Foram sete dias em que pensei poder ter cancro da mama

Foram sete dias em que pensei poder ter cancro da mama - Foto
Fonte da notícia: Euro News Euro News

Nove horas de uma manhã comum de segunda-feira. Dia marcado para uma consulta que fui adiando durante um ano, talvez dois, tempo demais.

Dispo-me e entro na sala. É tudo apenas rotina, não é?

“Madame, não se mexa. Tenho de a pôr na posição certa.

Rode-se um pouco. Assim não.

Deixe-me fazê-lo. Fique quieta.

Está demasiado tensa, relaxe.” A mulher toca-me, move, achata e esmaga uma das mamas na máquina. Acaba por ficar tão espalmada como uma fatia de queijo fatiado italiano “Sottilette”.

E depois a outra. “Rode-se.

Deixe-me ajeitar.” O processo recomeça, com as mamas espremidas de lado, o que é desagradavelmente doloroso, algo que muitas mulheres conhecem bem. Quando tudo termina, fico sozinha numa pequena sala, meia despida, à espera.

Naquele espaço pequeno e despido, a mente dispara, sobe e desce, a pensar no vislumbre que tive das imagens de raio X das minhas mamas, nas formas e sombras, parecidas com os ramos num quadro estilizado de um enorme carvalho. Estará escondido cancro naquelas imagens que não sei interpretar? Não pensamos todas nisso depois de olhar para aquelas imagens a preto e branco, como se estivessem encriptadas?

Nem sequer sei há quanto tempo estou cercada por aquelas quatro paredes claustrofóbicas quando a porta finalmente se abre e sou levada para outra sala escura para esperar por uma médica e pelo exame seguinte. Mas antes, a médica, sorridente, diz: “A sua mamografia está absolutamente normal.” E a ruga na testa, de que nem sequer tinha consciência, desaparece.

Encho os pulmões de ar e depois expiro longamente. Chega a vez da ecografia.

Começa a conversa enquanto o gel lubrificante é espalhado numa mama e depois na outra. A sonda móvel do ecógrafo envia ondas sonoras que se refletem nos tecidos da mama, revelando sombras, manchas brancas e negras, ondulações, zonas mais escuras.

Há todo um mundo dentro das nossas mamas que ignoramos por completo e que nos é impossível ler. Explico à radiologista o quanto detesto tudo isto, como quase todas as mulheres da minha família tiveram cancro da mama e como isto me deixa ansiosa, quando ela começa a focar a sonda numa zona em particular e deixa de falar.

Carrega mais a sonda, depois move-a e volta a pressionar. Faz-se silêncio.

“Acho que é preciso fazer uma pequena biópsia.” Todos os receios se materializam nesse momento e nessa frase única. “Há ali uma zona mais escura que não desaparece quando mexo a sonda.

É melhor verificarmos.” Dois dias depois voltei, a querer que o seguimento fosse rápido e saber depressa o resultado.

Noutros países, fora de França, o meu país de adoção, poderia ter de esperar dias entre a mamografia e a ecografia e semanas até fazer a biópsia. Primeiro, uma anestesia local, depois um pequeno corte que não sinto, a médica sorri de forma tranquilizadora, mas continuo tensa e, ao mesmo tempo, já com a cabeça noutro lugar.

Uma cânula longa entra profundamente na carne cinco vezes. Alguns fragmentos ensanguentados de tecido esbranquiçado saem e são colocados em pequenos recipientes de vidro.

Foi o início de uma semana que nunca vou esquecer. Esperei sete dias até finalmente saber se tinha cancro.

Entrei numa espécie de mundo paralelo, em que tudo passava por um filtro e parecia distante. O corpo e a vida ficaram em suspenso.

Planos adiados. Uma viagem de trabalho e encontros com amigas foram desmarcados.

Tinha começado o processo de aceitação, com aquela palavra tabu, cancro, a tornar-se uma possibilidade. Era possível voltar a entrar naquela mesma sala dias depois para ouvir dizer que tinha de ser operada e que depois precisaria de quimioterapia.

Tudo aquilo por que passam as pessoas com cancro. Medo, espera, incerteza.

Um período em que aparecem amigas em quem talvez nem pensássemos e em que algumas das que esperaríamos que ficassem podem desaparecer. Medos profundos voltam à superfície e as pessoas à volta reagem de forma diferente.

Sentia-me a pairar, a preparar-me. A ganhar balanço.

O mesmo sentimento que se tem em relação a um voo que está marcado quando se aproxima uma tempestade. “Tenho, não tenho.

Não sei. Tenho de esperar.”

Os pensamentos em espiral levam-nos às profundezas da mente e dos medos, por vezes muito fundo. Lembro-me da experiência da minha mãe, que passou pelos mesmos receios, foi operada, fez radioterapia e conseguiu ultrapassar.

Lembro-me da minha tia, que não conseguiu. Da minha prima, hoje uma sobrevivente linda e luminosa.

Penso na irmã dela, que teve de retirar o estômago, mas que está sempre a sorrir e serena, apesar dos exames médicos que terá de fazer para o resto da vida. Enquanto desfilam na memória os rostos e as histórias de quem conseguiu e de quem não conseguiu, continuo a pairar, desligada do mundo.

