A primeira surpresa foi a esquerda perder a timidez diante das redes sociais. A segunda foi a aceitação imediata do “Exército do Lula”.
Em dois dias, foi de 50 mil para 1 milhão, e no dia do segundo turno eram 10 milhões. Obra do deputado federal André Janones (Rede-MG), com mais uma surpresa.
Ele não quer ser ministro: — Por que não desejo ser ministro? Porque não posso ter as amarras da liturgia de um cargo nem ficar preso a compromissos burocráticos!
Janones quebrou a escrita segundo a qual o uso das redes sociais era privilégio da direita. Ele e seu exército foram parar nas páginas de The New York Times, The Guardian e Le Monde.
Seu modelo de ativismo vem sendo replicado em vários países. Quando Janones botou seu canal no ar, em abril passado, fazia-se pouca fé nele, mas a iniciativa juntou-se a um despertar do movimento estudantil.
A garotada foi para a rua, ecoando os caras-pintadas que ajudaram a derrubar Fernando Collor de Mello. (Vale registrar que Collor cumpre em casa uma pena de oito anos e dez meses de prisão domiciliar por corrupção.)
Combativos, jovens e mobilizados, os soldados do “Exército do Lula” ecoaram a garotada de 1968. Com uma diferença: em 1968 não existiam celular nem internet.
A ação do “Exército do Lula” mobilizou os jovens. Desde o primeiro momento, reconheceu-se a importância do exército de Janones na virada de Lula.
Para surpresa geral, o deputado não quer ser ministro. Sinal dos tempos: ser ministro, que outrora foi o coroamento de uma carreira política, hoje, em muitos casos, é uma chatice.
A Secretaria de Comunicação Social serve para cevar caçadores de verbas publicitárias. Seu titular serve de para-raios.
A educação vai mal? A Secom está trabalhando mal, como se uma coisa tivesse a ver com a outra. Se ele não promove um ministro, trabalha mal.
Se promove, provoca ciúmes. Os militantes de causas sociais perdem musculatura ao virar ministros; veja-se o caso de Guilherme Boulos.
De militante de causas populares, passou a ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República. Ele trabalha, mas a burocracia afoga-o.
O senador Victorino Freire (1908-1977) dizia que só aceitava o Ministério do Exército, pois os demais eram enfeites. Janones ficará na Câmara e à frente de seu “Exército do Lula”, a esta altura com 11 milhões de seguidores.
É natural que esse número caia, mas numa emergência ele pode reaparecer. Indo aos primórdios, quando o PT ralava com patranhas como o kit gay, explorado à saciedade por Jair Bolsonaro.
A quantidade de mentiras usadas na eleição de 2018 talvez nunca venha a ser superada. O eleitorado ficou esperto, e iniciativas como o “Exército do Lula” inibem vigarices.
Janones tornou-se o símbolo da vitória de Lula 4.0. Ficaram para trás episódios nebulosos, como uma rachadinha com dois servidores.
O deputado reconheceu o malfeito, fez um acordo e devolveu R$ 157,8 mil. Sua carreira parlamentar foi bisonha.
Contudo ele mostrou que foi um inovador e que conhece o caminho das pedras.
O Globo