Fumaça em Manaus: como a mistura tóxica afeta a qualidade do ar a milhares de quilômetros de distância e os danos à saúde

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Em pouco mais de um mês, Manaus teve 19 episódios de fumaça provocada por incêndios florestais. A capital passou nove dias consecutivos com fumaça no ar em outubro — o primeiro registro das queimadas ocorreu em 8 de setembro. Aulas foram suspensas, atividades ao ar livre foram canceladas e centenas de pessoas procuraram atendimento médico por problemas relacionados à poluição.

Lua Blanco: câncer de intestino cresce entre jovens, veja os principais sintomas Quantos passos por dia são necessários para estimular o funcionamento cerebral? Estudo de 14 anos indica o número ideal A fumaça que encobriu a capital vem de incêndios registrados na Região Metropolitana de Manaus e em municípios do interior do Amazonas. O avanço das chamas é favorecido pela vegetação seca, baixa umidade e pelas altas temperaturas — cenário associado ao fenômeno climático El Niño.

Mas quais são os riscos à saúde representados pela fumaça gerada pelas queimadas e incêndios florestais? Quem são as pessoas mais vulneráveis? O uso de máscaras é necessário? Os incêndios em áreas de vegetação liberam gases e partículas no ar que são perigosos para o organismo. As partículas finas, em especial, são particularmente nocivas porque conseguem penetrar profundamente nos pulmões.

O monóxido de carbono também é um dos principais poluentes gerados por esses episódios que lista entre as demais substâncias químicas presentes na fumaça o dióxido de carbono (CO₂), compostos orgânicos voláteis como acroleína, formaldeído e benzeno, além de compostos semivoláteis.

Quem corre mais risco? As pessoas que estão próximas ao incêndio podem apresentar sintomas respiratórios de irritação. Mas os efeitos vão muito além e atingem toda a população localizada na direção para a qual a fumaça é levada pelo vento e, portanto, exposta a ela durante várias horas ou até vários dias, dependendo das condições meteorológicas, explicou à AFP o pneumologista francês Bruno Crestani.

Segundo ele, correm risco especial as pessoas vulneráveis, os idosos, aqueles com doenças respiratórias, os bebês e os asmáticos, porque essa exposição pode descompensar um quadro que antes estava controlado.

Andar com as mãos para trás pode revelar traços de comportamento; entenda o que diz a psicologia Além disso, os efeitos não se limitam ao sistema respiratório, ressalta o especialista. Isso porque essas partículas podem entrar na corrente sanguínea e até desencadear determinados processos, como descompensar o diabetes, provocar um acidente vascular cerebral (AVC) ou um infarto, além de afetar mulheres grávidas.

Tudo isso ocorre porque essas partículas são muito leves e podem percorrer distâncias muito longas.

Em setembro de 2025, a Organização Meteorológica Mundial destacou que os incêndios florestais liberam uma "mistura tóxica" de poluentes capaz de comprometer a qualidade do ar a milhares de quilômetros de distância. Segundo a agência da ONU, os incêndios registrados no Canadá em 2024 provocaram poluição atmosférica que chegou até a Europa.

Outro exemplo, citado pela Oxfam França em um relatório publicado no início de julho, mostra que os megaincêndios ocorridos na região de Landes, no sudoeste da França, em 2022, deterioraram a qualidade do ar até Yvelines, nos arredores de Paris, a mais de 500 quilômetros de distância.

Em julho deste ano, grandes incêndios florestais atingiram a Europa também e uma grande parte da culpa caiu sob o El Niño.

Quais riscos específicos os bombeiros enfrentam? A Agência Nacional de Segurança Sanitária da França (Anses) chama atenção para os efeitos sobre os bombeiros, expostos diretamente durante o combate às chamas, mas também de forma indireta após a extinção do incêndio, durante as fases de monitoramento, investigação e remoção de escombros, além do retorno aos quartéis, devido à contaminação de equipamentos, materiais e veículos pela fuligem e pela água utilizada no combate ao fogo.

Qual é o impacto sobre a mortalidade? No fim de 2025, a revista The Lancet estimou, em seu relatório anual sobre os riscos das mudanças climáticas para a saúde, que 154 mil mortes em todo o mundo estavam relacionadas à poluição por partículas finas provenientes da fumaça de incêndios florestais.

Máscaras, ventilação... Como se proteger? A Anses recomenda o uso dessas máscaras por todas as pessoas vulneráveis expostas à fumaça. A agência também orienta que essas pessoas procurem um médico da atenção primária ou até mesmo os serviços de emergência caso apresentem sintomas ou dificuldades respiratórias.

— Elas não oferecem proteção de 100%, mas proporcionam uma proteção significativa — afirma o professor Bruno Crestani.

Nas áreas que não foram evacuadas, a Anses recomenda limitar os deslocamentos e o tempo de permanência ao ar livre, manter portas e janelas fechadas e ventilar os ambientes apenas quando as condições permitirem, cobrir as entradas de ar com panos úmidos, desligar os sistemas de ventilação mecânica controlada (VMC) durante os episódios de fumaça e evitar a prática de atividade física ao ar livre na região.

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