Os protestos estudantis, os motins e os saques em cidades francesas que, enquanto jornalista, teria corrido a cobrir são apenas um ruído distante. Na manhã dos resultados, é como se estivesse numa outra dimensão.

Tento preparar-me para o pior, como quem se prepara para uma aterragem de emergência. A consulta é ao meio-dia e começo a vaguear pelas ruas de Lyon às 9h00.

Ando como uma alma penada quilómetro após quilómetro. A parte quase cómica é que tudo isto me acontece em pleno Outubro Rosa, o mês anual de sensibilização para o cancro da mama.

Lançada nos Estados Unidos em 1985, tornou-se uma das campanhas de saúde pública mais reconhecidas do mundo. Por isso, durante esta “semana de pausa”, via regularmente fitas cor-de-rosa e símbolos de mamas por todo o lado.

Em todo o mundo, angariam-se todos os anos milhões de euros, mas a participação nos programas organizados de rastreio da mama em França continua abaixo dos 50%. E olhe-se para mim: sou jornalista.

Conheço as estatísticas, vi doenças graves na família. E, mesmo assim, adiei a marcação da consulta.

Medo puro. Como posso eu, ou qualquer pessoa, estar pronta para ouvir que tem cancro? Mesmo assim, acontece.

E a deteção precoce pode salvar vidas. Quando o cancro da mama é detetado antes de se disseminar, a taxa de sobrevivência aos cinco anos aproxima-se dos 100% (fonte em inglês), em comparação com 38% para as mulheres diagnosticadas em fase avançada.

Apesar da sua importância, e de a Comissão Europeia ter investido cerca de 80 milhões de euros para reforçar o rastreio em todo o bloco no quadro do “Plano europeu de luta contra o cancro (fonte em inglês)”, o acesso ao rastreio continua desigual na Europa, o que significa que a possibilidade de um diagnóstico precoce depende ainda do local onde a mulher vive e não apenas dos seus receios.

Tal deve-se à organização dos programas de rastreio, ao acesso a consultas, aos custos suportados diretamente pelas doentes e ao conhecimento dos benefícios do rastreio, bem como às desigualdades sociais, revelam as mais recentes investigações da UE e da OCDE. Como disse Luis Seijo, copresidente da Rede de Prevenção, Deteção Precoce e Rastreio da Organização Europeia do Cancro, “as desigualdades no rastreio do cancro estão a custar vidas”.

Mas na Europa as disparidades dizem respeito não só ao rastreio precoce, como também ao tempo que decorre entre o rastreio e o diagnóstico, que vai de uma mediana de oito dias na Dinamarca a 32 dias na Roménia (fonte em inglês). No meu caso, passaram pouco mais de sete dias, mas para Maria Assunta, que vive na região italiana da Sardenha, demorou sete vezes mais.

Faz exames anuais à mama desde os 40 anos, cerca de dez anos antes da idade geralmente recomendada para o rastreio de rotina na União Europeia. Há quatro anos, quando tinha 46, uma ecografia de rotina revelou um nódulo de 4 centímetros numa mama.

Um mês depois fez uma biópsia e recebeu o diagnóstico de cancro da mama três semanas mais tarde. Maria Assunta está agora na fase de seguimento, com consultas de seis em seis meses.

Descreve os cuidados que recebeu como “excelentes, tanto do ponto de vista humano como médico” e chama aos médicos os seus “anjos”. Desde que passou por esta experiência, tornou-se uma defensora apaixonada da prevenção e da deteção precoce.

O intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento também difere entre países. No caso de Maria Assunta, praticamente não houve tempo de espera entre o diagnóstico e o início da terapêutica.

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) identifica as longas esperas por consultas de especialidade, exames de imagem e testes de diagnóstico como um problema em vários países, incluindo Irlanda, Grécia, Roménia e Espanha. Embora a deteção precoce tenha melhorado a longo prazo e a mortalidade tenha diminuído, segundo o relatório da OCDE e da Comissão Europeia “Health at a Glance: Europe 2020 (fonte em inglês)”, o progresso estagnou em muitos países e a participação nos rastreios continua a variar de forma acentuada na Europa.

Em comparação com 2019, as taxas de rastreio do cancro da mama (fonte em inglês) aumentaram em nove países da UE com dados disponíveis, com as maiores subidas observadas na Eslováquia, em mais de 12%, seguida da Croácia e da Estónia. Quanto à minha história, chegou finalmente o momento.

Entrei e esperei mais meia hora até chamarem o meu nome. “Posso tranquilizá-la, não há nada, mas foi melhor verificar”, disse a médica com um sorriso.

Toda a tensão se desfez, agradeci-lhe e apertei-lhe a mão, como uma italiana perfeitamente educada. Mas, mesmo assim, continuo desorientada com tudo o que aconteceu.

