não se referiam ao líder da independência indiana ou ao longevo clã político homônimo, mas sim à chegada de Gautham Gandhi, um dos fundadores do bar e personagem de uma revolução no mercado cervejeiro indiano. O número de cervejarias disparou nos últimos anos, e o mercado projeta números trilionários em médio prazo. Mas a moda das IPAs, amber ales e hoppy lagers convive com um movimento contrário, o da temperança promovida por políticos próximos ao premier Narendra Modi e a adoção de políticas restritivas de consumo de álcool no país. Impacto mortal: Calor extremo impõe desafio existencial à Índia, e governo acelera planos de resiliência climática O GLOBO no Mundo: Receba as notícias internacionais direto no seu celular Quer morar fora? Ferramenta do GLOBO reúne informações sobre custo e qualidade de vida, salários, vistos, oportunidades e características de 36 países Segundo números de duas empresas de pesquisa de mercado — o Grupo Imarc e a Expert Market Research —, o número de microcervejarias na Índia deu um salto de 200 em 2023 para 500 até abril, com produções que variam de pouco mais de 500 litros por lote a mais de um milhão por mês. Até 2034, a previsão é de expansão de 23,4% do setor. O recorte demográfico dos consumidores ajuda a explicar a explosão: a maior parte dos indianos e indianas que passaram a consumir cervejas artesanais tem entre 21 e 35 anos e se concentram em cidades como Nova Délhi, Mumbai e Bengaluru, considerada por 10 entre 10 cervejeiros como a capital indiana da cerveja. Em um país onde mais da metade da população tem até 30 anos, especialistas afirmam com convicção que não é uma moda, mas uma tendência de longo prazo.

Na noite em que a reportagem do GLOBO esteve no Fort City, quase todos os clientes aparentavam ter menos de 30 anos. Alguns usavam laptops enquanto bebiam algumas das cervejas recém-produzidas, como a Double IPA batizada de Dua Lipa. Tal como a cantora britânica, ela equilibra notas de doçura com um amargor sutil. Gandhi fez questão de apresentar amostras dessa e de outros rótulos oferecidos naquele dia, além de um Butter Chicken, prato clássico de bares mundo afora, capaz de eliminar qualquer mau humor. O estilo retrô, a pouca luz e o quadro de Gandhi na parede retratado como um imperador da dinastia Mughal, além de um telão que exibia desenhos animados clássicos, completavam o cenário. Embora as primeiras cervejarias artesanais da Índia tenham surgido na primeira década do atual século, a relação do país com a bebida é bem mais antiga. Há registros de fermentados feitos com arroz e centeio, além de frutas e plantas aromáticas — muitas cervejarias modernas estão recorrendo a elementos típicos em busca de uma identidade local a seus produtos. No século XVIII, com a expansão do colonialismo britânico no subcontinente, surgiu a hoje hipsterizada IPA (India Pale Ale), criada para suportar os seis meses de viagem entre a Europa e a Ásia. No século XX, grandes cervejarias, como a onipresente Kingfisher ou a jovial Simba, ganharam corpo, mas ainda sem se aproximar do topo da lista de bebidas alcoólicas mais consumidas, hoje ocupado pelo uísque. De tsunamis a terremotos: Entenda como a Índia se tornou uma potência na gestão de desastres naturais Poucos países no mundo ostentam tantos contrastes como a Índia. Ao mesmo tempo em que as espelhadas torres com escritórios de empresas de alta tecnologia surgem em Noida, Nova Délhi e Mumbai, milhões vivem em áreas rurais com apenas alguns dólares por dia. Porsches recém-saídos da concessionária dividem as ruas com motos com algumas décadas de uso. A pureza da natureza nos arredores de Srinagar, na Caxemira, está a 800 km do caos da capital. Não poderia ser diferente sobre o que se bebe e o que se pode servir nos copos indianos. Hoje, quatro estados impõem barreiras à venda e consumo de álcool. Em Gujarat, o maior da lista, o veto foi imposto em 1960, e é o único a prever a pena de morte para o crime de produção e armazenamento de bebidas falsificadas, que todos os anos matam centenas de pessoas. Estrangeiros podem receber uma permissão, assim como funcionários de um hub financeiro no estado. Iniciativas para derrubar o veto foram rejeitadas pela Justiça local.

Há restrições totais ou parciais ainda em Bihar, Nagaland e Mizoram, e proibições em 19 cidades classificadas como religiosas em Madhya Pradesh desde março do ano passado. Em outros estados, há vetos específicos à venda e consumo durante festivais religiosos. As punições normalmente envolvem o pagamento de multas, mas podem chegar a longos períodos no cárcere, no caso de contrabandistas. O movimento contra o álcool na Índia surgiu nos tempos do Raj Britânico, influenciado por ideias dos EUA e Reino Unido, e contava com o aval de Mahatma Gandhi. Ele afirmava que o hábito da bebida havia acabado com impérios e o considerava “mais condenável do que o roubo e, talvez, até mesmo a prostituição”. — Se eu fosse nomeado ditador de toda a Índia por uma hora, a primeira coisa que faria seria fechar, sem indenização, todas as lojas de bebidas alcoólicas — teria dito, de acordo com relatos da época. Obra polêmica: Modi inaugura templo hindu em local de mesquita destruída na década de 1990 e cimenta fim de Estado laico na Índia Hoje, muitos políticos defendem uma proibição nacional do álcool com base em preceitos morais ou religiosos — o premier Modi não falou especificamente sobre o tema, mas sua política de promoção de um estilo de vida saudável não é compatível com o consumo de cerveja, uísque ou vinho regularmente. Mas há outra vertente que defende a lei seca como forma de combater a violência doméstica.

Em 2016, a pressão das eleitoras fez com que Bihar fosse declarado um “estado seco”, onde a venda e o consumo de álcool passaram a ser proibidos. As autoridades alegam que o número de crimes violentos caiu nos últimos 10 anos, mas reconhecem um aumento nos casos de intoxicação por álcool adulterado, facilmente obtido nas ruas. Em Tamil Nadu, a pressão por regras mais rígidas levou ao fechamento de milhares de lojas autorizadas a vender desde cerveja a uísque: em maio, 717 estabelecimentos localizados a menos de 500 metros de templos, instituições educacionais e pontos de ônibus baixaram as portas.

*O jornalista viajou a convite do Ministério das Relações Externas da Índia

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