Em certo momento de “Hombre al agua”, novo filme dirigido por Gael García Bernal, ouve-se o timbre inconfundível de Ney Matogrosso cantando “Flores astrais” (1973) com “Secos & Molhados”. Mais adiante, Toquinho e Vinicius de Moraes executam “Canto de Ossanha” (1971), em performance para voz e violão.
São canções brasileiras específicas, que se distinguem em uma trilha sonora de múltiplas influências, misturando desde clássicos do grupo cubano Buena Vista Social Club a criações recentes do blogueiro mexicano Carlos Zatch. “Costumo ouvir muita música enquanto desenvolvo os roteiros, e essas duas eram das muitas que voltavam aos meus ouvidos, e acabaram ficando porque dão corpo ao filme”, explica o ator e diretor mexicano, de 47 anos, em entrevista no Festival de Veneza, mês passado.
O ator e diretor mexicano Gael García Bernal Getty Images
Gael é, evidentemente, um fã de música brasileira, gênero com o qual começou a ter mais intimidade quando namorou uma carioca. “Eu já tinha uns 20 anos quando a conheci, mas foi por intermédio dela que me dei conta da variedade da música que é produzida no Brasil.
Sinto também que foi por essa época que comecei a falar português bem, na posição horizontal”, ri o diretor. “Mas, falando sério, ‘Flores astrais’ e ‘Canto de Ossanha’ são duas músicas que te fazem sonhar, pensar, contemplar, te enchem de inspiração e, principalmente, dialogam com a história de ‘Hombre al agua’.”
O filme, que ganhará pré-estreias no Brasil durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (15 a 29 de outubro), está cheio de outras referências brasileiras. Na trama, ele interpreta Camilo, um salva-vidas cubano que muda de vida ao resgatar do mar um rico empresário mexicano, que lhe oferece um emprego e, posteriormente, a mão de sua filha.
Mas quando sua mulher convida Fabiana, uma atriz brasileira, para interpretá-la em um filme sobre sua vida, Camilo começa a perceber que sua existência em meio ao luxo é uma farsa. E isso fica mais evidente quando o personagem passa a acompanhar uma telenovela brasileira estrelada por Fabiana, e inspirada nos primeiros anos de militância sindical de Luiz Inácio da Silva, o presidente Lula.
“As telenovelas do Brasil são incrivelmente populares em Cuba e no México, e fiquei tentando imaginar que tipo de história os personagens do filme estariam acompanhando na TV naquele momento, e que pudesse espelhar de alguma forma a sua condição. Foi divertido criar algo que parecesse uma novela em preto e branco dirigida pelo (cineasta dinamarquês) Carl Dreyer para a TV Globo, mas bem minimalista, bem estranha”, diz Gael, que convidou a paulista Débora Nascimento para viver Fabiana.
“A novela dentro do filme tem um feeling onírico, traz parte da nossa trajetória política, o que achei maravilhoso. Até porque telenovela é parte da cultura brasileira”, conta a atriz, que participou da estreia do longa em Veneza.
“Gael deu muita liberdade para eu criar minha personagem, mas me guiou ao longo de todo o processo.” O ator e diretor mexicano Gael García Bernal
Getty Images O mexicano já conhecia alguns trabalhos da brasileira no cinema, como “Pacificado” (2019), dirigido pelo americano Paxton Winters, mas chegou até ela com a ajuda da equipe de Walter Salles, que o dirigiu em “Diários de motocicleta” (2004).
“Vou muito ao Brasil. Como passo parte do meu tempo com meus filhos em Buenos Aires (Lázaro, 17 anos, e Libertad, 15, de seu relacionamento com a atriz e diretora Dolores Fonzi) e outra parte com a minha atual família na Cidade do México (a jornalista e escritora Fernanda Aragonés e o filho do casal, Cosmo, de 5), estou sempre indo e vindo, não tenho como escapar dessa alegria que é dar uma passadinha no Brasil pare rever os amigos, como (o diretor) Andrucha Waddington, e toda a gangue de atores com os quais eu trabalhei, o Wagner Moura, a Alice Braga e a ‘Marianita’ Ximenes, com quem fiz ‘Zoom’ (2015).”
Nascido em uma família de classe média na Cidade do México, Gael sempre teve consciência dos abismos sociais que marcam não só o seu país como toda a América Latina. E, assim como em seu dois longas anteriores como diretor, “Déficit” (2009) e “Chicuarotes” (2019), “Hombre al agua” retoma, pelo tom da fábula, um de seus temas preferidos: a luta de classes.
“Cresci assistindo a todos os desastres econômicos no continente; minha adolescência foi afetada pelas palavras e pela musicalidade do movimento Zapatista, liderado por indígenas e camponeses no Sul do México. Temos que usar o cinema e outras artes para falar dessas lutas, sim”, reforça Gael, dizendo que essa necessidade ficou mais evidente após o nascimento do primeiro filho.
“Comecei a realmente cuidar e proteger as coisas mais valiosas, a ser corajoso e aventureiro”, concluiu.
O Globo