Um envelope foi colocado sobre cada uma das cadeiras da plateia. Antes de começar sua apresentação, Rishad Tobaccowala, autor, professor e ex-estrategista global do Publicis Groupe, fez apenas um pedido: ninguém deveria abri-lo até o fim da palestra. Também avisou que não usaria slides nem vídeos. Quem quisesse dormir durante a próxima hora, brincou, poderia ficar à vontade. A proposta aconteceu durante sua apresentação no Universo Totvs, evento realizado em São Paulo para funcionários da companhia brasileira de tecnologia. Tobaccowala subiu ao palco com o objetivo de discutir como o trabalho, as empresas e os próprios seres humanos precisarão mudar para acompanhar uma tecnologia cujo impacto, segundo ele, ainda é subestimado. Uma das principais transformações, em sua avaliação, será a própria definição de emprego. Tobaccowala acredita que haverá mais trabalho e oportunidades de geração de renda no futuro, mas menos empregos tradicionais em tempo integral. Até o fim desta década, prevê, as empresas passarão a depender cada vez mais de profissionais com jornadas reduzidas e de agentes de inteligência artificial capazes de executar tarefas ao lado de funcionários humanos. "Os empregos são uma fase boba pela qual o trabalho está passando", afirmou, ao recuperar uma das ideias centrais de seu livro Re-Thinking Work, publicado em 2025 nos Estados Unidos e na Índia. Para ele, as organizações continuam estruturadas em torno de cargos e vínculos empregatícios, enquanto a tecnologia está transformando as atividades que precisam ser realizadas. A provocação é resultado de uma reflexão que começou antes mesmo da popularização dos agentes de IA. Em 2023, quando apresentou a proposta do livro à editora HarperCollins, Tobaccowala conta que ouviu uma recusa inicial. A justificativa, segundo ele, era que o manuscrito parecia mais uma obra de ficção científica do que um livro de negócios. Dois anos depois, a publicação chegou ao mercado. A tese parte de uma distinção aparentemente simples: trabalho e emprego não são sinônimos. Durante boa parte da história, argumenta Tobaccowala, as pessoas desempenharam atividades e geraram renda sem necessariamente ocupar um cargo formal em uma organização. O emprego, tal como é conhecido hoje, ganhou força com a Revolução Industrial. A inteligência artificial, na avaliação do especialista, pode acelerar uma reorganização desse modelo. Isso porque os sistemas de IA são desenvolvidos para executar tarefas, não necessariamente para ocupar cargos inteiros. "As empresas não estão organizadas em torno do trabalho. Elas estão organizadas em torno de empregos. E o que a IA faz? Trabalho", afirmou. Funcionários fracionados e colegas de inteligência artificial Na visão de Tobaccowala, duas categorias ganharão espaço nas empresas nos próximos anos: os profissionais “fracionados” e os agentes de IA. Os primeiros são trabalhadores que mantêm vínculos com as organizações, incluindo benefícios e participação nos resultados, mas atuam em jornadas menores, equivalentes a três ou quatro dias por semana.
Já os agentes são sistemas de inteligência artificial capazes de executar atividades com diferentes graus de autonomia, participando de processos que hoje dependem de funcionários humanos. A previsão do especialista é que essas modalidades tenham participação cada vez maior na composição das equipes até 2029, embora isso não signifique necessariamente o desaparecimento de empregos integrais, freelancers ou profissionais terceirizados. Para ilustrar a mudança, Tobaccowala citou a McKinsey, afirmando que a consultoria já combina dezenas de milhares de funcionários humanos com milhares de agentes de IA. Também mencionou a presença crescente desses sistemas em conversas e fluxos de trabalho corporativos. Mais do que a quantidade de agentes, o ponto central de seu argumento é que as empresas precisarão aprender a administrar equipes compostas por diferentes tipos de trabalhadores, humanos e digitais. A expansão do trabalho fracionado, por sua vez, seria impulsionada por fatores que vão além da tecnologia. O envelhecimento da população, por exemplo, pode aumentar a disponibilidade de profissionais experientes que desejam continuar trabalhando, mas não necessariamente durante cinco dias por semana. Ao mesmo tempo, jornadas mais flexíveis poderiam ajudar pessoas que precisam conciliar a carreira com o cuidado de filhos ou familiares. Há ainda uma terceira possibilidade, especialmente relevante diante da disseminação da IA: transformar ganhos de produtividade em redução de jornadas, em vez de demissões.
