O prestígio tende a se estender além daquilo que o tornou merecido. A admiração por uma grande realização pode acabar convertida na suposição de que seu autor tem pouco a aprender com os outros.
Uma passagem das memórias de Richard Feynman ajuda a devolver essa suposição às suas proporções. O físico norte-americano, premiado com o Nobel de Física em 1965 por seus trabalhos sobre as interações entre a luz e a matéria, cultivava também o gosto pela percussão.
Em “Só pode ser brincadeira, Sr. Feynman!”, conta que, durante uma temporada no Rio de Janeiro, anos antes da premiação, aceitou um convite para integrar a Farsantes de Copacabana.
Escolheu tocar frigideira. Num dos ensaios, o mestre percebeu um problema naquela seção da bateria, interrompeu a música e fez uma observação que o cientista guardaria na memória.
“O americano, outra vez!” Feynman passou a praticar até nas caminhadas pela praia.
Mais tarde, o próprio mestre recomendaria a um recém-chegado que aprendesse a tocar com ele. Seu conhecimento não o havia dispensado da correção, e aceitar a correção lhe permitira aprender.
A política costuma oferecer mais meios de escapar desse encontro com os próprios limites. Uma vitória pode servir para confirmar escolhas que pouco tiveram a ver com ela, preservar dirigentes e encerrar debates que deveriam apenas começar.
É esse o risco que a vitória de Lula, a virada em Minas e o crescimento da bancada colocam diante da esquerda belo-horizontina. O reconhecimento de uma conquista nacional pode ser indevidamente estendido às lideranças locais, como se o eleitorado tivesse aprovado também seus métodos, suas alianças e seu projeto de cidade.
Nesse salto, a força obtida nas urnas passa a proteger da crítica justamente o que mais precisa ser revisto. A arrogância, outra vez.
Belo Horizonte já conheceu uma esquerda que fazia da escuta uma forma de governar. A eleição de Patrus Ananias, em 1992, abriu um ciclo no qual a população passou a ter mais influência sobre as prioridades da prefeitura.
O Orçamento Participativo, implantado em 1993, e a política de segurança alimentar expressavam uma ideia de poder público que reconhecia necessidades e organizava respostas com a cidade. O jeito PT de governar ganhava conteúdo nessa relação e deixou marcas num campo mais amplo que o partido.
Com diferenças e conflitos, o ciclo progressista atravessou as administrações de Célio de Castro e Fernando Pimentel, reeleito no primeiro turno em 2004 com 68,49% dos votos válidos. Havia uma experiência de governo capaz de reunir maioria, sustentada por serviços, participação e vínculos sociais.
Esse patrimônio pertencia também à militância, aos movimentos e à população que o havia construído. A aliança em torno de Márcio Lacerda, em 2008, marcou, a meu ver, o encerramento daquele ciclo como projeto político autônomo.
Fernando Pimentel e Aécio Neves se encontraram na sustentação da candidatura. O PSDB ficou fora da coligação formal, mas Aécio participou da campanha, e o PT ocupou a vice-prefeitura na chapa vencedora.
A operação teve sucesso eleitoral imediato, o que tornou mais fácil deixar em segundo plano seu custo político. Uma força que havia conquistado a confiança da cidade aceitou ceder a condução do governo e emprestar sua história a uma orientação sobre a qual já não teria o mesmo comando.
A capacidade de celebrar um acordo foi confundida com a capacidade de preservar um projeto. A partir dali, recuperar autonomia exigiria disputar o rumo de uma administração que a própria esquerda ajudara a eleger.
A adesão de direções partidárias à agenda de centro-direita local comprometeu a capacidade da esquerda de orientar as prioridades da prefeitura. Um projeto progressista perde substância quando a participação popular deixa de orientar as decisões centrais e a cidade passa a ser conduzida cada vez mais pela lógica dos negócios.
A PBH Ativos, autorizada em 2010 e constituída no ano seguinte, é um exemplo dessa inflexão. Ao organizar a gestão de ativos, operações financeiras e parcerias, incorporou instrumentos que o pesquisador Thiago Canettieri analisou como avanço da gestão empresarial da política urbana.
O problema político está em saber quem define as prioridades, controla os instrumentos e se beneficia das escolhas. Serviços podem continuar funcionando, e políticas importantes podem sobreviver, enquanto se desfaz a capacidade de conduzi-los como parte de um projeto comum de redução das desigualdades.
A perda de direção deixa de ser percebida quando a presença em cargos basta para manter os grupos satisfeitos. O percurso do Orçamento Participativo permite enxergar esse esvaziamento.
