O primeiro debate entre os candidatos à Presidência em 2026, a uma semana do segundo turno, seguiu a mesma toada pobre de toda a campanha eleitoral. Entre trocas de ofensas e deboches, quase não houve discussão de propostas. E o eleitor, sobretudo o disputadíssimo independente, teve poucos elementos para decidir em quem votar no próximo domingo (25/10). O presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, começou o programa em busca de um tom mais moderado. Mas o estilo “paz e amor” durou pouco, e ele logo partiu para o confronto. Relembrou o passado de Lula com acusações de corrupção e trouxe Roberta Luchsinger e Lulinha à discussão quando questionado por Lula sobre seu voto contra a ampliação da licença-maternidade de funcionárias da Assembleia Legislativa do Rio, em seus tempos de deputado estadual. Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email O senador abusou da ironia, à la Pablo Marçal, algo que pode prejudicá-lo com um eleitorado mais de centro – havia, desde o princípio, temor de seus aliados com ataques ao presidente de 80 anos. No geral, Flávio fugiu de responder as perguntas colocadas por Lula, numa estratégia similar à da sabatina na Globo. O chefe do Executivo, por sua vez, demorou para entrar no ritmo do embate e caiu nas provocações de Flávio. O petista pareceu em diversas ocasiões perdido, tanto no posicionamento do palco quanto no domínio do tempo de fala. Em seus melhores momentos, atacou o clã Bolsonaro e arrancou do senador um “mea culpa” pela condução da pandemia no governo do pai. Também conseguiu expor fragilidades de Flávio no primeiro bloco, ao fazer uma série de perguntas que o rival não respondeu. Quando questionado sobre a suposta votação majoritária que recebe nos presídios, brincou que quer o voto de todos, inclusive de Jair Bolsonaro — preso e condenado pela trama golpista. O debate ocorreu em clima de alta tensão, que se refletiu em manifestações indevidas e bate-boca entre assessores na plateia, principalmente no último bloco do programa. Não houve um vencedor claro e, ao que tudo indica, ninguém perdeu nem ganhou eleitores. Flávio pareceu levar vantagem ao falar mais de temas concretos e se dirigir mais à vida real do eleitor, enquanto Lula perdeu muito tempo mencionando dados, indicadores e questões abstratas para a maioria da população, como soberania, terras-raras, crescimento do PIB e superávit fiscal, entre outros. Por outro lado, o senador abusou da tática de permanecer atrás do adversário, sempre no enquadramento da câmera. Mas, ao fazer sinais enquanto Lula respondia a uma pergunta, pode ter passado a impressão de uma agressividade desnecessária. Primeiro bloco: Flávio começa melhor, Lula reage Flávio Bolsonaro começou melhor no confronto direto, quando conseguiu impor sua pauta e colocar Lula na defensiva. Questionado sobre a licença-maternidade, desviou para o caso Roberta Luchsinger e emendou acusações envolvendo Lulinha, INSS e Banco Master. Lula ficou claramente desnorteado, deixando-se induzir pela narrativa do rival, como se jogasse no campo do adversário. Inscreva-se no canal de notícias do JOTA no WhatsApp e fique por dentro das principais discussões do país! O presidente reagiu ao questionar Flávio sobre segurança pública e questões envolvendo mulheres. Cobrou explicações sobre a defesa de um policial que baleou uma criança, a contratação de parentes do miliciano Adriano da Nóbrega e o voto contrário à licença-maternidade de servidoras da Assembleia Legislativa do Rio. Também perguntou se pretendia seguir o modelo econômico de Javier Milei. E questionou o oponente sobre a possibilidade de ele revogar o fim da escala 6×1. Flávio não respondeu e demonstrou certo nervosismo, em seu pior momento no programa. A partir daí, o debate descambou para uma troca de acusações pessoais. Lula não conseguiu consolidar sua reação nem aproveitar a vantagem que obteve na administração do tempo. Ao chamar Flávio de miliciano, ainda deu ao adversário um direito de resposta, bem usado pelo senador para falar diretamente à câmera sobre segurança pública e recuperar a iniciativa. Segundo bloco: Menos ataques e embate sobre saúde O segundo bloco teve uma melhora no nível do debate, com menos ataques pessoais e mais espaço para propostas. Flávio destacou a escolha antecipada de seu futuro ministro da Saúde, ex-presidente do Hospital Albert Einstein, Claudio Lottemberg. Lula deu uma boa resposta, insinuando que o rival quer privatizar o SUS e afirmando que o ministro da Saúde tem que entender de saúde pública, não privada. Na discussão sobre segurança, Flávio cobrou Lula sobre as saídas temporárias de presos. O presidente respondeu que é contrário ao benefício para condenados por crimes violentos. Flávio aproveitou para se reposicionar sobre o fim da escala 6×1, assegurando que não revogaria a legislação aprovada na semana passada no Congresso. Depois, passou a explorar a carestia, afirmando que os R$ 600 do Bolsa Família no governo Bolsonaro tinham maior poder de compra. Lula reagiu dizendo que o adversário nunca havia trabalhado nem andado de ônibus e defendeu os resultados de seu governo na inflação e na valorização do salário mínimo. Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas O petista levou o confronto para a pandemia, lembrando a cloroquina defendida por Jair Bolsonaro, os problemas com vacinas, a falta de oxigênio e as cerca de 700 mil mortes. Flávio reconheceu que a saúde não teve bons resultados no governo do pai, mas atribuiu as dificuldades ao caráter inédito da crise e tentou mudar de assunto. Voltou à economia, prometeu criar o Ministério da Prosperidade e apresentou propostas para reduzir o endividamento e facilitar o crédito. Terceiro bloco: Flávio aposta no cotidiano, Lula recorre a números O terceiro bloco expôs diferenças no estilo de comunicação dos candidatos, aspecto em que Flávio tem levado clara vantagem. Lula falou de Nova Indústria Brasil, economia digital, datacenters e economia verde, em uma resposta marcada por conceitos abstratos. Flávio ironizou o presidente, dizendo que parecia ser da oposição, e apresentou propostas mais próximas do cotidiano, citando crédito e qualificação para manicures, cabeleireiros e pequenos empreendedores. Lula tentou explorar as relações de Flávio com os Estados Unidos, questionando a pressão pelas tarifas de Trump e a possibilidade de entregar reservas de terras raras aos americanos. Também desafiou o adversário a abrir, junto com ele, os sigilos bancário e telefônico. Flávio acusou Lula de receber dinheiro por fora e se distanciou dos manifestantes que pediram um bombardeio americano ao Brasil. Depois, voltou à segurança pública, defendendo a castração química de estupradores e a redução da maioridade penal, temas aos quais Lula evitou responder diretamente. Nas considerações finais, Lula enumerou realizações econômicas de seus governos e acusou Flávio de querer privatizar a Petrobras. O encerramento foi tumultuado e o presidente se atrapalhou ao dizer que “o Brasil acabou”. Flávio voltou à segurança pública, prometeu colocar o cidadão no centro de seu governo e agradeceu aos 56 milhões de eleitores do primeiro turno. Nenhum dos dois aproveitou plenamente o tempo para produzir uma mensagem final de maior impacto.
Flávio abusa de provocações, Lula cai em armadilhas e debate deixa eleitor sem respostas
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Portal Jota
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