As condições de atendimento nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) brasileiras variam significativamente entre os serviços públicos e privados, segundo médicos que atuam nesses setores. De acordo com um levantamento nacional realizado com 2.338 médicos que atuam nestes serviços, a falta de medicamentos e leitos são os principais fatores para a distância entre UTIs públicas das privadas.
Doença no continente africano: Quênia anuncia segundo caso de ebola, mas afirma que não há contágio em grande escala Janones: veja os sintomas do problema cardíaco que causou a internação do deputado federal em SP No entanto, não são os únicos. A pesquisa identificou avaliações mais positivas para as unidades particulares, incluindo hospitais vinculados a planos de saúde, em 12 dos 13 aspectos analisados. As diferenças envolvem desde a disponibilidade de medicamentos e leitos até a formação das equipes e a organização dos processos assistenciais. Realizada pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), com apoio do Conselho Federal de Medicina (CFM), o Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica nas UTIs Brasileiras, ouviu 2.338 médicos. Os profissionais avaliaram, em uma escala de zero a cinco, aspectos considerados essenciais para o funcionamento das unidades como infraestrutura, disponibilidade de leitos e medicamentos, nível de especialização da equipe, fluxos de paciente, protocolos, entre outros.
Disparidades Uma das disparidades mais expressivas está na oferta de medicamentos. Apenas 22,7% dos médicos consideraram totalmente adequada a disponibilidade de medicamentos essenciais nas UTIs do Sistema Único de Saúde (SUS). Na rede privada, o índice foi de 57,7%. A percepção negativa também foi mais frequente no setor público: 16,1% dos entrevistados classificaram a oferta de medicamentos nas UTIs do SUS como inadequada ou totalmente inadequada, ante 3,8% dos que avaliaram os serviços privados. De acordo com a médica a intensivista e cardiologista Ludhmila Hajjar, professora titular de Emergências da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), a falta de medicamentos básicos pode estar relacionada também a problemas na organização dos serviços.
— Medicamento básico não pode faltar. Mas muitas vezes isso acontece porque faltam protocolos. Às vezes os gestores não sabem nem como adquirir e o que adquirir — diz. A disponibilidade de leitos segue a mesma tendência. Enquanto 24,1% dos médicos deram a nota máxima às UTIs públicas nesse quesito, a proporção chegou a 51,4% nas unidades privadas. Além disso, 32,6% dos profissionais atribuíram notas baixas — de zero a dois — à disponibilidade de leitos no SUS. Na rede privada, esse percentual foi de 7,7%. Para a médica, que é responsável tanto por uma UTI pública - a do Hospital das Clínicas da FMUSP - quanto uma privada - a do Hospital Vila Nova Star, em São Paulo - a discussão precisa ir além da quantidade de vagas disponíveis.
— Quando a gente fala leito qualificado, você tem que ter a condição mínima estrutural para atender bem o doente — afirma. Ela cita a disponibilidade de equipamentos, a adequação do espaço físico e o dimensionamento das equipes como fatores fundamentais para a segurança dos pacientes. A desigualdade também aparece na avaliação dos recursos humanos. A presença de equipes multiprofissionais especializadas recebeu nota máxima de 39,2% dos médicos que avaliaram os serviços privados, contra 23% dos que avaliaram as unidades públicas. No caso dos enfermeiros com formação específica em terapia intensiva, as avaliações máximas corresponderam a 25,1% no setor privado e 16,9% no público. Já as notas mais baixas foram atribuídas por 37,2% dos entrevistados às UTIs do SUS, ante 26,4% às unidades particulares ou vinculadas a planos de saúde. A intensivista ressalta que a quantidade de profissionais disponível para atender os pacientes é um dos pontos que mais diferenciam os serviços.
— Nas UTIs públicas, olhando o Brasil como um todo, a diferença no volume de recursos humanos é indiscutível, porque você tem muito mais volume de profissionais nas UTIs privadas. Tem muito mais equipamento e equipamento atualizado, mais adequação de fluxo, de volume de atendimento, de recursos humanos e de equipamento e logística — afirma. Hajjar também chama a atenção para a necessidade de respeitar as normas que estabelecem parâmetros mínimos para a composição das equipes de terapia intensiva. Segundo ela, parte das unidades públicas não atende às exigências relativas à proporção de leitos por médico intensivista, enfermeiro e técnico de enfermagem.
