Fundo investigado em operação contra o PCC enviou R$ 180 milhões para empresa acusada de financiar Sicário
Um dos fundos alvos da Operação Carbono Oculto, que investiga a infiltração do PCC no setor financeiro, enviou R$ 180 milhões para a Super Empreendimentos, empresa que já teve Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, como diretor. A Super também foi teria sido utilizada, segundo decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), para realizar pagamentos ao grupo de milicianos contratados por Vorcaro para ameaçar desafetos.
De acordo com um alerta enviado ao COAF e obtido pelo GLOBO, a Gold Style, alvo da Carbono Oculto, enviou os recursos milionários para a Super no período analisado, entre 2020 e 2025.
Fabiano Zettel foi diretor da empresa entre 2021 e 2024. Segundo a comunicação feita ao órgão de controle, o fundo Gold Style realizou operações suspeitas para "ocultar beneficiários e partes envolvidas no mercado de valores mobiliários, utilizando de desdobramentos complexos" para camuflar os controladores finais do dinheiro.
Procuradas, as defesas de Vorcaro e Zettel não se manifestaram.
As investigações da Polícia Federal já revelaram que a Super Empreendimentos, em diversos momentos, esteve ligada ao núcleo familiar de Daniel Vorcaro. A empresa era a dona de uma mansão comprada por R$ 36 milhões em Brasília e utilizada com frequência por Daniel Vorcaro para receber autoridades.
Já o fundo foi apontado pela Justiça de São Paulo como um dos cofres utilizados no esquema de sonegação e lavagem liderado por Mohamad Hussein Mourad, alvo da Operação Carbono Oculto, e suspeito de ligações com o PCC.
O Gold Style é administrado pela REAG, gestora também investigada. Mohamad assumiu diversas usinas no interior de São Paulo e uma rede de distribuidoras de combustível e é acusado de fraudes fiscais bilionárias.
A Super também passou a ser investigada recentemente por sua suposta participação no financiamento do grupo "A Turma" ligado a Philippi Mourão, o "Sicário", apontado como responsável pela coação e ameaças de desafetos de Vorcaro.
Segundo a decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que determinou a prisão mais recente de Vorcaro, a Super foi utilizada como a principal fonte financiadora de grupo clandestino criado por Vorcaro para monitorar, coagir e intimidar autoridades, jornalistas e desafetos comerciais.
A estrutura de pagamentos ilícitos dessa milícia era operada por Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, em conjunto com Ana Claudia Queiroz de Paiva, que figura como sócia da Super Empreendimentos, segundo os investigadores.
Conforme apontou a Polícia Federal, a mando de Daniel Vorcaro, Zettel e Ana Claudia utilizavam primariamente o caixa da Super Empreendimentos para realizar os pagamentos destinados a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Sicário, apontado como o líder operacional do grupo de milicianos.
Para dissimular a origem e o destino da fortuna, os recursos saíam da Super e eram depositados em empresas de fachada controladas por Mourão, como a King Participações Imobiliárias Ltda.
No alerta feito ao COAF, além da Super Empreendimentos, também há o registro de movimentações financeiras a outras empresas ligadas à investigação que envolve o PCC, como a BK Instituição de pagamentos e a Aster Petróleo, que recebeu R$ 311 milhões e é apontada como o principal foco das fraudes praticadas por Mohamad.
Além do Gold Style, a Carbono Oculto mirou na Reag como a responsável por gerir outros fundos utilizados pelo grupo de Mohamad para lavagem de dinheiro. A Reag também aparece na investigação que tramita no Supremo Tribunal Federal. A gestora Reag Trust atua como a administradora do fundo Gold Style.
Na Operação Carbono Oculto, a Reag é investigada por gerir fundos (como o Mabruk II e o Hans 95) usados pelo grupo de Mohamad para comprar usinas sucroalcooleiras de forma oculta e lavar dinheiro de combustíveis adulterados. João Carlos Falbo Mansur, executivo da Reag, é nominalmente apontado como responsável por fundos implicados na ocultação de valores,.
Em paralelo, na Operação Compliance Zero (caso Banco Master), a Reag também protagoniza a suposta fraude. Um dos focos da investigação são operações circulares que envolviam a emissão de créditos por empresas ligadas ao Banco Master e o posterior investimento desses créditos no Banco Master, inflando artificialmente o balanço da companhia de Vorcaro e mantendo uma aparência de saúde financeira.
Em janeiro deste ano, o GLOBO já tinha revelado que outro fundo investigado na Carbono Oculto aparecia como um dos investidores da operação que aumentou o capital social do BRB antes da tentativa de aquisição do Banco Master, negada pelo Banco Central.
Em abril de 2025, ao fazer este aporte, o fundo Olaf 95 se tornou o único cotista do fundo Borneo, também administrado pela Reag. Com uma fatia de ações preferenciais (sem voto) de 7,89% do banco público, que tem negociação na Bolsa de Valores, o Borneo se tornou um dos maiores acionistas privados do BRB.
A Super também já tinha aparecido em investigações sobre fundo administrados pela Reag. De acordo com dados do Banco Central, dois desses fundos, Astralo 95 e Reag Growth 95, compraram Certificados de Depósito Bancário (CDBs) emitidos pelo Banco Master entre 24 abril e 17 maio de 2024. Esses títulos de renda fixa foram a principal forma de captação de recursos para a instituição financeira de Daniel Vorcaro ampliar o seu patrimônio e sobreviver no mercado.
Pouco tempo depois, em 21 de maio de 2024, o fundo Astralo 95 realizou um resgate de R$ 800 milhões aplicados em CDBs do Master. Desse valor total, R$ 150 milhões foram reinvestidos no Master Investimentos e R$ 650 milhões foram transferidos para outro fundo, chamado de Termópilas — que, em seguida, repassou os valores para a empresa Super Empreendimentos, que tem como sócio Fabiano Zettel, cunhado e homem de confiança de Vorcaro.
