Os preços do chocolate, que há pelo menos um ano estão mais altos, podem subir ainda mais no médio prazo.
E o culpado é o fenômeno climático El Niño, que ameaça prejudicar as plantações de cacau no oeste da África, principal região produtora de amêndoas no mundo.
Depois de alcançarem o recorde de mais de US$ 12 mil por tonelada na bolsa de Nova York em dezembro de 2024 — refletindo à época a queda na produção global — , os contratos futuros de cacau caíram gradualmente e voltaram a níveis considerados “normais”, na casa dos US$ 3.000, em fevereiro de 2026, uma vez que a colheita se recuperou e a demanda se retraiu.
Mas desde que ficou clara a perspectiva de um El Niño muito forte neste ano, as cotações ganharam força e, nas últimas semanas, voltaram ao patamar de US$ 6 mil por tonelada.
De acordo com a última atualização da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), que monitora o fenômeno desde 1950, há 93% de chances de o El Niño atingir a categoria “muito forte” entre outubro e dezembro deste ano.
Isso tende a causar seca no oeste da África, afetando a produção de cacau da Costa do Marfim e Gana, que respondem por 60% da produção mundial.
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Segundo a Hedgepoint Global Markets, o impacto do El Niño pode atrasar o início das chuvas e prolongar o período de seca nos dois países, afetando a fase de floração e desenvolvimento dos frutos.
Já no Equador, terceiro maior produtor global, as chuvas excessivas e as altas temperaturas podem ser amplificadas e levar ao surgimento de doenças no ciclo.
“Dependendo da magnitude desses impactos, o mercado poderá observar maior pressão sobre os contratos [futuros] de março e maio de 2027”, afirma Carolina França, analista de inteligência de mercado da Hedgepoint.
França cita ainda que o Órgão Nacional de Cacau e Café de Camarões (ONCC), país que é quinto maior produtor mundial, informou recentemente queda de 20% na produção da safra atual e indicou que o El Niño deve ser responsável pela redução da oferta.
Também em decorrência de possíveis impactos do El Niño na produção, a StoneX reduziu a previsão de saldo global de cacau de 149 mil toneladas para 25 mil toneladas na safra 2026/27 (de outubro de 2026 até setembro de 2027).
Além disso, a consultoria afirmou que existem relatos de contagem de vagens abaixo do padrão para esta época do ano no oeste da África, o que indica possibilidade de produção menor no próximo ciclo.
A alta dos preços do cacau em 2024 impactou o setor de chocolates no Brasil, que fez ajustes, como a redução no tamanho das embalagens, para enfrentar o aumento dos custos.
Também houve repasses aos preços ao consumidor.
Segundo Jaime Recena, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab), os chocolates com mais sólidos de cacau na sua composição, por exemplo, um “chocolate 70% cacau”, sofreram maior impacto no preço final.
Já os chocolates ao leite, com 20%, 25% ou 30% de sólidos de cacau, sofreram menos impacto.
“Chocolate ao leite é a preferência dos consumidores brasileiros.
Esse tipo de produto tende a sofrer menos interferência de preço e vender mais”, afirma.
Agora, diante do impacto esperado do El Niño na produção de cacau, Recena não acredita em uma nova alta imediata nos preços do chocolate.
“Chocolate não é como a gasolina que aumenta o petróleo e a bomba já fica mais cara”, compara.
Segundo ele, as indústrias manterão suas estratégias para mitigar a volatilidade do preço da commodity, seja mudando embalagens, fórmulas ou lançando novos produtos com preços acessíveis.
“Estamos vendo um mercado crescente para biscoito com chocolate.
São produtos que entram em uma faixa de consumo maior e alcança um público mais amplo”, diz.
Alerta para a produção no Brasil
O El Niño também gera preocupação entre produtores de cacau no Brasil.
Ricardo Gomes, que cultiva em Itabuna (BA), observa que o fenômeno pode provocar veranicos, altas temperaturas e estiagem no Norte e Nordeste do país, regiões de produção da amêndoa.
“Possivelmente, a gente vai sentir nas próximas duas safras um impacto muito forte, a depender de como o El Niño vai acontecer aqui na região”.
Gomes, que também é diretor programático do Instituto Arapyaú, organização que fomenta a produção sustentável, lembra que em 2015 e 2016, o mesmo fenômeno afetou a produtividade de cacau.
Na época, o El Niño foi classificado como um dos mais fortes da história.
“A situação é muito preocupante, porque pode gerar até uma questão de viabilidade da produção nos próximos dois anos”, diz.
