Flávio volta à cartilha de Bolsonaro ao opor agro e indígenas para se aproximar do setor do campo

 

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No palanque de uma das principais feiras do agronegócio do país na quarta-feira, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) retomou o discurso que marcou a ascensão de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2018, ao explorar a oposição entre produtores rurais e habitantes de terras indígenas.

Buscando avançar sobre o setor do campo, Flávio indicou que o tema será incorporado aos discursos durante a campanha eleitoral.

— Nenhuma dessas reservas será demarcada se depender do nosso governo — disse Flávio, ao discursar para produtores presentes na Norte Show, em Sinop (MT).

A formulação ecoa uma das frases mais repetidas por Bolsonaro ainda antes de assumir o Planalto. Em novembro de 2018, em entrevista ao programa Brasil Urgente, da Band, o então presidente eleito afirmou:

— Eu tenho falado que, no que depender de mim, não tem mais demarcação de terra indígena.

À época, o argumento vinha acompanhado da promessa de garantir segurança jurídica ao campo e frear o avanço de novas áreas protegidas. No governo, a diretriz foi mantida: não houve novas demarcações homologadas entre 2019 e 2022.

Ao recuperar esse eixo, Flávio não apenas mobiliza o repertório do pai, mas tenta reativar a mesma lógica política que aproximou o bolsonarismo do agronegócio: a ideia de que a expansão da produção depende de freios à política indigenista e à regulação ambiental.

A passagem pela feira foi desenhada para sinalizar essa continuidade. Depois de chegar ao estado com uma camiseta com o slogan “o agro é top”, Flávio trocou de roupa e vestiu outra blusa com os dizeres “o futuro nasce do campo”.

Circulou entre produtores, participou de encontros com lideranças e repetiu gestos associados à campanha de Bolsonaro, incluindo a realização de uma motociata.

O pré-candidato também apresentou um pacote de acenos ao setor. Interlocutores relatam que os pontos apresentados pelo senador estavam alinhados a um documento entregue por representantes de entidades do setor, uma espécie de “cartilha” com prioridades do agro — que vão desde crédito e segurança jurídica até posicionamentos sobre regulação ambiental e política fundiária.

O senador defendeu a retomada de linhas de crédito do Plano Safra com juros mais baixos, a facilitação do financiamento aos produtores e a redução de burocracias. Também afirmou que pretende atuar contra a moratória da soja, com a intenção de levar o tema ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica e ao Supremo Tribunal Federal.

No campo ambiental, Flávio voltou a criticar o que chamou de uso “ideológico” da pauta e disse que o papel do governo deve ser o de “não atrapalhar” o setor produtivo, outra formulação recorrente no discurso de Bolsonaro quando tratava da relação com o agro.

A movimentação ocorre em um cenário mais competitivo do que o enfrentado pelo ex-presidente em 2018. O setor segue majoritariamente alinhado à direita, mas já não se organiza de forma automática em torno de um único nome.

A entrada de Ronaldo Caiado (PSD) na corrida presidencial alterou esse equilíbrio. Com histórico ligado ao setor, tendo sido uma das principais vozes da bancada ruralista no Congresso, e interlocução consolidada com produtores, o ex-governador passou a disputar o mesmo eleitorado e, na avaliação de aliados de Flávio, freou uma adesão que antes era tratada como natural ao bolsonarismo.

Pleito por vice

Esses movimentos também dialogam com pressões internas do próprio agronegócio. Lideranças do setor têm defendido, nos bastidores, que a chapa da direita em 2026 inclua um vice com origem ou forte ligação com o segmento, como forma de garantir interlocução direta em temas sensíveis.

Nomes como o da ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS) aparecem com frequência nesse debate, justamente por reunirem trânsito no setor e experiência na condução da política agrícola.

No entanto, a senadora tem se mostrado relutante e já disse a Flávio que pretende disputar a presidência do Senado no próximo biênio.

Sem Tereza, outros nomes com trânsito no setor, como a deputada federal Simone Marquetto (PP-SP), são citados. Também aparecem alternativas fora do agro, como a vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL-CE) e a deputada federal Clarissa Tércio (PP-PE), ligadas ao eleitorado conservador e evangélico, além do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), que tem perfil mais voltado à gestão e ao empresariado.