Futebol e vôlei ou judô e natação: vale a pena fazer mais de um esporte durante a adolescência? - QTU Questões do Universo

Futebol e vôlei ou judô e natação: vale a pena fazer mais de um esporte durante a adolescência?

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Muitos pais incentivam os filhos a fazerem mais de um esporte, mas será mesmo que vale a pena buscar diferentes tipos de atividade física? Especialistas dizem que sim.
O esporte, além de prevenir a obesidade, reduzir o risco de hipertensão e síndromes metabólicas, é excelente tanto para o desenvolvimento físico quanto mental.
Ajuda a fortalecer ossos e músculos, melhora a saúde do coração, diminui o risco de ansiedade e estresse.
— O esporte prepara o jovem psicologicamente para a fase adulta.
Ele começa a ter uma resistência à frustração quando perde o jogo, se acostuma com o ambiente de competitividade que pode ter no futuro.
É bom mesmo que seja só por lazer— afirma o médico do esporte e sócio do Instituto Nutrindo Ideais, Francisco Tostes.
Segundo ele, dos 12 aos 16 anos, é preferível fazer mais de uma atividade física para desenvolver diferentes valências, como coordenação, força e velocidade.
— Ele vai ter uma formação física mais completa — diz.
A questão é a chamada especialização precoce, que é a prática de direcionar crianças e adolescentes, antes da puberdade, para o treino intensivo e exclusivo de uma única modalidade.
Este tipo de treinamento prioriza o rendimento imediato e exige um alto volume de repetições, com pouco tempo de descanso e restrição de outras vivências motoras.
No passado, segundo Tostes, acreditava-se que isso era fundamental para o adolescente chegar em um nível de alto rendimento, ou até que buscasse um tipo de especialização com determinado esporte.
— Mas o que os artigos e dados têm mostrado mais recentemente é que esse tipo de prática sugere um estresse psicológico muito grande e um risco maior de lesões.
Eles estão imaturos fisicamente e ficam repetindo movimentos em uma escala maior, com uma carga de força maior que o músculo, articulação e ossos não aguentam — explica Tostes.
O médico do esporte e coordenador da pós-graduação em Medicina do Esporte da Afya Educação Médica, Selênio Campos,considera ideal que adolescentes façam mais de um esporte desde que cada um treine diferentes valências, como aeróbico, muscular, massa óssea e equilíbrio.
— Uma boa escolha seria a musculação, por exemplo, que treina a parte muscular, mais o basquete, que trabalha força, aeróbico e massa óssea — sugere o médico.
'Natação para relaxar'
Esse é o caso da Maria Luísa Lima, de 12 anos.
A garota é vice-campeã brasileira e paulista 2026 sub-13 no judô e se prepara para representar o Brasil no Campeonato Panamericano Sub-13.
Mas, além do judô, faz natação e musculação.
— Comecei a fazer judô com 8 anos na escola.
Pensei em fazer ballet , mas queria algo diferente.
Nunca tinha testado ou treinado luta antes e quis arriscar — diz.
Para a mãe, Larissa Araújo Lima, 39 anos, a decisão foi uma surpresa, mas a menina ficou feliz desde o início.
Hoje, é federalizada e treina em dois clubes diferentes.
A rotina é um pouco pesada, mas Maria Luísa garante que faz com gosto: às terças e quintas, preparação física específica para o judô.
Já às segundas, quartas e sextas, treina judô e musculação.
Já nos finais de semana, ou quando consegue um tempo entre um treino e outro e a escola (onde mantém as boas notas), Malu gosta de nadar para relaxar.
— Na academia é mais leve, por conta do treino de força que já faz com o preparador físico.
Já a natação é um esporte que ela faz só porque gosta, diz que ajuda a relaxar — explica Larissa.
A mãe ainda diz que apesar das atividadesa escola e os estudos são prioridade.

— O médico do esporte com quem passamos diz que em muitos casos entre atletas de alto rendimento há uma queda nas notas escolares, mas eu prezo para que isso não aconteça.
Ela é uma garota que gosta de estudar, as notas dela estão boas — garante a mãe.

E ainda há tempo para as brincadeiras com as amigas.

— Sempre tem que ter a diversão.
Nos finais de semana, vou para a casa de uma amiga, vamos brincar no Ibirapuera, ou vamos para a piscina.
Gosto ainda de assistir filmes e séries, brincar de jogo de tabuleiro, xadrez — diz Malu.

Para Campos, a mistura de musculação, judô e natação é excelente, visto que a musculação e o judô treinam equilíbrio e força, enquanto a natação treina a parte aeróbica.
A psicóloga e psicanalista Renata Bento, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, diz que é preciso tomar cuidado para que o esporte não seja algo imposto ao adolescente, pois, caso contrário, na vida adulta, pode virar um trauma.
— O adolescente está se despedindo de seu corpo infantil.
O esporte ajuda que ele veja esse corpo com outros olhos, mais forte e disposto.
É um jeito dele se encaixar nessa nova visão de si mesmo, desde que goste de praticá-lo — explica Bento.
Um adolescente pode fazer vários esportes e não se encaixar em nenhum, mas os pais não devem obrigar o filho, e sim buscar alternativas.
— É importante prestar atenção em alguns comportamentos: ele mostra prazer no que está fazendo? Tem se alimentado bem? A rotina de sono está boa ou está cansado o tempo inteiro? Tem tempo livre de descanso sem culpa por não estar treinando? — questiona Bento.
É ideal fazer mais de um esporte, mas é igualmente importante respeitar o gosto e o corpo de cada adolescente.