Segundo nota técnica divulgada pela Câmara de BH, os recursos previstos para o programa representavam 4,2% do orçamento municipal na LOA de 2008 e apenas 0,2% em 2023. Em 2016, havia 450 obras não concluídas ou sequer iniciadas.
Novas rodadas foram suspensas em 2017. Cada compromisso que permanecia no papel corroía a confiança de quem havia participado de uma decisão e esperava vê-la cumprida.
A retomada das rodadas em 2024, na gestão Fuad Noman, e a elevação do piso legal para 1% da receita corrente líquida em 2025 merecem reconhecimento e acompanhamento. A tradição resistiu e pode ser fortalecida.
O desafio é devolver à participação continuidade, capacidade de decidir e garantia de execução. Sem isso, a população aprende que pode ser ouvida sem chegar a influir no governo.
A trajetória eleitoral oferece outro retrato da perda de iniciativa. Em 2012, Patrus ainda reuniu 40,80% dos votos válidos.
Havia força social acumulada, mas o PT agora enfrentava o prefeito que ajudara a eleger quatro anos antes. Em 2014, Pimentel venceu o governo de Minas no primeiro turno, com 52,98%.
A conquista estadual coexistia com a dificuldade de recuperar a prefeitura e já mostrava como os resultados de uma esfera não resolvem os problemas de outra. O desgaste da experiência estadual, entre 2015 e 2018, e o avanço do antipetismo nacional tornariam o cenário mais adverso.
Esses fatores precisam entrar no balanço, inclusive para que a crítica aos erros locais tenha consistência histórica. A crise fiscal mineira antecedia o governo Pimentel, como mostra o déficit de R$ 2,16 bilhões nas contas de 2014.
Essa herança precisa ser considerada junto das responsabilidades de quem governou depois. O parcelamento de salários a partir de 2016 e a retenção de repasses municipais em 2017 e 2018 atingiram servidores, prefeituras e serviços públicos.
Somados à crise política nacional, lavajatismo e à rejeição ao PT, ajudaram a desgastar a confiança na capacidade de governo da esquerda. Reconhecer esse ambiente é parte de uma avaliação honesta.
Transformá-lo em explicação suficiente para o que aconteceu em BH, porém, apaga a sequência dos fatos. Quando o PT assumiu o governo estadual, a ruptura municipal remontava a 2008 e a derrota de 2012 já havia ocorrido.
Os erros locais estavam amadurecidos quando a conjuntura nacional e a experiência estadual agravaram suas consequências. A dimensão das derrotas posteriores torna impossível tratar o problema como um acidente passageiro.
Reginaldo Lopes recebeu 7,27% dos votos válidos em 2016. Nilmário Miranda ficou em 1,88% em 2020, e Rogério Correia, em 4,37% em 2024.
Em três disputas municipais consecutivas, as candidaturas petistas sequer alcançaram 8%. A dificuldade também atingiu outras forças progressistas.
Áurea Carolina, do PSOL, obteve 8,33% em 2020. Em 2024, o partido integrou a chapa de Rogério, com Bella Gonçalves na vice, enquanto Duda Salabert, pelo PDT, teve 7,68%.
São lideranças com trajetória, causas e capacidade de mobilização. O campo que elas integram continua sem transformar essa presença numa alternativa de governo capaz de conquistar a maioria da cidade.
Cada eleição exige sua própria análise, mas quase duas décadas exigem também uma resposta coletiva pelo caminho percorrido. É nessa persistência que a crítica à “federação de mandatos” encontra seu sentido.
Quando a reprodução eleitoral dos gabinetes organiza toda a vida partidária, o projeto de cidade pode ser adiado indefinidamente. A atuação de cada parlamentar rende visibilidade, apoios e votos, enquanto a construção comum fica sem responsáveis.
As relações passam a depender da proximidade com um mandato, as lideranças se distribuem entre grupos e as decisões mais difíceis são evitadas para preservar os acordos internos. Assim, cada núcleo pode considerar a eleição um sucesso enquanto a esquerda perde capacidade de disputar o governo.
A existência de bons deputados e vereadores torna essa contradição ainda mais séria. O trabalho que realizam deveria aumentar a força coletiva, abrir caminhos para novas lideranças e sustentar uma organização presente na vida da população.
Quando termina na própria reeleição, deixa pela metade a responsabilidade política que o voto lhe confiou. As oligarquias internas prosperam nesse ambiente porque conseguem preservar o controle mesmo quando o projeto fracassa.
A base é chamada a executar campanhas, defender decisões e justificar alianças que pouco pôde discutir. Quem chega com uma crítica precisa primeiro demonstrar lealdade a algum grupo para conquistar o direito de ser ouvido.
