Fernanda Montenegro sobre ser tema de documentário: 'Um fato novo nessa minha vida de atriz já chegando aos 100 anos'

Fernanda Montenegro sobre ser tema de documentário: 'Um fato novo nessa minha vida de atriz já chegando aos 100 anos' - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Às vésperas de completar 97 anos, no dia 16, Fernanda Montenegro é tema de documentário que tem première de gala amanhã na programação do Festival do Rio, no Cine Odeon, no Centro da cidade. O longa “Fernanda”, de Pedro Waddington, reúne imagens de arquivo, bastidores de filmagens, entrevistas antigas e áudios de WhatsApp para realizar um retrato amplo da artista e de suas mais de oito décadas de trajetória profissional.

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— Este documentário é um fato novo nessa minha vida de atriz já chegando aos 100 anos de idade. Um jovem cineasta se interessou pelos meus 84 anos de presença nos nossos palcos, na nossa televisão, no nosso cinema — conta Fernanda Montenegro em depoimento ao GLOBO.

— A organização desse filme é o resultado de a minha vida profissional, como atriz, sensibilizar a criatividade de um jovem cineasta. Pedro Waddington, filho de Andrucha Waddington e enteado de Fernanda Torres, revela que o projeto nasceu de “forma curiosa”, quando Lula Cerri, diretor de fotografia de “Vitória” (2025), comentou no set do longa que “alguém deveria estar registrando aquela mulher de 94 anos filmando cheia de vida”.

— Meu pai, que estava dirigindo o filme, me mandou uma mensagem: “Pega uma câmera e vem.” Foi um começo muito artesanal, começamos a captar a Fernanda ainda sem ela saber que estávamos querendo fazer um documentário sobre ela — diz o diretor. — Desde o início, pensei no projeto como um filme sem entrevistas de outras pessoas, tentando captar o máximo da personalidade da Fernanda e do processo dela.

Nunca foi uma vontade fazer um doc biográfico. A ideia sempre foi trazer essa Fernanda ainda muito viva e vívida.

A energia da Fernanda é uma coisa surreal, ela com 96 anos tem uma energia muito maior que muito jovem. Ela não para de trabalhar, acorda pensando no que fazer.

Pedro Waddington e Fernanda Montenegro, diretor e personagem do documentário "Fernanda" Fernando Young / Divulgação

Trabalho em família Apesar de conhecer Fernanda há quase 30 anos, Pedro explica que os dois não tinham uma relação de avó e neto e que foram se aproximar graças ao projeto.

Foram muitas conversas e trocas de mensagens sobre o processo, o que o diretor fez questão de trazer para a obra. — Confesso que, ao longo da vida, eu tive contato com Fernanda por ela ser mãe da minha madrasta, a Nanda.

Mas por mais que existisse isso, eu realmente não tinha muito contato com ela. Acho que tinha um respeito excessivo, talvez um medo de me aproximar.

Este filme, definitivamente, é o que nos ligou de alguma forma e hoje me sinto bastante próximo da Fernanda — afirma Pedro. — Acho interessante essa coisa da proximidade pelo trabalho, até envolvendo a família.

A relação que tenho com meu pai no trabalho é uma coisa muito diferente da relação de pai e filho, é mais uma coisa de estarmos juntos no mesmo processo. Com a Fernanda foi o mesmo.

Assim como o cineasta, Fernanda também fala sobre trabalhar em família. Ao longo de sua trajetória, ela teve parcerias marcantes com o marido, Fernando Torres (1927-2008), com a filha e com o filho, Cláudio Torres, além de trabalhos com o genro, Andrucha, e o neto, Joaquim Torres Waddington.

— Sempre trabalhei com a “minha tribo sanguínea” como também com a minha “família de opção”. O que nos une é a vocação.

E digo, numa vida nada é mais misterioso, sagrado e inarredável do que a vocação — defende a atriz. Apesar da nova proximidade com a atriz, Pedro admite que ficou um pouco receoso na hora de apresentar o filme para ela e que foi um alívio ver que havia gostado.

— Ela fez pouquíssimos comentários, o filme foi muito bem aceito por ela. Desde o início, ela falou: “Este filme é seu, faça como preferir, porque eu não posso dizer como posso ser contada” — lembra o diretor.

— Acho que teve essa percepção dela de deixar o filme na minha mão, o que me deixou muito contente. Foi um processo superartesanal, e me senti muito livre e feliz.

Cartaz de "Fernanda", documentário de Pedro Waddington sobre Fernanda Montenegro Divulgação/Conspiração Filmes

Mais do que uma “lista de fatos e glórias”, Pedro revela que quis apresentar a essência de Fernanda, especialmente seu humor. — Fernanda tem um certo modo de falar, ela é engraçada, ela faz piadas com um certo tipo de morbidez, brincando com a finitude, com a condição de ser velha, tudo isso a gente teve uma preocupação de trazer.

Eu quis trazer a personalidade dela, então nos debruçamos muito nesse assunto da morbidez, da proximidade da morte — afirma Pedro. Fernanda também fala sobre como foi assistir ao doc sobre sua trajetória.

— Fiquei feliz. Não é comum, no nosso tempo, mais ainda no Brasil, um cineasta achar nesta temática, a velhice, um motivo para um documentário feliz — diz a atriz.

“Fernanda” tem produção da Conspiração Filmes e será lançado até o final do ano no streaming do Universal+.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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