'Foi um desespero': pai relata, em entrevista exclusiva, como descobriu que a filha havia sido furada com lanceta reutilizada

'Foi um desespero': pai relata, em entrevista exclusiva, como descobriu que a filha havia sido furada com lanceta reutilizada - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

O GLOBO conversou com um dos pais que presenciou o compartilhamento das lancetas durante a feira de ciências do Colégio Tamandaré, no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste. Ele conta como percebeu que a filha havia sido perfurada, descreve o desespero após o comunicado da escola e fala sobre os 28 dias de tratamento preventivo que a menina terá de enfrentar. Em que momento você percebeu que havia alguma coisa errada? A gente foi ver o trabalho. Eu me aproximei, vi os equipamentos expostos e vi que eles estavam falando sobre glicose, insulina e diabetes. Em cima da mesa, havia os equipamentos, as canetas e aquele medidor. Me aproximei e vi uma garota apresentando e falando. Dei dois passos para trás e eles continuaram assistindo ao trabalho da menina. De repente, vi que acumulou mais gente. Vieram mais crianças, mais crianças, muita criança em volta do trabalho. Achei que o trabalho estava tão interessante que tinha atraído todo mundo. Então me aproximei novamente e vi que havia uma aluna, sem supervisão de nenhum adulto, furando o dedo de outros alunos. Foi nesse momento que percebi que minha filha já tinha sido furada e estava com o dedo com uma gotinha de sangue. Ela até falou o resultado: “Deu 114”. Nesse momento, uma outra mãe chegou por trás e disse: “114? Está ótimo, está bom”. Você já tinha percebido que estava sendo usada a mesma caneta? Não. Naquele momento, não tive nenhuma reação e nem pensei em alguma coisa errada. Não percebi que estava sendo usada a mesma caneta. O que chamou sua atenção inicialmente? Eu achei estranho uma menina, uma adolescente ou pré-adolescente, estar fazendo o trabalho sozinha, furando o dedo de todo mundo. Meu filho menor já estava na fila também para ser furado. Aí falei: “Não, não. Vamos sair daqui, deixa isso”. Minha filha mais velha já tinha sido furada, e ela também não tinha percebido o problema naquele momento. Havia algum adulto supervisionando a atividade? Não havia nenhum adulto por perto. Então saímos do trabalho. Acho que isso foi por volta das 11h10. Por volta das 11h30, saímos da escola, fomos almoçar e depois para casa, normalmente. Por volta de 12h30, chegou um comunicado da escola. O que dizia o comunicado? Dizia que tinha ocorrido uma situação grave na escola, que uma agulha havia sido compartilhada. A confirmação de que aquilo estava errado veio com o comunicado da escola? Isso. Outro pai viu que a agulha estava sendo compartilhada, percebeu o que estava acontecendo e comunicou alguém da escola. Depois disso, a escola emitiu o comunicado. Qual foi a atitude de vocês depois que receberam a notícia? Foi um desespero. Tivemos que conversar com nossa filha, que ficou bastante abalada. Por volta das 15h30, chegamos ao Lourenço Jorge e ficamos lá até 22h30, até conseguir todo o atendimento, fazer o teste rápido e conseguir a medicação. Enquanto vocês estavam no hospital, outros pais também chegaram para procurar atendimento? Sim. No grupo das mães, começou a conversa e algumas já estavam lá. Algumas foram um pouco antes da gente. Quando saímos de lá, por volta das 22h30, ainda tinha mais uma criança na fila. Quando chegamos em casa, acho que caiu a ficha para nossa filha. Veio aquele sentimento, aquela preocupação sobre o que estava acontecendo e o que poderia acontecer. Ela chorou e ficou bastante angustiada. Teve dificuldade para tomar o remédio. Agora ela vai ter que tomar essa medicação por 28 dias. É uma medicação forte e que vai precisar ser acompanhada. Como pai, como você se sente diante de uma situação como essa? Acho que houve negligência por parte da escola e irresponsabilidade de um pai. Quando a gente olhou, achou que eram só os equipamentos. Nunca deveriam ter levado as agulhas. Era para ser apenas uma demonstração. Não precisava ter levado as lancetas. Quando cheguei perto e vi umas três canetas em cima da mesa e vários papeizinhos, percebi que já tinham feito testes em várias crianças, que apresentavam a gota de sangue. Acho que isso caracteriza uma negligência por parte da escola. A escola deveria ter um adulto, um professor, cuidando de todo o trabalho. O que você espera agora? Minha esposa entrou em contato com a escola e o próprio diretor nos orientou e ajudou na parte da medicação, que até o hospital não estava sabendo como proceder naquele momento. No dia seguinte, tivemos um atendimento psicológico oferecido pela escola. Nossa filha teve esse acompanhamento online e eles prometeram que vai continuar até o fim do tratamento. A escola também se disponibilizou a ajudar nos exames, mas isso ainda não aconteceu. Hoje eles disseram que haveria mais atualizações. A escola informou que haveria uma orientação na própria escola? Disseram que haveria profissionais da saúde na escola para orientar, mas isso ainda não chegou ao nosso conhecimento. Nossa filha estava receosa de ir à escola, com medo de acontecer alguma coisa ou de ser tratada de forma diferente. Conversamos com ela e com a psicóloga e conseguimos convencê-la a voltar normalmente. Acho que ela precisa continuar a rotina. No hospital, os médicos deram alguma orientação? Os exames deram tudo certo? O primeiro teste deu negativo. Mas eles falaram que ela precisa tomar a medicação e fazer novos exames em 30 e 60 dias, para ter certeza absoluta de que não houve contaminação. Qual a lição que fica? Acho que deve haver um trabalho melhor da escola na fiscalização do que está sendo apresentado. Também houve negligência por parte dos pais. As lancetas foram levadas com consentimento dos pais. Pelo que a gente está vendo, uma das alunas do trabalho é diabética e um dos responsáveis forneceu esse material para a apresentação. A parte perfurante não deveria ter sido levada junto. Teria que ter sido apenas explicado como ela funciona.

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