Tanto que o acesso a protocolos de atendimento e conduta clínica também apresentou diferenças substanciais na percepção dos médicos. A proporção de avaliações máximas foi de 23,1% na rede pública e de 40,2% na privada. Os protocolos orientam a atuação das equipes diante de diferentes situações clínicas e ajudam a padronizar decisões no cuidado de pacientes graves. Para Cristiano Franke, presidente da AMIB, as diferenças refletem a capacidade de resposta dos serviços diante das necessidades de pacientes críticos. Segundo ele, a qualidade da assistência depende não apenas da existência de leitos, mas também do acesso a medicamentos, da disponibilidade de profissionais qualificados e da adoção de protocolos bem estabelecidos. Organização do atendimento também é um desafio A pesquisa identificou disparidades nos processos de trabalho e na comunicação entre as equipes. O gerenciamento da transferência de pacientes entre diferentes setores do hospital recebeu nota máxima de 26,5% dos médicos que avaliaram a rede privada, mais que o dobro dos 11,1% registrados no setor público. A interconsulta — quando um profissional solicita a avaliação de outro especialista — também foi mais bem avaliada nas unidades privadas: 36,3% dos médicos atribuíram a nota máxima a esse aspecto, contra 15,4% nas públicas. Na interação entre equipes de diferentes áreas do hospital, a avaliação máxima foi registrada por 30,7% dos entrevistados no setor privado e por 14,5% no público. A passagem de plantão, etapa fundamental para transmitir informações sobre os pacientes e garantir a continuidade do cuidado, recebeu a nota máxima de 27,8% dos médicos que avaliaram as unidades privadas, ante 14,5% dos que avaliaram as públicas. A única dimensão em que as percepções dos profissionais foram semelhantes entre os dois setores foi a relacionada às tarefas administrativas e burocráticas. Para a AMIB, os resultados indicam que melhorar a assistência intensiva exige mais do que ampliar o número de leitos. A entidade defende investimentos na modernização das unidades públicas, na formação e composição das equipes, na integração entre profissionais e na digitalização de processos que consomem tempo de trabalho. Impacto sobre milhares de leitos Segundo estimativa da AMIB, o país conta com 43.901 leitos de UTI, dos quais 34.927 são destinados a adultos e 8.974 à assistência pediátrica e neonatal. A entidade pretende apresentar os resultados do levantamento a gestores públicos e privados e a autoridades responsáveis pela fiscalização e pelo controle dos serviços de saúde. O objetivo é subsidiar medidas para reduzir as diferenças identificadas e melhorar as condições de atendimento aos pacientes graves. Para Hajjar, os resultados dessa pesquisa "exprimem a realidade do Brasil". Ela também acredita que o estudo é fundamental para nortear as ações de saúde pública.
— Não basta abrir leitos. Fica-se muito nessa de "inauguramos o hospital, abrimos leitos", mas isso não é suficiente. Precisamos ter leitos qualificados, com RH adequado, com equipamentos, com protocolos, com auditorias, com qualidade, com comissão séria de controle de infecção hospitalar, com revisitação dos protocolos — afirma. A médica também defende que a organização da rede de saúde permita encaminhar os pacientes graves às UTIs com rapidez. Isso envolve melhorar a regulação dos serviços, identificar precocemente os casos que exigem cuidados intensivos e garantir assistência adequada durante o transporte. O desafio ganha relevância diante do envelhecimento da população e do aumento da demanda por cuidados de alta complexidade. Nesse cenário, a qualidade da assistência depende não apenas da disponibilidade de vagas, mas também das condições oferecidas para tratar pacientes com quadros clínicos graves. Embora o levantamento retrate apenas a percepção dos médicos sobre a qualidade dos serviços e não faça uma comparação direta de desfechos clínicos entre as redes pública e privada, um estudo anterior, realizado pela Unifesp, mostrou que a sobrevida de um paciente com sepse (infecção generalizada) atendimento em um hospital privado no Brasil é o dobro da de um paciente com o mesmo quadro atendido em um hospital público.
— E por que isso acontece? Porque falta gente, falta equipamento e tem um problema de fluxos e de treinamentos. Esse mesmo estudo mostrou que a mortalidade, de uma maneira geral, é maior em centros que têm menos capacitação, centros que os pacientes chegam mais tardiamente e centros que não têm estrutura — diz Hajjar.
O Globo