Parece aquele famoso, tem a voz dele, o rosto dele, os trejeitos dele.
Mas não é ele.
É nesse cenário, impulsionado pelos avanços tecnológicos, que internautas e celebridades estão na mira de golpes que ameaçam não só o bolso, mas a reputação.
De acordo com o Relatório de Fraude de Identidade da Sumsub, o Brasil já está entre os principais países com ocorrências de fraudes que usam Inteligência Artificial avançada — como as chamadas deepfakes.
Em 2025, o país registrou um crescimento de 126% nas tentativas de fraude com deepfake em comparação ao ano anterior.
Criado em 2017, o termo deepfake se refere à técnica de inteligência artificial que tem como objetivo alterar elementos audiovisuais para criar um conteúdo sintético — algo que nunca existiu.
Quase uma década depois, basta uma navegação comum pela web para observar de perto como esse mecanismo tem ganhado espaço no mundo do crime e colocado em risco celebridades e internautas.
É o caso que vem dando dor de cabeça ao médico Drauzio Varella, que há mais de 30 anos constrói uma reputação marcada pela divulgação científica e por temas de grande apelo social, como vacinas, câncer, HIV e cuidados de saúde no geral.
Nos últimos anos, todo prestígio conquistado pelo médico virou arma na mão de golpistas, que usam a influência dele para promover golpes relacionados à saúde.
Um desses casos foi analisado pela Quem e mostra Drauzio durante um bate-papo amistoso com Fátima Bernardes, também marcada pela trajetória sólida como comunicadora e jornalista.
A imagem da entrevista, retirada de um podcast disponível no YouTube, foi completamente modificada e deturpada para atender aos interesses dos criminosos.
Podcast de Fátima Bernardes é alvo de golpe por deepfake
Reprodução
O objetivo? Vender um produto que promete emagrecimento quase milagroso, utilizando recursos da comunicação persuasiva, do marketing digital e o uso refinado de IA.
Com aproximadamente uma hora de duração, o deepfake de Drauzio elenca benefícios e efeitos surreais, com falas como: "Você vai derreter 5kg em poucos dias, sem academia, sem dieta, sem jejum, sem remédio" e "100% natural".
Como se a imagem de Drauzio e Fátima não fosse o suficiente, o esquema criminoso vai além e insere relatos falsos com deepfakes de famosas que tiveram o processo de emagrecimento muito noticiado, como o de Simone Mendes, Jojo Todynho, Gkay e Maiara, da dupla com Maraisa.
Nos depoimentos falsos, imagem, voz e reputação das famosas se unem para convencer o espectador de que a mudança física delas se deve ao suplemento Tirzavex — que, segundo apuração desta reportagem, sequer existe no registro da Anvisa.
Deepfake com a imagem de Drauzio Varella, Fátima Bernardes e Simone Mendes
"A internet virou uma coisa tão difícil"
Esse golpe, que até o fechamento da reportagem seguia ativo por meio de anúncios digitais, é só mais um número em uma estatística que parece crescer na mesma velocidade em que essas ferramentas se tornam acessíveis ao público.
Há quatro meses, Maria*, de 62 anos, ex-funcionária pública aposentada, passou pela experiência de ser cativada por um vídeo em que, segundo ela, o cantor Péricles e a cantora Maiara atribuíam o emagrecimento ao uso de um "suplemento fit".
O esquema foi similar ao de Drauzio Varella: promessas empolgantes, deepfake com relatos de pessoas públicas que tiveram o emagrecimento midiatizado, direcionamento para a compra e o alerta de que o preço ofertado era válido por apenas alguns minutos.
Deepfake com a imagem de GKay e Jojo Todynho
Ela, que há alguns anos busca reduzir as medidas, decidiu confiar na propaganda e comprou o suplemento por R$ 250.
"Eu realmente achei que o negócio era válido.
Para mim, eram artistas falando.
Era o Péricles, a outra cantora sertaneja, uma outra artista da Globo também aparecia", explicou Maria*.
O produto chegou e imediatamente as suspeitas de golpe ganharam força.
