A fuga do candidato derrotado na eleição presidencial Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos deve abrir um novo flanco na crise das relações entre o governo de Donald Trump e o Brasil. Questões de tensão entre os países, como sanções americanas a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), regulação das big techs e combate ao crime organizado, devem escalar com o desembarque do senador em solo americano.
É o que avalia o cientista político Maurício Santoro, colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha. Flávio chegou nesta quarta-feira aos EUA e deve ser recebido por seu irmão e ex-deputado, Eduardo Bolsonaro.
Segundo Santoro, a fuga de Flávio para os EUA adiciona um elemento extra de tensão à relação Brasil-Estados Unidos, que já seria "bastante contenciosa". "Vivendo nos Estados Unidos sob a proteção do governo Trump, eles serão um forte grupo de pressão para incentivar novas sanções contra os ministros do STF, em particular Alexandre de Moraes e Flávio Dino, que são os mais visados pela oposição", avalia o cientista político.
O especialista aponta que a renovação do Senado prevista para o próximo período legislativo deve deixar esse cenário ainda mais inflamado. A chegada de parlamentares alinhados a uma pauta de confrontação com o STF, com pedidos de impeachment de ministros, promete ecoar essas demandas também no âmbito interno.
O debate regulatório sobre as redes sociais também figura no horizonte das turbulências bilaterais que a fuga de Flávio pode acirrar. Santoro destaca que as eleições foram marcadas por acusações de políticos de esquerda de que essas empresas calibraram seus algoritmos de modo a prejudicar as campanhas progressistas, reduzindo artificialmente seu alcance nas redes sociais.
A proximidade das big techs com o governo Trump, e uma possível articulação de Flávio com parlamentares bolsonaristas, deverá influenciar esse debate. "O novo Congresso, mais conservador do que a atual legislatura, será mais crítico a tais pautas, criticando os esforços regulatórios do governo Lula como tentativas de censura", diz.
Diante dos indícios de que houve uma ação articulada dos EUA e também da Argentina no plano de fuga de Flávio, Santoro classifica o cenário como "uma interferência inédita na política doméstica brasileira", caso o plano coordenado seja comprovado. Para além disso, em sua avaliação, os últimos dois anos foram marcados por muitos conflitos entre os governos do Brasil, da Argentina e dos Estados Unidos.
"Trump e Rubio entendem que o Brasil é um dos poucos obstáculos de peso na América Latina à implementação de sua nova doutrina para a região. Milei, em contrapartida, é talvez seu adepto mais entusiasmado, e espera colher muitos benefícios políticos e econômicos de sua proximidade com Washington.
Isso repete, em alguma medida, a diplomacia dos anos 1990, de Carlos Menem, de alinhamento aos EUA", diz. Santoro aponta também que um dos grandes riscos de novas tensões com os EUA está no campo da cooperação internacional em segurança pública e combate ao crime organizado.
Ele cita a articulação do Escudo das Américas — coalizão lançada pela administração Trump que reúne governos alinhados ideologicamente aos Estados Unidos — da qual o Brasil não faz parte. A iniciativa tem como foco coordenar operações militares e combater o crime organizado no continente, seguindo uma doutrina trumpista para a região.
Entre os integrantes estão Argentina, Bolívia, Paraguai e Peru. Os países que aderiram ao grupo classificam cartéis regionais como grupos terroristas, bandeira que foi defendida como mote de campanha por Flávio Bolsonaro e é rechaçada por Lula.
"O PCC e o CV são bastante ativos em diversas nações vizinhas como Bolívia, Colômbia e Paraguai", diz Santoro. "Podemos imaginar, por exemplo, um ataque armado dos EUA em parceria com um desses governos contra cartéis brasileiros operando na vizinhança, ou em águas internacionais no Oceano Atlântico", aponta o especialista.
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