Líder nas pesquisas na disputa pelo governo de Minas Gerais, contrariando a previsão de adversários que apostavam no derretimento da candidatura após a largada conturbada de sua campanha, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) passou a angariar apoios até em partidos rivais. O parlamentar, porém, também se tornou alvo prioritário das críticas e ataques de outros postulantes, enquanto evita participar de debates e concentra a busca por votos nas ruas e nas redes sociais.
'Quero ser comparado com o pai dele, que tramou minha morte': Lula diz que 'Flávio não é ninguém' durante ato em MG: Datafolha: Lula tem 46% em segundo turno contra Flávio Bolsonaro, que alcança 44% No último levantamento feito pela Quaest, divulgado na semana passada, o senador registrou 32% da preferência do eleitorado, ante 29% na rodada anterior. O desempenho é semelhante ao computado na mesma época do ano pelo ex-apresentador de TV Mauro Tramonte (28% e 30%), candidato do Republicanos em 2024 na corrida pela prefeitura de Belo Horizonte. Na semana antes da votação, contudo, o jornalista enfrentou uma queda expressiva e ficou fora até mesmo do segundo turno, disputado pelo ex-prefeito Fuad Noman (PSD-MG) e o deputado estadual Bruno Engler (PL-MG).
Nas campanhas adversárias, existia a expectativa de que o mesmo aconteceria com Cleitinho neste ano, sobretudo após o vaivém que antecedeu o registro de sua candidatura. Caso se confirmasse, o movimento poderia beneficiar oponentes tanto da esquerda quanto da direita. A manutenção do desempenho do senador pressiona nomes como o empresário Flávio Roscoe (PL), que permanece na Quaest com 3% e tem assistido a correligionários declararem apoio a Cleitinho. O endosso ao parlamentar dentro da sigla é puxado por deputados que buscam a reeleição na Câmara, como Maurício do Volei e Junio Amaral, e na Assembleia Legislativa, como Amanda Teixeira e Chiara Biondini. Imagens do candidato da legenda à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, também vêm sendo usadas junto às de Cleitinho por nomes dos dois partidos, como o postulante a deputado federal José Caldeira, do Republicanos.
Questionado pelo GLOBO sobre o apoio de integrantes do PL ao senador, Roscoe respondeu, em nota, que enxerga o movimento com "tranquilidade, porque, em um universo de 120 candidatos a deputado estadual e federal do PL, apenas poucos manifestaram apoio a outras candidaturas". "A ampla maioria está com a nossa candidatura ao governo de Minas Gerais, inclusive o próprio presidente Flávio Bolsonaro, que tem estado constantemente ao nosso lado aqui em Minas, validando a escolha do meu nome para a disputa", acrescentou.
Sem candidato ao Senado oficializado em sua chapa, Cleitinho também tem distribuído acenos a integrantes de outras composições, como Domingos Sávio (PL), também aliado de Roscoe, e ao advogado Marco Antônio Costa, conhecido como "Superman" e lançado pelo Novo. O partido integra a coligação do atual governador Mateus Simões (PSD), que busca a reeleição e registra 8% das intenções de voto na Quaest. Escolhido como sucessor do ex-governador Romeu Zema (Novo), Simões inicialmente evitou críticas diretas a Cleitinho, mas, na última semana, passou a ser incisivo no discurso contra o adversário durante a participação em sabatinas de veículos locais. Em entrevista ao Estado de Minas na última terça-feira, por exemplo, subiu o tom contra as propostas feitas pelo senador ao longo da campanha e o criticou pela ausência nos debates.
— Ele propõe isenção do IPVA, da taxa de tratamento de esgoto e da cobrança dos pedágios, e aumento real de 30% para o funcionalismo público. Ele vai fazer o quê? Vai imprimir dinheiro? Não é possível confrontá-lo nessas questões porque ele não comparece às discussões para fazer o enfrentamento desses temas. Historicamente, eu tenho uma boa relação com ele, mas queria que ele me explicasse como essas coisas se casam no final — disse Simões.
Campanha nas ruas e nas redes Além da ausência no confronto com outros adversários, como estratégia de campanha, o senador tem concentrado suas agendas no interior do estado, principalmente nas cidades do entorno de Divinópolis (MG), seu reduto eleitoral. O senador também tem ido a municípios do Sul de Minas, região em que os eleitores se mostraram tradicionalmente mais conservadores e onde Bolsonaro venceu em quase 70% das cidades em 2022. O parlamentar também esteve no Norte do estado, que espelha o apoio de eleitores do Nordeste a candidatos de esquerda.
Além disso, o candidato do Republicanos vem deixando em segundo plano os compromissos em Belo Horizonte, onde se limitou a participar, até o momento, de um encontro fechado com mais de cem prefeitos mineiros e de gravações de entrevistas e sabatinas. Em caminhadas nas ruas e em adesivaços nas rodovias, o parlamentar tem distribuído materiais de campanha, cuja produção corresponde à maior fatia das despesas declaradas por ele ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Sem acesso ao fundo eleitoral, em função de um acordo firmado com a direção de seu partido, Cleitinho declarou R$ 631 mil em doações recebidas, dos quais R$ 330 mil foram destinados para "publicidade por adesivos" e R$ 72 mil para a "publicidade por materiais impressos". Outros R$ 60 mil foram gastos na produção de jingles, vinhetas e slogans veiculados na propaganda eleitoral gratuita do candidato na TV e nas redes sociais, onde também aposta em transmissões ao vivo dos encontros com apoiadores.
O desempenho do senador nas redes sociais, onde é popular, chegou a ser mencionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em entrevista à Rádio Itatiaia nesta quinta-feira. O comentário, no entanto, foi acompanhado de uma crítica ao senador, que, segundo o petista, não conhecia o acordo do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag). Em Minas, o mandatário apoia a candidatura do deputado federal petista Patrus Ananias, que tem 11% na Quaest.
— O Cleitinho é um homem de internet, mas ele é pouco prático na administração. Ele, que é senador, não sabia que foi feito o acordo da dívida de Minas Gerais por iniciativa do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva — disse.
O Globo