Embalagem mal feita, falta de lacre e de certificados foram o que fizeram Maria* desistir de tomar o tal suplemento.
"Fiquei com receio de que não tivesse nada do prometido e talvez só prejudicasse minha saúde.
Aí eu preferi jogar os R$ 250 no lixo e não tomar", relata.
Questionada sobre o motivo do termo "jogar no lixo", ela contou que não conseguiu reaver o dinheiro gasto.
"Tentei apenas tirar do cartão, mas isso não resolveu nada, porque já tinha dado como pago e o banco não quis nem saber".
A falta de sucesso com a instituição financeira deu lugar ao desânimo de procurar autoridades.
"Me senti desmotivada a levar isso adiante, a fazer um boletim de ocorrência… porque eu acho que no fim não vai dar em nada", justificou, afirmando não acreditar que as instituições públicas de segurança deem conta dos golpes virtuais.
Maria* agora diz não ser capaz de identificar o que é falso ou real nas redes sociais.
Apesar disso, ela entende que as celebridades também são vítimas: "O problema não são os artistas, o problema é o que está atrás deles.
Infelizmente a internet virou uma coisa tão difícil...
Você tem que acreditar muito, ou desconfiar muito.
Às vezes eu me empolgo e me engano".
Questionada se a experiência a fez desconfiar mais da imagem dessas pessoas públicas, ela ponderou: "Quando está em algum produto, agora, sim.
Porque de repente não são eles, né? É fake news".
O anúncio do produto comprado por Maria* já não está no ar.
O lado de lá
Assim como Maria percebeu, o avanço de golpes utilizando deepfakes de famosos também traz consequências sérias e fora de controle para eles — como perda de credibilidade, prejuízo no mercado de influência e falsas acusações de conivência com as fraudes.
Em uma pesquisa rápida envolvendo golpes com inteligência artificial para vender produtos de saúde, o nome de Drauzio Varella é um dos que mais aparecem no site Reclame Aqui, sendo a maioria dos relatos semelhante ao da aposentada.
Em conversa com a Quem, Mariana Varella, filha do médico e responsável por sua assessoria, desabafou sobre o quanto a equipe é cada vez mais procurada para denunciar casos envolvendo a imagem dele em deepfakes.
"Ele se sente lesado por ser um ataque à reputação que ele construiu durante muitos anos.
Mas o que mais o incomoda, nesse sentido, é a preocupação com a saúde pública, com as pessoas.
Porque ele não está ali vendendo um tênis, que, se você comprar, na pior das hipóteses vai ser um produto ruim, que você vai encostar e deixar de lado".
Segundo ela, o desafio maior é porque a imagem de Drauzio é atrelada a problemas de saúde sérios.
"Estão fazendo as pessoas tratarem condições de saúde com produtos desconhecidos, produtos que a gente nem sabe o que tem dentro, que podem inclusive ocasionar malefícios à saúde das pessoas, e que não foram aprovados pela Anvisa".
Mariana apontou que devido à alta incidência de casos que chegam até eles, foi necessário abrir um processo contra a Meta junto ao Ministério Público.
"A gente considera que isso é um atentado à saúde pública.
A gente recebe muita mensagem no portal, de consumidores dizendo que compraram e não receberam, ou que compraram e não conseguiram efeito.
Relatos de pessoas que estão inclusive parando o tratamento convencional por conta dessas medicações — que não são medicações.
A gente está muito preocupado com isso há muito tempo já, e são centenas de anúncios como esse.
Às vezes a gente denuncia e não acontece absolutamente nada", disse.
Em conversa com Marcelo Robalinho, especialista em direito de imagem e direito empresarial, a equipe de Drauzio seguiu a cartilha recomendada para casos como esses.
Segundo o advogado, o primeiro passo é preservar as evidências e não ter interações com o conteúdo fraudulento.
"Não comentar, não compartilhar para 'desmentir' e nem enviar mensagem direta ao fraudador, já que evitar engajar é regra de ouro nesses casos", explica.
