FMI pede que EUA reduzam déficits e cobra da China menor dependência das exportações

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Fonte da notícia: Valor Valor

Os Estados Unidos não conseguirão reduzir sua crescente dívida pública apenas por meio do crescimento econômico, sem ajustes nos impostos ou nos gastos, enquanto a China precisa abandonar gradualmente seu modelo de crescimento baseado nas exportações em favor de um maior consumo interno, afirmou nesta quarta-feira (14) a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva. Leia também: Juros pressionam contas públicas e exigem ação de países, diz FMI FMI corta projeções de crescimento da economia brasileira em 2026 e 2027 Georgieva cobrou das duas maiores economias do mundo mudanças difíceis em suas políticas para reduzir os crescentes desequilíbrios fiscais e comerciais. Ao mesmo tempo, o diretor do departamento de Assuntos Fiscais do FMI afirmou que a inflação, os elevados níveis de endividamento e a alta dos rendimentos dos títulos públicos aumentaram a urgência da consolidação fiscal em todo o mundo.

Durante as reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial, em Bangcoc, Georgieva apontou as economias avançadas, especialmente os EUA e os países europeus, como as "maiores responsáveis" pelo endividamento excessivo. Segundo ela, a alta dos rendimentos dos títulos de referência também afeta países de baixa renda, que já foram obrigados pelos mercados financeiros a conter seus empréstimos.

Ao receber perguntas em entrevista coletiva sobre a necessidade de uma política fiscal mais restritiva nos EUA, Georgieva afirmou que o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, reconhece que os níveis de déficit e dívida do país são excessivamente elevados e precisam se tornar mais sustentáveis.

"As autoridades dependem muito de um crescimento forte nos Estados Unidos [para ajudar a reduzir a dívida]”, afirmou Georgieva.

"No Fundo, acreditamos que o crescimento, evidentemente, ajuda, mas não consegue produzir os ajustes necessários com rapidez suficiente. Portanto, algumas medidas [fiscais] seriam necessárias."

O apelo por mais ações para reduzir a dívida foi reforçado pelo relatório Monitor Fiscal do FMI, divulgado nesta quarta-feira, que alertou que adiar os ajustes em um período de custos mais elevados de financiamento apenas tornará a tarefa mais difícil nos próximos anos.

Embora essa seja uma recomendação recorrente do FMI, Rodrigo Valdés, diretor do departamento de Assuntos Fiscais do Fundo, afirmou que a disparada dos rendimentos dos títulos públicos deixou os governos com pouca margem de manobra fiscal.

"Aumentamos o grau de urgência da nossa mensagem", acrescentou.

Questionada sobre os desequilíbrios provenientes da China, em um dia em que dados mostraram que o país caminha para registrar um superávit comercial recorde, Georgieva reiterou uma recomendação antiga a Pequim:

"Para os países superavitários, o que precisam fazer é aumentar o consumo interno. Isso se aplica claramente ao modelo de crescimento da China. É preciso deslocar o foco das exportações para um maior consumo interno."

Os países deficitários precisam poupar mais e gastar menos, enquanto a Europa precisa investir mais em competitividade, afirmou.

"Para colocar de forma muito simples, a China precisa gastar mais, os Estados Unidos precisam poupar mais e a Europa precisa investir mais", acrescentou Georgieva. A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, discursa durante o evento 'Construindo resiliência em um mundo fragmentado', em Bangcoc REUTERS/Athit Perawongmetha

Ausência de Bessent Bessent não participa das reuniões anuais em Bangcoc, apesar de os EUA exercerem neste ano a presidência do Grupo dos 20 (G20), que reúne as principais economias do mundo. O secretário preferiu cumprir compromissos internos, em um momento de intensificação da campanha para as eleições legislativas de meio de mandato.

Ele tem atuado como um dos principais porta-vozes das políticas econômicas do presidente Donald Trump, destacando especialmente os grandes cortes de impostos aprovados no ano passado pelos republicanos, que agora tentam manter o controle do Congresso americano.

Os ministros das Finanças do G20 devem se reunir na quinta-feira (15), à margem dos encontros em Bangcoc. Os Estados Unidos têm utilizado sua presidência do grupo para tentar mobilizar aliados a adotar medidas mais firmes contra as políticas econômicas "não orientadas pelo mercado" da China, que resultaram em excesso de capacidade industrial e em uma enxurrada de exportações para o mercado global. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, que não participa das reuniões anuais do FMI e Banco Mundial REUTERS/Eric Lee/Pool

Preocupações com as contas públicas da França As reuniões desta semana têm sido dominadas pelas preocupações com o aumento das dívidas, a alta dos rendimentos dos títulos públicos e os riscos associados à expansão da inteligência artificial (IA).

A França, uma das economias avançadas mais afetadas por uma onda global de vendas de títulos, precisa resolver seus próprios problemas de endividamento por meio da consolidação fiscal, afirmou a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, minimizando, na prática, as especulações sobre uma possível intervenção do BCE no mercado de títulos.

Questionada durante um evento da CNN em Bangcoc sobre a possibilidade de o BCE ajudar a França, Lagarde afirmou que cabe a Paris tranquilizar os investidores.

"E, nesse caso, a primeira e principal solução está dentro da própria França. E tem a ver com as políticas fiscais", disse.

O FMI elogiou o Reino Unido por adotar medidas de consolidação fiscal, mas deixou claro nesta quarta-feira que não deseja que Londres acelere o ritmo do ajuste.

"Nossa recomendação é 'manter o rumo'", afirmou Valdés.

Ainda assim, o secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Mathias Cormann, defendeu uma "forte disciplina fiscal" em uma declaração ao comitê diretor do FMI, afirmando que ela é necessária para garantir a estabilidade.

"Em todos os países do G20, com exceção da Alemanha e da Turquia, a dívida pública como proporção do PIB era maior no primeiro trimestre de 2026 do que no fim de 2007", escreveu Cormann ao Comitê Monetário e Financeiro Internacional.

"Os países precisam conter e realocar os gastos, melhorar a eficiência do setor público e tornar os sistemas tributários mais eficazes. Também devem proteger os investimentos que impulsionam o crescimento futuro, especialmente em educação, qualificação profissional e infraestrutura digital." A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, durante discurso sobre o futuro digital do euro nas reuniões anuais de 2026 do FMI e do Banco Mundial REUTERS/Athit Perawongmeth

Apelos por ajuda aos países pobres Em relação à crescente divergência entre os países avançados que se beneficiam dos investimentos em inteligência artificial e aqueles que ficam à margem desse movimento, destacada nas projeções econômicas do FMI divulgadas na terça-feira (13), Georgieva também pediu aos países-membros que garantam o financiamento integral dos mecanismos do Fundo destinados a países de baixa renda e vulneráveis.

Entre eles estão o Fundo Fiduciário para Redução da Pobreza e Crescimento, que oferece empréstimos com juros baixos ou nulos a países de baixa renda, e o Fundo Fiduciário para Contenção e Alívio de Catástrofes, que concede recursos não reembolsáveis para aliviar ou cancelar pagamentos do serviço da dívida dos países-membros mais pobres e vulneráveis, afirmou.

Esses países também estão sendo pressionados pela alta dos rendimentos dos títulos públicos. De acordo com Georgieva, o custo médio do serviço da dívida aumentou de 6% para 14% das receitas ao longo da última década, mesmo com a redução do endividamento total.

"O risco de divergência é mais perigoso para aqueles que já estão mais atrasados", acrescentou Georgieva.

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