Das grandes capitais às pequenas cidades, a vitória de Lula foi celebrada como a reconquista da esperança. Depois de uma campanha marcada pelo medo, pela agressividade e pela intolerância, a democracia voltou a dançar nas ruas brasileiras.
Foi também a vitória de um projeto de país soberano e de inclusão social, que esteve sob séria ameaça. Durante os anos da ditadura militar, eu alimentava um sonho: no dia em que ela terminasse, o povo brasileiro sairia às ruas para dançar.
Imaginava uma festa como a que os franceses fazem, ainda hoje, a cada 14 de julho, comemorando a tomada da Bastilha, símbolo da Revolução Francesa e da derrubada do absolutismo. Em 25 de outubro, vivi novamente esse sonho.
Foi o nosso Dia da Tomada da Bastilha! O povo saiu às ruas para cantar, dançar, abraçar desconhecidos e celebrar a vitória de Lula. Não era apenas a comemoração de um resultado eleitoral.
Era a alegria de quem havia enfrentado o medo e descoberto, mais uma vez, a própria força. A alegria explodiu antes mesmo de a apuração terminar!
Bandeiras vermelhas, bandeiras do Brasil, cantos, buzinaços, danças e abraços. A festa começou quando a vitória se desenhou como irreversível.
Ninguém precisava esperar a última urna. A esperança já havia vencido.
Das grandes capitais às pequenas localidades, a imagem que simboliza essa noite é a de um país que reencontrou a vontade de festejar. Jovens e idosos, trabalhadores, estudantes, aposentados, mulheres e homens, brasileiros de diferentes origens e condições sociais, unidos por algo maior que suas diferenças.
Naturalmente, nem todos comemoraram. Entre os mais ricos, muitos preferiram o silêncio de suas casas.
Mas a festa que tomou conta das ruas tinha a marca da diversidade brasileira, da mistura de gerações e da alegria popular. A alegria venceu o rancor
O contraste com o que se viu durante a apuração não poderia ser mais expressivo. Quando Flávio Bolsonaro passou à frente no placar, houve manifestações de seus apoiadores marcadas por rojões, insultos e gritos ofensivos, inclusive obscenos, dirigidos a Lula e aos lulistas.
De um lado, a agressividade de quem parecia encontrar prazer na humilhação do adversário. De outro, a explosão de alegria de quem desejava celebrar uma vitória coletiva.
Não se trata de afirmar que todos os eleitores de um lado ou de outro se comportaram da mesma maneira. Mas o contraste entre aquelas manifestações é uma imagem poderosa do confronto político que o Brasil acaba de atravessar.
A resposta mais bonita ao ódio não foi outro grito de ódio. Foi a alegria!
Uma festa que lembrou 2002 — e talvez tenha sido ainda maior Quem viveu a eleição de Lula para seu primeiro mandato, em 2002, dificilmente esqueceu a emoção daquele momento.
Era a chegada de um operário à Presidência da República, depois de tantas derrotas, preconceitos e obstáculos. Agora, a emoção ganhou outro significado.
Em 2002, comemorávamos a chegada de uma esperança. Ontem, comemoramos sua sobrevivência e sua renovação diante de uma ameaça que parecia capaz de arrastar o país novamente para o autoritarismo.
Foi também a vitória de um projeto de país soberano, democrático e comprometido com a inclusão social. Um projeto que defende a independência nacional, a valorização do trabalho, a redução das desigualdades e o direito de todos os brasileiros a uma vida digna.
Tudo isso esteve sob séria ameaça nesta eleição. Talvez por isso a alegria tenha sido ainda maior.
Porque desta vez havia, misturados à felicidade, o alívio, a resistência e a consciência do perigo que havíamos enfrentado. A vitória também pertence à sociedade civil
Esta não foi apenas uma vitória de Lula, do PT ou dos partidos que o apoiaram. Foi uma vitória da sociedade civil brasileira!
No segundo turno, cidadãos e cidadãs assumiram a campanha como uma responsabilidade pessoal. Conversaram com familiares, procuraram amigos, organizaram grupos, circularam mensagens, enfrentaram mentiras e buscaram convencer quem ainda estava indeciso.
A mobilização ultrapassou as estruturas partidárias. A eleição deixou de ser apenas uma disputa entre candidatos para se transformar, para milhões de brasileiros, em uma escolha sobre o futuro da democracia.
Foi essa disposição de participar, de não se resignar e de lutar até o último voto que ajudou a construir a virada. A força dessa mobilização apareceu também nas urnas.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cerca de 128,2 milhões de brasileiros compareceram para votar, reduzindo a abstenção de 21,08% no primeiro turno para aproximadamente 19,2% no segundo. Foi uma demonstração expressiva de participação democrática.
E ontem, nas ruas, o povo comemorou também a descoberta de que sua participação faz diferença. A festa terminou.
A mobilização, não! Quando a vitória estava consolidada, enviei aos meus familiares e amigos uma mensagem que traduz o que sinto neste momento:
“Esta foi uma luta de todos nós e a vitória é nossa!!! Agora, teremos de nos manter mobilizados. Viva a democracia e a inclusão social!”
É exatamente isso. A eleição foi vencida, mas a democracia não se defende apenas nas urnas.
Ela precisa de participação, vigilância, organização e coragem cotidiana. A vitória não elimina as ameaças autoritárias, nem resolve, por si só, as desigualdades que ainda ferem o país.
Mas domingo foi dia de festa. E que festa!
Depois de tanta tensão, tantas ameaças, tantas ofensas e tanto medo, o Brasil merecia essa noite de alegria incontida. No domingo, o povo brasileiro tomou a sua Bastilha.
E saiu às ruas para dançar! Viva Lula! Viva a democracia! Viva a inclusão social!
Brasil 247