O jurista Miguel Reale Júnior, de 82 anos, publicou um vídeo a dois dias do segundo turno em que reafirma apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e faz duras críticas ao senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência. “Quando disse que Flávio, na Presidência da República, era ir ao precipício, eu não estava exagerando”, afirma.
Ex-ministro da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso e professor titular da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), Reale Júnior é um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), apresentado em 2015. A trajetória jurídica e a atuação no debate público dão peso à manifestação: o jurista, que participou de um processo decisivo da política brasileira, agora alerta contra a candidatura de Flávio.
No vídeo, Reale Júnior retoma as suspeitas envolvendo a negociação da vacina Covaxin durante a pandemia. Ele lembra a resistência do servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda e as denúncias levadas por ele e pelo irmão, o então deputado Luis Miranda, ao presidente Jair Bolsonaro.
O jurista relaciona o episódio a uma reportagem publicada pela revista piauí em 21 de outubro. Segundo a publicação, Flávio participou, em julho de 2020, de um passeio de lancha no Lago Paranoá, em Brasília, com empresários ligados à Precisa Medicamentos, três garotas de programa e o amigo Alexandre Santini.
A revista relata que, ao fim do passeio, o empresário Danilo Trento colocou um relógio Rolex no pulso do senador. A piauí informou que Flávio não havia se manifestado até o fechamento da reportagem.
“Isso demonstra que não podemos ter na Presidência da República alguém que coloca sua satisfação pessoal acima do interesse de salvar milhares e milhares de vidas”, diz Reale Júnior. Para ele, o episódio revela “falta de respeito ao outro, falta de respeito à pessoa humana”.
Alerta repercute entre intelectuais e artistas A manifestação de Reale Júnior se junta a declarações e manifestos de brasileiros que apontam riscos institucionais associados ao projeto político de Flávio.
Em carta divulgada em outubro, juristas, acadêmicos, artistas e profissionais de outras áreas defenderam o respeito à Constituição e ao equilíbrio entre os Poderes. Entre os signatários estavam a historiadora Lilia Schwarcz, o escritor Ignácio de Loyola Brandão, a cantora Tiê e Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura.
Outro manifesto, de apoio à reeleição de Lula, reuniu Reale Júnior, o ex-chanceler Aloysio Nunes, o diplomata Rubens Ricupero, a economista Claudia Costin e o economista Eduardo Giannetti, entre outros. O documento afirma que o projeto representado por Flávio traz ameaças ao equilíbrio institucional, aos direitos e às liberdades democráticas.
A preocupação também chegou ao exterior. Em setembro, um artigo publicado no jornal francês Le Monde foi assinado por 30 intelectuais e artistas, entre eles Chico Buarque, o ex-jogador Raí, os economistas Thomas Piketty e Joseph Stiglitz e o Nobel de Economia Philippe Aghion.
O texto alertou para riscos à democracia brasileira e para a possibilidade de interferência estrangeira na eleição. Já nesta semana, mais de 40 políticos franceses, entre eles Jean-Luc Mélenchon, Christiane Taubira e Marine Tondelier, manifestaram preocupação com uma eventual vitória de Flávio e seus efeitos sobre a democracia no Brasil e no cenário internacional.
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Foto: Divulgação
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