Tive sorte, mas todos os anos cerca de 360 000 mulheres na União Europeia recebem um diagnóstico de cancro da mama, 61 000 em França. O cancro da mama está a aumentar na Europa devido a alterações demográficas, padrões reprodutivos, com gravidezes mais tardias e menos numerosas, hábitos de vida e fatores metabólicos e hormonais, havendo também investigação em curso sobre o impacto de substâncias químicas ambientais, da poluição e da alimentação.

As estatísticas mostram (fonte em inglês) que uma em cada onze mulheres desenvolverá cancro da mama em algum momento da vida. Não significa que vá morrer por isso, mas também não significa que terá um percurso fácil.

Tive a sorte de sair daquela sala com a mesma vida que tinha antes. Mas para muitas pessoas que recebem um diagnóstico diferente, o medo, a incerteza e a sensação de suspensão que vivi durante apenas sete dias podem tornar-se parte permanente da vida.

Então, será que a mente é cuidada tanto quanto o corpo, quer o percurso conduza à recuperação quer, em última análise, ao fim da vida? O Relatório europeu sobre desigualdades no cancro de 2026, da OCDE, concluiu que apenas dezasseis países da UE em 27, mais a Noruega e a Islândia, incluem apoio psicológico no percurso de cuidados oncológicos, e que a oferta continua desigual.

Em França, o apoio psicológico faz parte do pacote oficial de cuidados de suporte em oncologia, a par da gestão da dor, do apoio nutricional e da assistência social. Em Itália, o acesso continua limitado, apesar das obrigações legais e das orientações existentes.

Um estudo de 2024, com cerca de 3000 pessoas com cancro, concluiu que apenas 20% referiram receber apoio psicológico (fonte em inglês), enquanto apenas 16% disseram que um terapeuta as acompanhou ao longo do tratamento oncológico. Grande parte deste apoio continua a depender de iniciativas privadas.

Eleonora tem agora 52 anos e vive na cidade italiana de Génova. Foi submetida a uma mastectomia aos 39 anos, depois de um nódulo de quatro centímetros ter sido detetado na mama durante a primeira ecografia que fez na vida.

Nos treze anos desde o diagnóstico, tornou-se voluntária na associação sem fins lucrativos Braccialetti Bianchi (fonte em inglês) e instrutora de Qigong. Enraizado na medicina tradicional chinesa, o Qigong é uma das práticas complementares que a associação oferece a doentes internados e em reabilitação.

Outras atividades incluem dança em círculo, ioga, apoio empático, biodanza* e shiatsu. Eleonora diz que estas terapias “podem tornar todo o percurso oncológico apenas mais suportável”.

Este programa gratuito de apoio foi lançado há cerca de trinta anos por um grupo de médicos do Hospital San Martino, em Génova. Maria Giuseppina Vidili é uma das oncologistas que ajudou a criar a iniciativa.

Especialista em reabilitação oncológica, explica que médicos e associações fazem o que podem perante orçamentos nacionais limitados e cortes na saúde. Diz que trabalhou incansavelmente durante anos para criar espaços acolhedores para doentes em qualquer fase do percurso oncológico.

Reformou-se há quatro anos e nunca deixou de oferecer atividades complementares, dizendo que médicos e associações estão na linha da frente a colmatar as falhas do sistema nacional de saúde, pelo menos no que toca ao apoio psicológico. Segundo a Federação Italiana das Associações de Voluntariado em Oncologia (FAVO), apenas cerca de 20% dos hospitais disponibilizam apoio especializado em psico-oncologia.

Esse apoio torna-se ainda menos disponível depois de terminado o tratamento oncológico. A médica Vidili defende que deve existir um serviço padronizado de psico-oncologia em todo o país.

Iniciativas como a que lançou continuam limitadas a um número reduzido de pessoas. Alguns hospitais italianos, diz, nem sequer dispõem de unidades de reabilitação.

No dia a seguir a ter recebido luz verde, deveria voltar ao trabalho, responder a emails, fazer telefonemas para marcar entrevistas, planear a próxima reportagem. Retomar a vida onde a tinha deixado, como se nada tivesse acontecido.

Escrevi a maior parte deste artigo nessa manhã, entre as 5h00 e as 9h00. Precisava de tirar isto do peito, literalmente, na esperança de que partilhar a experiência ajude pelo menos uma mulher a enfrentar os medos e a fazer rastreios regulares.

Mas escrever foi também uma forma de mergulhar num tema de que as pessoas ainda preferem desviar o olhar, eu incluída. Custou-me investigar e falar sobre cancro como se fosse qualquer outro tema jornalístico.

Vem carregado de peso. Hoje, penso em quem luta para viver e em quem trabalha para encontrar novas curas.

As campanhas de sensibilização são importantes, mas, por si só, não chegam. As mulheres precisam de acesso ao rastreio, a diagnósticos rápidos e a cuidados adequados.

Precisam também de ser incentivadas a colocar a própria saúde em primeiro lugar, mesmo quando o medo torna tentador olhar para o lado. O apoio psicológico e as terapias complementares devem ser acessíveis a todas as pessoas, em todo o lado, e não apenas ao número limitado de quem atualmente pode beneficiar delas na UE.

E há uma coisa certa: na próxima vez, a consulta de rastreio será marcada a tempo.

Publicação Original Euro News pt.euronews.com
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