"Conforme o caso, um desmentido oficial pode ser feito, mas sempre com o cuidado de não dar mais exposição ou interação ao conteúdo deepfake", pondera Robalinho.
Depois de reunir prints, links e vídeos, o passo seguinte é a denúncia formal às plataformas.
Robalinho lembra que redes como Meta, Google e TikTok mantêm canais específicos para casos de uso indevido de imagem e disseminação de conteúdo fraudulento, mas que a resposta costuma ser lenta e, muitas vezes, insuficiente.
Na avaliação do advogado, a via judicial é o caminho mais efetivo para conter esse tipo de golpe.
Resta, então, a pergunta: é possível saber quem está por trás disso? Segundo Robalinho, sim — mas essa é a parte mais técnica do processo.
O vídeo ou áudio manipulado, de acordo com o especialista, raramente carrega a assinatura do autor de forma direta.
Sendo assim, o processo até o golpista passa por rastros deixados fora do próprio arquivo, como metadados, dados de login e histórico de pagamentos.
"O rastreamento é tecnicamente viável e juridicamente previsto, mas depende quase que inteiramente da qualidade dos rastros deixados e da boa atuação policial e judicial", resume ele.
Além da equipe de Drauzio Varella, a Quem denunciou o caso encontrado para a sertaneja Maiara, Fátima Bernardes, Simone Mendes, Jojo Todynho e Gkay.
As duas últimas acionaram os advogados para atuar contra o golpe em específico.
Deepfake é crime no Brasil?
Deepfake não é crime no Brasil
Reprodução/Imagem gerada com uso de inteligência artificial
O avanço tecnológico ocorre em passos mais rápidos do que a lei.
No caso da inteligência artificial, essa velocidade é exponencialmente maior.
Assim, os novos usos impõem desafios não somente para famosos e internautas, mas também para a legislação.
Alexander Coelho, advogado e especialista em direito digital, IA e cibersegurança, explica que, no caso dos golpes com deepfakes, a análise de finalidade e consequências é a principal via para o combate, uma vez que a tecnologia por si só não é proibida no país.
"O deepfake, isoladamente, não constitui um crime.
A utilização pode ser lícita, por exemplo, em obras autorizadas, artísticas ou claramente humorísticas.
O enquadramento jurídico depende da finalidade, do conteúdo e do dano produzido", defende.
Segundo o advogado, o uso problemático da ferramenta pode ser enquadrado em crimes que já são tipificados na justiça brasileira, como estelionato, quando a manipulação é usada para enganar consumidores e obter pagamentos.
Além do crime já previsto no artigo 171 do Código Penal, a prática golpista também pode esbarrar nas áreas do consumidor e cível.
Segundo o advogado, o esquema pode configurar diferentes violações simultâneas, como:
Publicidade enganosa — proibida pelo artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor; promover publicidade que se sabe, ou deveria saber, ser enganosa também pode configurar crime contra as relações de consumo.
Violação aos direitos da personalidade — a utilização não autorizada da imagem e da voz dos famosos pode gerar retirada do conteúdo e indenização.
Violação de direitos autorais — a reprodução e adulteração do podcast original também pode gerar consequências jurídicas.
Infração à LGPD — se houver coleta ou uso irregular de dados pessoais, pode incidir a Lei Geral de Proteção de Dados, com o dever de reparar os danos causados.
E, assim como já sinalizava a preocupação de Drauzio Varella, o especialista garante que o caso também pode ser judicializado na área da saúde.
"Anunciar ou comercializar medicamento sem registro pode configurar infração sanitária.
Se um produto falso, adulterado ou de origem clandestina for efetivamente fabricado ou distribuído, outros delitos contra a saúde pública também poderão ser investigados".
Por trás das máquinas: como evitar cair em deepfake?
Sinais de deepfake
Não é preciso entender profundamente de tecnologia para escapar dessas armadilhas.
Pelo menos, é o que garante Bruno Caldas, Head de cibersegurança da Skyone: "o segredo está em observar os detalhes com atenção e manter o pé atrás."
Segundo ele, alguns sinais entregam se um vídeo ou áudio é falso.