A derrota encontra sua explicação na conjuntura, no adversário ou no eleitor, e a continuidade dos dirigentes segue fora do balanço. Essa forma de organização produz arrogância mesmo sem discursos ostensivamente arrogantes.
Ela se revela na convicção de que o poder de decidir pertence aos mesmos, independentemente do resultado. Rever esse funcionamento exige que as direções respondam pelas estratégias que adotam e que a participação da militância tenha consequências sobre programas, candidaturas e distribuição de poder.
Por isso, a vitória de Lula deveria aumentar a exigência de renovação. A virada mineira de 2026 foi extraordinária.
No primeiro turno, Lula terminou 588.612 votos atrás de Flávio Bolsonaro. No segundo, venceu por 109.313, uma reversão de 697.925 votos no saldo entre os candidatos, embora a margem final tenha sido estreita.
A federação PT–PCdoB–PV também passou de dez para treze deputados federais eleitos por Minas, avanço de 30%. São resultados a celebrar e uma força a colocar em movimento.
O mesmo pleito, entretanto, ampliou a bancada mineira do PL de onze para 21 deputados. A sociedade continua em disputa, e o crescimento de um campo não elimina o avanço do adversário.
Quanto maior a representação conquistada, maior a responsabilidade de construir algo que permaneça depois da campanha. Em Belo Horizonte, o resultado presidencial torna ainda menos defensável a ideia de uma aprovação irrestrita.
Lula recebeu 741.128 votos no segundo turno, contra 765.311 de Flávio Bolsonaro. Minas virou, mas a capital continuou dando maioria ao adversário do presidente, embora tenha sido o melhor resultado em muitas eleições.
Mesmo que Lula tivesse vencido aqui, seu resultado não serviria de procuração para as direções locais. O eleitor pode querer um presidente de esquerda, confiar seu voto a um deputado progressista e continuar sem enxergar nesse campo uma alternativa para administrar sua cidade.
Há expectativas e julgamentos diferentes em cada escolha. Os votos de Lula em BH revelam uma força social imensa, com a qual é possível construir muito.
Tratá-los como atestado de satisfação com a política local seria desperdiçar essa possibilidade. A capital faz falta ao projeto progressista mineiro também pela experiência de governo que poderia oferecer ao restante do estado.
Os deputados e vereadores jovens de Minas podem ter um papel decisivo nessa reconstrução, desde que a renovação alcance a maneira de fazer política. A proximidade com as lutas por trabalho, moradia, igualdade racial, direitos das mulheres e diversidade precisa se traduzir em poder para quem participa delas.
Isso exige mandatos dispostos a ouvir críticas, apoiar organizações autônomas e construir iniciativas que ultrapassem a projeção de uma liderança. Uma associação de bairro ou um coletivo deve poder dialogar com vários parlamentares, cobrar todos e decidir seu caminho.
A juventude que chega com a experiência do emprego precário, do aluguel difícil de pagar e de novas formas de organização precisa encontrar lugar na formulação e na direção. Convocá-la apenas para a comunicação e para a rua, mantendo as decisões reservadas aos mesmos grupos, seria renovar o rosto de uma estrutura que permanece fechada.
A luta de base ganha continuidade quando a organização permanece depois da campanha, acompanha a obra que não sai, cobra a linha de ônibus que deixou de atender a comunidade e participa da disputa por melhores condições de trabalho. Reuniões regulares, formação política e compromissos acompanhados em público ajudam a transformar necessidades dispersas em ação coletiva.
A militância que se mobilizou por Lula deve encontrar portas abertas para discutir o destino dessa força. Em 2028, terão se passado vinte anos da aliança com Lacerda e 24 da última vitória de uma candidatura petista à prefeitura.
Esperar a proximidade da eleição para procurar um nome e acomodar os grupos significaria repetir o método que precisa ser revisto. A reconstrução tem de começar enquanto a energia da vitória nacional ainda está viva.
O próximo passo é construir em 2027 um programa de governo em debate aberto com a população. As direções partidárias devem apresentar um balanço de suas escolhas e submetê-lo ao debate com a base.
Plenárias nas nove regionais podem reunir movimentos, trabalhadores, servidores públicos, coletivos culturais e moradores interessados, alimentando uma conferência municipal com capacidade real de decidir. Desse percurso devem sair prioridades, compromissos verificáveis e critérios conhecidos para a escolha de uma candidatura.
Os mandatos podem contribuir com sua experiência e sua capacidade de mobilização, aceitando que o resultado não venha pronto dos gabinetes. A participação começa a recuperar credibilidade quando as pessoas percebem que podem mudar uma decisão antes que ela esteja tomada.
