As exportações de chips da Coreia do Sul saltaram 259,4% em outubro, para US$ 56,44 bilhões, e levaram o país ao maior crescimento de vendas externas em mais de cinco décadas. Os dados foram divulgados no começo de novembro pelo ministério do Comércio, Indústria e Recursos, comandado por Kim Jung-kwan.
O total embarcado no mês chegou a US$ 115,28 bilhões, alta de 93,7% sobre outubro de 2025. Quase metade desse valor saiu de fábricas de semicondutores.
Em reais, o total passa de R$ 630 bilhões em um único mês. O motor do resultado é a montagem de servidores para inteligência artificial.
As exportações de computadores cresceram 496,6% em outubro, puxadas pelas máquinas que rodam modelos de IA em centros de dados. Duas empresas concentram esses embarques.
A Samsung Electronics e a SK Hynix são as maiores fabricantes de memória do mundo e registraram lucros expressivos no período. O item mais disputado da cadeia é a memória de alta largura de banda, empilhada junto aos processadores que treinam os modelos.
A SK Hynix lidera esse fornecimento, e a Samsung amplia a produção para disputar o mesmo mercado. A memória é a parte menos visível do computador e a mais sujeita a falta.
Sem ela, o processador mais rápido do mundo não executa nada. A expansão alcançou todos os grandes compradores.
As vendas para a China avançaram 133,6% e as destinadas aos Estados Unidos cresceram 185,8%. Na Europa, a alta ficou em 56,4%, e no Sudeste Asiático chegou a 128%.
A procura por componentes coreanos aparece em todas as rotas do comércio de tecnologia. O resultado de outubro tem uma parte de calendário.
O mês teve mais dias úteis que outubro de 2025 por causa da diferença de datas do Chuseok, a festa da colheita que para o país. Mesmo assim, o número superou a projeção de economistas, que esperavam 93,2%.
Foi o maior avanço desde janeiro de 1974. O impulso dos chips alcançou o conjunto da economia.
O país cresceu acima do esperado no terceiro trimestre, sustentado pelas vendas externas e pelos investimentos no setor. A Coreia do Sul está a um passo de se tornar o quarto país a exportar US$ 1 trilhão em um ano, atrás de Estados Unidos, China e Alemanha.
O país tem pouco mais de 50 milhões de habitantes. A comparação com o Brasil mede a distância.
Com quase quatro vezes a população, o Brasil exporta em um ano cerca de um terço desse valor. Para o leitor brasileiro, a notícia chega na forma de conta em dólar.
O Brasil importa praticamente todos os chips que consome e não tem fábrica de memória avançada em escala comercial. Cada servidor de IA instalado em solo brasileiro carrega componentes que saem de fábricas coreanas.
Quando a demanda mundial aperta, o preço dessas peças sobe antes de chegar ao mercado brasileiro. No varejo, o efeito aparece com atraso, no preço de notebooks, celulares e serviços de nuvem.
O país tem projetos de design de circuitos e de componentes de nicho, mas nada parecido com uma fábrica de memória. Antes da febre da IA, os semicondutores já eram o item mais vendido do país ao exterior.
A novidade é o tamanho que o setor alcançou em um único mês. O mesmo dado que mostra força expõe a fragilidade.
Uma economia que depende de um produto só fica exposta ao humor do ciclo de investimentos em centros de dados. A indústria de memória já passou por isso.
Em 2023, o preço dos chips despencou e arrastou o lucro das duas empresas. Há também o limite político.
As fábricas que Samsung e SK Hynix mantêm na China operam sob licenças dos controles de exportação dos Estados Unidos, que decidem o que pode ser produzido e atualizado ali. O país não chegou a essa posição por acaso.
A indústria de semicondutores coreana nasceu de um projeto de Estado nos anos 1980, com crédito subsidiado e conglomerados escolhidos para disputar um mercado dominado por japoneses e americanos. A soberania industrial coreana é real na fabricação e parcial na cadeia.
A produção depende de equipamentos de litografia importados e de materiais japoneses que já foram alvo de restrição em disputas anteriores. A aposta para os próximos anos é o complexo de semicondutores de Yongin, ao sul de Seul, cuja conclusão foi acelerada para 2040 (meta original era 2047).
O projeto quer manter no país a etapa mais valiosa da cadeia, a fabricação de memória e de lógica avançada. Enquanto os centros de dados continuarem sendo construídos, o caixa da indústria coreana cresce.
Quando a onda virar, o país vai saber rápido, porque apostou quase tudo em um produto só.
Cafezinho