Nos olhos, vale notar se a pessoa pisca muito pouco, mantém um olhar fixo demais ou tem os dentes levemente borrados ao falar.
Nos contornos do rosto — queixo, pescoço, cabelo — qualquer falha de iluminação ou borrão quando a pessoa aproxima as mãos do rosto é motivo de alerta.
Já na voz, segundo ele, a clonagem costuma soar fria, sem as pequenas respirações de uma fala natural.
Além disso, em muitos casos, o golpe é ainda mais simples de identificar, já que os criminosos pegam um vídeo real do artista e sobrepõem um áudio falso, o que quase sempre deixa o movimento da boca fora de sincronia com o som.
O especialista também recomenda dois cuidados práticos para inserir no dia a dia:
Desconfie de promessas milagrosas: nenhuma celebridade ou médico famoso vai indicar remédio milagroso, investimento com lucro garantido ou indenização secreta por um link patrocinado.
Cheque a fonte oficial: antes de clicar em qualquer anúncio, vale conferir se o próprio artista publicou aquilo em seu perfil verificado.
Mas, afinal, não existe um programa para checar deepfakes?
Segundo o especialista, sim — mas a recomendação é deixá-los em segundo plano.
Isso porque, na análise dele, a tendência é dos criminosos superarem esses programas.
"É uma disputa sem fim.
Toda vez que um sistema aprende a identificar um erro no vídeo falso, os criadores das inteligências artificiais corrigem essa falha na atualização seguinte", explica.
Vale considerar também que essas ferramentas esbarram em limitações importantes como a qualidade do arquivo e a capacidade interna.
"Analisar bilhões de vídeos publicados diariamente ao redor do mundo exige um poder de processamento inviável na prática", explica Bruno Caldas.
Caí em um golpe de deepfake, e agora?
Se o golpe já aconteceu e o dinheiro já saiu da conta, o tempo passa a ser o principal aliado da vítima.
É o que explica o advogado Alexander Coelho, especialista em direito digital, IA e cibersegurança.
"A primeira providência é falar com o banco ou emissor do cartão pelos canais oficiais.
No Pix, deve-se contestar imediatamente a transação e solicitar o Mecanismo Especial de Devolução, o MED.
Embora o pedido possa ser registrado em até 80 dias, a rapidez aumenta a possibilidade de localizar e bloquear recursos.
No cartão, a vítima deve bloquear o cartão, contestar a compra e solicitar o cancelamento ou estorno".
Se a vítima chegou a informar senhas ou códigos durante o golpe, a recomendação é trocar as credenciais em outro aparelho seguro, encerrar todas as sessões abertas e ativar a autenticação em dois fatores.
Caso documentos pessoais tenham sido enviados, Coelho recomenda monitorar contas, empréstimos e relacionamentos bancários por meio do Registrato, sistema do Banco Central que reúne esse tipo de informação.
Outro passo essencial é registrar boletim de ocorrência na Polícia Civil e denunciar o anúncio à rede social, à plataforma de publicidade e — em casos de produtos de saúde, como os golpes que usam a imagem de Drauzio Varella — à Anvisa.
Segundo Coelho, a vítima deve se atentar para reunir os elementos abaixo, já que serão importantes numa eventual ação judicial:
Vídeo, link completo, capturas e gravações de tela;
Data e horário;
Identificação do perfil e do anúncio, além da página de venda;
Conversas, e-mails e comprovantes;
Dados do beneficiário do pagamento e protocolos de atendimento.
Dá para recuperar o dinheiro perdido? "É possível, mas não existe garantia", resume o advogado.
As chances aumentam quando a vítima age rapidamente, quando o dinheiro ainda está disponível ou pode ser rastreado, e quando existem provas claras da fraude.
O projeto Mercado Ilegal é uma realização dos jornais O GLOBO, Valor Econômico e Extra e da rádio CBN, com patrocínio da Philip Morris Brasil, do Instituto Combustível Legal e do Mercado Livre, e apoio da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee).
Famoso indicou, mas é golpe: o perigo dos deepfakes que vendem pirataria nas redes
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