Tobaccowala questionou a lógica de empresas que anunciam cortes de pessoal associados à automação. Para ele, se uma organização consegue aumentar sua produtividade em 20%, poderia considerar a possibilidade de reduzir proporcionalmente a carga de trabalho de seus funcionários, preservando os vínculos empregatícios. "Se você conseguiu 20% de produtividade, por que quer se livrar de 20% das pessoas? Peça que elas trabalhem quatro quintos do tempo", sugeriu. A proposta, apresentada como alternativa aos cortes, não resolve automaticamente questões como remuneração, benefícios e custos trabalhistas. Mas ilustra a principal mudança de mentalidade defendida pelo especialista: em vez de pensar apenas em quantos funcionários uma empresa precisa manter, seus líderes deveriam avaliar como o trabalho pode ser distribuído. "Ninguém entende o tamanho da IA" Apesar de defender uma reorganização do trabalho, Tobaccowala não minimiza o potencial disruptivo da inteligência artificial. Pelo contrário. Para ele, a tecnologia é ainda mais transformadora do que sugerem as previsões mais otimistas. "Ninguém entende o tamanho da inteligência artificial", afirmou. Sua principal justificativa, porém, não está apenas na velocidade dos avanços. Tobaccowala acredita que a IA representa uma mudança na própria relação dos seres humanos com a tecnologia. Ao longo da história, ferramentas como a roda, os automóveis e a internet ampliaram as capacidades humanas. A IA, segundo ele, introduz uma dinâmica diferente, porque consegue interagir por meio da linguagem, produzir respostas e participar da realização de atividades intelectuais. "Não acredito que a IA seja uma ferramenta. Acredito que seja uma colaboradora", disse. Ele prefere, inclusive, a expressão alien intelligence, ou inteligência alienígena, para descrever a tecnologia. Não porque considere que os sistemas estejam vivos, mas porque entende que seu funcionamento é diferente da inteligência humana e das ferramentas tradicionais. Essa característica também ajuda a explicar, em sua avaliação, por que a inteligência artificial está entrando em dimensões cada vez mais pessoais da vida cotidiana. Além de aplicações profissionais, usuários recorrem a chatbots para buscar informações sobre saúde, conversar sobre dificuldades emocionais e estabelecer relações de companhia. A aproximação, contudo, traz novos desafios. Sistemas capazes de conversar de maneira convincente podem criar a impressão de compreensão e intimidade, mesmo sem experimentar sentimentos humanos. Se as máquinas estão adquirindo capacidades antes associadas exclusivamente às pessoas, o que continuará diferenciando os seres humanos? Para Tobaccowala, parte da resposta está justamente nas características que frequentemente tentamos corrigir: nossas contradições, imperfeições e decisões pouco racionais. "Somos bagunceiros", afirmou. Enquanto os computadores operam a partir de processos matemáticos, as pessoas hesitam, mudam de opinião e tomam decisões influenciadas por emoções e experiências. Para exemplificar, perguntou à plateia por que tantas pessoas usam relógios, mesmo tendo celulares capazes de mostrar as horas, ou compram carros quando poderiam recorrer a serviços de transporte. A provocação mais curiosa veio em seguida: qual seria o retorno sobre investimento de ter um filho? "Não faz sentido", respondeu, arrancando da lógica financeira uma reflexão sobre os limites da racionalidade na experiência humana. Na avaliação de Tobaccowala, essas características ajudam a explicar por que o futuro não deve ser pensado como uma disputa em que humanos e máquinas necessariamente se excluem. Ele acredita em um cenário de convivência e colaboração, no qual capacidades tecnológicas e humanas terão papeis complementares. Isso não significa, porém, que a transição será tranquila. O especialista reconhece dois riscos importantes. O primeiro é que instituições e políticas públicas continuam organizadas em torno do emprego tradicional, incluindo sistemas de proteção social e benefícios vinculados ao vínculo empregatício, como ocorre com parte dos planos de saúde nos Estados Unidos. O segundo é que a inteligência artificial pode eliminar determinados postos de trabalho mais rapidamente do que novas oportunidades conseguem surgir. "Como a IA está avançando tão rapidamente, ela pode, no curto prazo, destruir empregos mais depressa do que novos são criados", alertou. A possibilidade contrasta com sua perspectiva de longo prazo, segundo a qual