FT: Império de mídia de Murdoch fica mais frio com Trump

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Fonte da notícia: Valor Valor

“Um ataque encomendado [contra mim]”. “BURRO COMO UMA PORTA”.

“Vou ter que ir para outro lugar até esse PERDEDOR sair do ar”. Donald Trump passou a noite da eleição grudado na Fox News, mas atacando seu canal favorito da TV americana à medida que seu partido sofria uma derrota histórica.

O presidente dos Estados Unidos acusou a rede de ter se voltado contra ele, reclamou do som da voz de uma apresentadora da Fox News e, durante uma transmissão ao vivo, mandou uma mensagem a outro apresentador para exigir que ele a atacasse. No entanto, antes mesmo de que tivesse baixado a poeira de uma eleição que alçou os democratas ao poder nas duas Casas do Congresso, o império de mídia de Rupert Murdoch parecia já estar contemplando como seria uma vida pós-Trump.

Pouco depois da meia-noite, o conselho editorial do The Wall Street Journal, de Murdoch, declarou que Trump foi o "principal arquiteto" da derrota republicana e pediu para o partido debater quais serão suas bandeiras depois de Trump. O New York Post, o tabloide de Murdoch famoso pelo estilo combativo, estampou na primeira página da quarta-feira (04) um enorme tsunami azul, retratando Trump com um olhar impotente prestes a ser engolido por uma onda, sob a manchete: “Trump sofre uma reprovação histórica e democratas arrasam nas eleições de meio de mandato”.

Até na Fox News, o canal a cabo no qual Trump há muito conta com o apoio de algumas das personalidades conservadoras mais influentes da TV americana, o clima havia virado e ficado mais contido. Sean Hannity, um dos mais ferrenhos defensores de Trump, foi perguntado se o resultado da eleição teria sido diferente caso o presidente não tivesse entrado em guerra contra o Irã.

“Cem por cento. Acho que não há dúvida nenhuma a respeito disso”, respondeu.

Laura Ingraham, outra aliada de longa data de Trump, disse que a guerra havia sido “realmente dura e mal explicada”. Essa mudança de humor se dá no momento em que os republicanos começam a avaliar o tamanho de sua derrota eleitoral.

O resultado levanta questionamentos sobre o futuro de uma aliança que ajudou a sustentar o domínio de Trump sobre o conservadorismo americano nos últimos dez anos. O The Wall Street Journal culpou o segundo mandato “errático e egocêntrico” de Trump por desperdiçar uma “rara chance de promover a causa da reforma conservadora”.

Os resultados de terça-feira foram um “veredicto arrasador” sobre a “oportunidade desperdiçada” pelo Partido Republicano, destacou o editorial do jornal. O Partido Republicano “precisa debater o que representa depois de Donald Trump, e esperemos que esse debate comece ainda nesta semana.”

Promover a causa conservadora é algo de profunda importância para Murdoch. Ele já descreveu suas empresas, entre elas os jornais The Times e The Sun, do Reino Unido, como “guardiãs da voz conservadora no mundo de língua inglesa”.

Em 2025, Murdoch se dispôs a pagar mais de US$ 3 bilhões a três de seus filhos para garantir que, após sua morte, o controle de seu império de mídia fique nas mãos do filho mais velho, Lachlan - e, assim, assegurar que os negócios mantenham a inclinação à direita. Segundo um ex-executivo de alto escalão da News Corp., o bilionário há muito se dedica a identificar de antemão quem serão os vencedores na política, para poder influenciar os planos dessas pessoas.

“Ele tem uma sensibilidade extraordinária de perceber para que lado o vento está soprando, e quer se posicionar cedo o suficiente para exercer influência e fazer com que essa pessoa fique lhe devendo.” “Rupert não quer ficar com um perdedor”, disse o executivo.

“Ele não se importa mais com Trump, ele se importa com a audiência.” Ainda assim, afastar-se do presidente traz um dilema comercial.

A Fox News precisa manter seu público cativo tradicional e, ao mesmo tempo, atrair espectadores mais jovens, em particular porque sua rede rival Newsmax está à espreita tirar proveito da situação. “Como se afastar de Trump sem se antagonizar com essa base [de telespectadores]?”

Esse dilema chega em um momento em que a Fox News se depara com um forte declínio em sua audiência televisiva. Os índices da Fox News no horário nobre caíram 28% em outubro, em comparação ao mesmo mês de 2025.

Nesta semana, o executivo-chefe (CEO) da Fox, Lachlan Murdoch, disse que os telespectadores estão “fatigados”. A Fox News ressaltou que a emissora continuou como o canal mais assistido da TV a cabo em outubro, apesar do declínio na audiência.

Também destacou o crescimento de seu alcance digital, informando que seus vídeos acumularam 3,9 bilhões de visualizações no YouTube em 2026, quase 1 bilhão a mais do que o canal de notícias a cabo rival mais próximo. Na noite da eleição, Trump apresentou outra explicação: a audiência da Fox está "desabando" porque a emissora está “CONTRA mim!”.

A Fox, entretanto, está longe de abandonar seus instintos conservadores. Às 6h01 de quarta-feira, a apresentadora Ainsley Earhardt começou recebendo os telespectadores de forma mordaz: “Seu bolso e seu modo de vida estão em risco”.

A emissora passou boa parte do dia disparando alarmes contra a crescente influência dos socialistas democráticos. Mesmo assim, a Fox News continua profundamente interligada a Trump - um traço que ficou evidente à medida que os votos eram contados.

Karoline Leavitt, que se juntou à emissora como comentarista nesta semana, depois de ter atuado como secretária de imprensa da Casa Branca, disse aos telespectadores na noite da eleição que havia "acabado de conversar" com Trump. Ela defendeu o histórico do governo dele e reclamou que a imprensa tradicional não havia dado a devida cobertura a suas inúmeras realizações.

Em outro momento da noite, Trump enviou uma mensagem de texto ao apresentador Greg Gutfeld, da Fox News, durante uma transmissão ao vivo, exigindo que ele dissesse à coapresentadora Jessica Tarlov que ela era "a PIOR", antes de fazer uma longa defesa de seu próprio desempenho econômico.

Gutfeld leu a mensagem em voz alta. A resposta de Tarlov foi: “Apenas aperte o ''stop''”.

Mesmo enquanto criticava duramente a Fox News nas plataformas de relacionamento social on-line, Trump telefonou para a emissora para conceder uma longa entrevista ao vivo. Conversou com Bret Baier e Martha MacCallum por mais de 20 minutos e mostrou estar calmo, quase resignado, enquanto os apresentadores o pressionavam para que explicasse as impressionantes derrotas.

Trump menosprezou as perguntas sobre a guerra contra o Irã e sobre integrantes de seu gabinete e chegou até a elogiar o desempenho dos democratas. "É apenas um ponto na linha do tempo, Bret.

Havia um certo clima no ar, acho eu ", disse. "Venho fazendo grandes coisas há muito tempo." (Tradução de Sabino Ahumada)

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