Fim dos excessos? Movimento na estética aposta em rostos mais naturais e procedimentos menos invasivos
Depois de celebridades passarem a compartilhar nas redes sociais processos de reversão de preenchimentos faciais e exibirem traços mais naturais, um movimento antes restrito aos consultórios ganhou visibilidade e passou a pautar uma nova discussão dentro da estética: menos volume, mais individualidade. Nesse contexto, a chamada "desarmonização facial", termo popularizado para descrever a retirada ou suavização de excessos em procedimentos anteriores, vem levando pacientes a rever escolhas estéticas e, ao mesmo tempo, abrindo espaço para abordagens que priorizam a qualidade da pele, a firmeza e o rejuvenescimento estrutural, em vez de alterações marcadas nas proporções do rosto.
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"Existe uma procura maior por reversão ou suavização de procedimentos, mas não se trata de uma moda, mas um ajuste de rota. A desarmonização, nesse sentido, é muitas vezes a tentativa de recuperar proporções faciais de maneira individualizada, não necessariamente abandonar os procedimentos", diz Daniel Cassiano, dermatologista e diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Regional São Paulo (SBD-RESP). "Há uma mudança na queixa dos pacientes. A busca atual é por uma aparência descansada e pele bem tratada. Isso também é reflexo do quiet beauty e quiet luxury que se estendeu aos procedimentos estéticos", completa.
O fenômeno acompanha uma transformação mais ampla no comportamento estético. Se, na última década, o mercado foi marcado pela valorização da volumização — com maçãs do rosto mais projetadas, mandÃbulas evidentes e contornos intensificados —, hoje cresce a demanda por resultados mais discretos, associados a uma aparência de descanso e naturalidade, como se o rosto refletisse uma rotina menos cansada e um envelhecimento mais suave.
"A mÃdia internacional está chamando de 'Filler Fatigue', ou fadiga de preenchedor. Esse uso frequente, repetido e de forma inadequada dessas substâncias, ao longo do tempo, distende mais e mais os tecidos, assim criando a necessidade de cada vez mais preenchedor e, logo, piorando os sinais de envelhecimento", explica a cirurgiã plástica Beatriz Lassance.
"Os pacientes que buscam tratamentos médicos de beleza priorizam majoritariamente um resultado que seja clean, suave, para melhorar a qualidade da pele, com tratamentos de sustentação e prevenção, mas nada de intervenções exageradas ou que mudem a anatomia. Eles querem esse ar de elegância e sofisticação também no rosto", destaca o dermatologista Abdo Salomão Jr.
Com essa mudança de percepção, parte dos pacientes passou a notar efeitos indesejados associados ao excesso de intervenções, como perda de naturalidade, migração de substâncias, assimetrias e formação de nódulos, segundo o Dr. Daniel. Ao mesmo tempo, o próprio conceito de preenchimento também se transformou.
"O preenchimento não desapareceu, mas mudou de papel. A tendência é usar menos volume e mais precisão. Ganham espaço procedimentos que melhoram qualidade de pele e contorno sem necessariamente aumentar tanto o volume: bioestimuladores de colágeno, ultrassom microfocado, radiofrequência microagulhada, lasers, toxina botulÃnica bem indicada, peelings. A ideia é tratar envelhecimento de forma global: superfÃcie da pele, coxins de gordura, SMAS (sistema músculo-aponeurótico superficial) e ligamentos músculo-cutâneos, músculos e osso", afirma o Dr. Daniel.
Dentro desse cenário, cirurgias plásticas também voltam a ganhar espaço entre quem busca resultados mais estruturais, com técnicas como o deep plane facelift.
"Houve uma grande evolução das técnicas de facelifts, com resultados muito naturais. A técnica Deep Plane consiste na realização de um lifting facial de plano profundo, que age em todas as camadas que sofrem com o envelhecimento. Ou seja, reposiciona o conjunto de musculatura, gordura e pele da região da face a partir de uma dissecção profunda da musculatura facial. Dessa forma, conseguimos conquistar um resultado mais harmônico, com maior eficiência e durabilidade, especialmente para o bigode chinês, bochechas de bulldog e olheiras, justamente porque há o tratamento de camadas mais profundas como o SMAS (Sistema Musculo Aponeurótico Superficial). Essas modificações também facilitaram a execução e aumentaram o grau de segurança. As técnicas antigas de lifting facial conferiam aparência esticada e artificial e isso tem relação como a forma como o procedimento era feito, tracionando e esticando exclusivamente a pele, sem mexer em outras camadas também afetadas pelo processo de envelhecimento, como músculo e gordura", comenta a Dra. Beatriz.
Para quem prefere alternativas menos invasivas, novas tecnologias também entram em cena. Uma delas é o microcoring com laser Hybrid CO2.
"O procedimento não é tão invasivo quanto as cirurgias plásticas, mas promove resultados mais significativos que muitas tecnologias para a pele. A ação do laser Hybrid Co2 no modo microcoring é a de remover microfrações de pele, em microcilindros, com espessura em torno de 0,7mm até 1 milÃmetro. Com a remoção de microtubos da pele, o tecido cutâneo é obrigado a se contrair. Essa contração intensa confere um resultado parecido com o peeling de fenol. No entanto, além de não ter todos os efeitos colaterais da substância, o tempo de recuperação é muito menor, de sete a 10 dias, e com total segurança", observa o médico Dr. Abdo.
Por fim, o Dr. Daniel reforça a importância de cautela na escolha dos materiais utilizados em procedimentos estéticos. "Preenchedores bioabsorvÃveis tendem a oferecer maior previsibilidade e segurança quando comparados aos permanentes, porque, caso haja complicações, materiais permanentes podem ser difÃceis ou até impossÃveis de remover completamente", finaliza.