Um programa nascido desse encontro terá de responder ao custo de viver na cidade. Quem trabalha precisa gastar menos tempo no ônibus, encontrar moradia perto das oportunidades e contar com creches e uma rede pública de cuidado.
Drenagem, arborização e urbanização devem proteger quem vive nas áreas de risco. Cultura e segurança precisam aparecer como direitos, com responsabilidades, recursos e prazos.
Essa agenda urbana deve se ligar a uma estratégia de reindustrialização que articule Belo Horizonte, a região metropolitana, Minas e o governo federal. Universidades, pesquisa e capacidade produtiva podem se encontrar em investimentos na saúde, na transição energética e em serviços tecnológicos.
O sentido popular dessa estratégia estará na criação de empregos com direitos e perspectivas de futuro, incluindo oportunidades para pequenos negócios e cooperativas. Os trabalhadores por aplicativos também precisam encontrar respostas concretas para proteção social, condições de trabalho e uso da cidade.
É nessa vida cotidiana que as pautas de identidade revelam seu alcance. Raça, gênero e sexualidade atravessam o acesso ao emprego, a remuneração, a distribuição do cuidado e a possibilidade de circular sem violência.
Uma política de desenvolvimento que ignore essas desigualdades corre o risco de reproduzi-las. Combater o racismo, ampliar a autonomia das mulheres e enfrentar a discriminação contra pessoas LGBTQIA+ deve influir na política econômica, na organização dos serviços e nas prioridades do orçamento.
A conexão com uma nova sociedade será mais forte quando essas lutas participarem da elaboração do projeto e puderem reconhecer seus resultados na vida das pessoas. Há uma oportunidade de reunir experiências que a fragmentação entre partidos, grupos e gabinetes muitas vezes mantém separadas.
Retomar o que houve de mais fecundo no jeito PT de governar exige, portanto, atualizar aquela relação entre democracia, participação e capacidade de Estado. Equipes públicas valorizadas, planejamento e coordenação dão continuidade às políticas.
O acompanhamento popular do orçamento e de sua execução permite cobrar prioridades e corrigir rumos. A prefeitura precisa conservar conhecimento, formar servidores e sustentar compromissos que sobrevivam à troca de dirigentes.
O legado da gestão Patrus/Célio pode orientar essa reconstrução se servir para enfrentar a cidade que existe hoje, com suas novas formas de trabalho, seus conflitos e suas expectativas. Recuperar um projeto progressista depende de tornar o poder público novamente capaz de organizar respostas duradouras e de compartilhar com a população as decisões que determinam seu futuro.
Há espaço para alianças amplas nesse caminho, como houve na própria formação da experiência progressista de Belo Horizonte. Enfrentar a extrema direita continua sendo uma responsabilidade democrática.
A unidade, porém, precisa oferecer à cidade um compromisso reconhecível e permitir que sua base participe da definição dos rumos. Os acordos ganham consistência quando se apoiam num programa e podem ser cobrados por quem ajudou a construí-los.
O campo progressista chegará mais forte a 2028 se a ampliação da bancada sustentar essa vida coletiva, se os novos mandatos distribuírem poder e se a militância encontrar razões para permanecer organizada. Uma vitória pode dar mais força sem dar razão em tudo.
Compreender isso é condição para transformar o resultado nacional numa oportunidade de reconstrução local. Feynman encontrou seu lugar na bateria porque aceitou a correção e voltou a aprender.
O que ele sabia em outros campos não alterava o som que o mestre ouvia naquele ensaio. Também a vitória de Lula não muda, por si, o que Belo Horizonte tem dito à esquerda em suas eleições municipais.
A resposta terá de ser construída no encontro com a cidade, nas lutas que continuam depois das urnas e na disposição de rever escolhas que já custaram demais. Se a força conquistada em 2026 abrir esse caminho, poderá haver um futuro diferente em 2028.
Se servir apenas para proteger as mesmas direções de qualquer revisão, uma conquista extraordinária terá sido usada para conservar um velho erro. A arrogância, outra vez.
Referências FEYNMAN, Richard P.
Só pode ser brincadeira, Sr. Feynman! Rio de Janeiro: Intrínseca.
Capítulo “O Americano, Outra Vez!”. CANETTIERI, Thiago.
A produção capitalista do espaço e a gestão empresarial da política urbana: o caso da PBH Ativos S/A. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v.
19, n. 3, set.–dez.
2017. CÂMARA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE.
Orçamento Participativo pode ter, em 2026, cerca de R$ 200 milhões. 13 mar.
2025. Orçamento Participativo será tema de debate nesta sexta-feira (26).
25 set. 2025.
Brasil 247