A inteligência artificial começa a criar uma divisão dentro das salas de aula. Enquanto famílias de alta renda recorrem a escolas particulares que prometem personalizar o aprendizado com ferramentas de IA, instituições públicas ainda enfrentam dificuldades para estabelecer políticas de uso da tecnologia. O movimento ocorre justamente quando aumentam as preocupações sobre a preparação dos jovens para um mercado de trabalho que pode ter menos vagas de entrada e exigir mais familiaridade com a IA. A diferença de acesso aparece de forma clara no caso da Alpha School, dos Estados Unidos. A instituição, que utiliza inteligência artificial como parte central do ensino, cobra de até US$ 75 mil (aproximadamente R$ 382 mil) por ano.
A rede, segundo informações fornecidas à Fortune, reúne mais de 1.200 alunos e pretende chegar a 50 unidades este ano. Os estudantes passam duas horas diárias estudando as disciplinas principais com um tutor de IA, e dedicam o restante do período a atividades como comunicação, liderança e educação financeira. Há adultos na escola, chamados de “guias”, mas eles não dão as aulas nem corrigem as tarefas. "Definitivamente, acho que usar IA bem será uma habilidade no futuro, se não a habilidade definitiva, então é uma pena não tê-la nas escolas", disse Sarah Cone, uma investidora de capital de risco cuja filha de 8 anos frequenta a Alpha School em Nova York, à Fortune.
A Aplha diz em seu site que o modelo de aprendizagem de duas horas "aproveita o poder da tecnologia de IA para fornecer a cada aluno um aprendizado personalizado individual, acelerando o domínio do conteúdo e dando-lhes o presente do tempo". E acrescenta: "Com as disciplinas acadêmicas principais concluídas pela manhã, eles podem usar as tardes para explorar uma infinidade de oficinas que lhes permitem seguir suas paixões e aprender habilidades práticas na escola". A aprendizagem oferecida pela instituição representa uma possibilidade que está distante da realidade de muitas escolas públicas. Huriya Jabbar, professora de políticas educacionais da Universidade do Sul da Califórnia, afirma que locais com menos recursos enfrentam obstáculos para criar e manter programas de educação relacionados à inteligência artificial. “A IA — assim como qualquer outra ferramenta, tecnologia ou currículo — vai se desenvolver em um cenário que já é desigual”, salientou. Quando mais tecnologia não significa mais aprendizado A introdução de computadores e outras ferramentas digitais nas escolas ganhou força nos Estados Unidos a partir de 2014. Agora, a expansão está sendo apontada como responsável pela piora da capacidade de raciocínio dos estudantes.
O neurocientista Jared Cooney Horvath chegou a tratar do assunto em uma audiência no Congresso americano. Segundo ele, o aprendizado baseado em telas pode tirar a atenção dos estudantes das atividades educacionais e contribuir para resultados inferiores em avaliações.
“Este não é um debate sobre rejeitar a tecnologia. Trata-se de alinhar as ferramentas educacionais com a forma como a aprendizagem humana realmente funciona. As evidências indicam que a expansão digital indiscriminada enfraqueceu os ambientes de aprendizagem em vez de fortalecê-los”, observou, citado pela Fortune. A chegada dos chatbots de IA reproduz essa situação. Os estudantes podem recorrer às ferramentas para produzir trabalhos, responder perguntas ou resumir conteúdos sem necessariamente desenvolver as habilidades necessárias para realizar essas tarefas sozinhos.
Um estudo que analisou a adoção da tecnologia por 26.811 estudantes chineses do sétimo ao décimo segundo ano descobriu que ela aumentou as notas das tarefas de casa em 18%, mas reduziu as notas das provas em 20%. Alfabetização em queda aumenta preocupação O debate sobre IA nas escolas chega em um momento particularmente delicado para a educação. Os resultados mais recentes do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), que compara o desempenho educacional em diferentes países, mostram uma deterioração nas habilidades de leitura e matemática entre jovens de 15 anos em 38 democracias de livre mercado avaliadas. E as dificuldades não necessariamente ficam restritas ao ensino básico. Professores universitários relataram à Fortune que alguns estudantes chegam à faculdade com dificuldades para lidar com textos extensos e utilizando resumos produzidos por inteligência artificial. Nesse cenário, a expansão da IA coloca uma questão adicional: se uma ferramenta consegue resumir um texto, responder perguntas sobre ele ou produzir uma redação, como garantir que o estudante continue desenvolvendo essas mesmas capacidades? Para Kirsten Peterson, gerente sênior de projetos do Centro de Desenvolvimento Educacional, organização sem fins lucrativos, a resposta passa por preservar o papel da leitura e da escrita na formação dos alunos. “Queremos leitores que consigam interpretar, questionar, fazer conexões, reconhecer perspectivas, avaliar evidências, lidar com a ambiguidade e formar seu próprio entendimento”, apontou à Fortune. “Precisamos ter muito cuidado para não usar a IA para eliminar o próprio pensamento crítico que os alunos precisam praticar para se tornarem alfabetizados.” Mais Lidas
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