haverá mais oportunidades de trabalho e geração de renda. Para Tobaccowala, administrar esse intervalo entre a eliminação de funções e o surgimento de novas atividades será um dos principais desafios das empresas e da sociedade. Diante dessas transformações, o especialista defende que profissionais de todas as idades desenvolvam seis competências, que ele chama de seis Cs: criatividade, curiosidade, cognição, colaboração, convencimento e comunicação. A criatividade envolve a capacidade de produzir, construir e expressar ideias. A curiosidade, por sua vez, está relacionada ao hábito de questionar certezas e imaginar possibilidades. Já a cognição aparece associada ao aprendizado contínuo, incluindo a dedicação de tempo para compreender novas tecnologias. As outras competências dizem respeito à interação com pessoas e sistemas: colaborar, convencer e comunicar. Tobaccowala deu especial atenção à comunicação. Em um mundo no qual ferramentas digitais conseguem traduzir idiomas e gerar códigos de programação, ele considera cada vez mais importante saber organizar pensamentos, contar histórias e transmitir ideias com clareza. Rishad Tobaccowala, durante o Universo Totvs 2026 Editora Globo A necessidade de atualização também se estende às lideranças. Para ele, o modelo tradicional de comando e controle é pouco adequado a um ambiente de mudanças aceleradas. "A liderança moderna é jazz. É improvisação", comparou. A metáfora contrapõe o gênero, marcado pela improvisação e pela interação entre músicos, à música clássica conduzida por um maestro. Nas empresas, argumenta, líderes precisarão estimular a colaboração e exercer influência mesmo sobre pessoas que não respondem diretamente a eles. Como exercício, sugeriu que os profissionais revisem seus calendários do último mês e observem quanto tempo dedicaram a monitorar, medir, reunir e compartilhar informações, em comparação com atividades como criar, orientar, desenvolver e ajudar outras pessoas. Na sua avaliação, uma parcela expressiva das tarefas administrativas poderá ser realizada por máquinas, liberando tempo para atividades de maior valor humano. Pense como um imigrante Na reta final da palestra, Tobaccowala apresentou uma última recomendação para profissionais e empresas que desejam continuar relevantes: pensar como imigrantes. Nascido na Índia, o especialista recorreu à própria experiência e a uma passagem de Hamlet, de William Shakespeare, que descreve a morte como um país desconhecido. Para ele, o amanhã também pode ser entendido como um território desconhecido, para o qual todos estamos nos deslocando. E quem melhor se adapta a territórios desconhecidos? Em sua visão, os imigrantes. A comparação envolve três comportamentos. O primeiro é pensar como alguém de fora, capaz de questionar as certezas de um setor. O segundo é agir como um desafiante, sem presumir que empresas estabelecidas estarão protegidas de novos concorrentes. O terceiro é aceitar sacrifícios no presente para construir oportunidades no futuro. Tobaccowala citou a indústria automobilística para ilustrar o argumento. Durante anos, fabricantes tradicionais concentraram suas discussões em vender mais veículos e melhorar motores, enquanto mudanças relacionadas a software, eletrificação e novos modelos de mobilidade ganharam importância. "A maior parte das oportunidades e dos riscos para o seu negócio virá de fora da sua categoria", afirmou. A recomendação se conecta a outra provocação feita durante a apresentação: para continuar aprendendo, líderes devem construir argumentos contrários às próprias convicções e buscar referências fora de seus setores. O especialista também criticou executivos que se cercam apenas de pessoas dispostas a concordar com suas decisões. "É muito mais barato comprar um espelho", disse. Para ilustrar essa necessidade, Tobaccowala comparou os profissionais aos celulares que carregam no bolso. Enquanto os aparelhos recebem sucessivas atualizações de seus sistemas operacionais, muitos seres humanos passam anos sem revisar sua maneira de pensar. "Quantas vezes você atualizou seu sistema operacional mental?".. Ao fim da palestra, chegou finalmente o momento de abrir os envelopes distribuídos à plateia – que, cá entre nós, não foi tão criativo e convincente assim. Dentro deles, os participantes encontraram diferentes possibilidades de acesso ao novo livro do especialista, incluindo exemplares gratuitos, autógrafos e descontos. Mais Lidas
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