Ex-presidente da Ferrari detona carro 100% elétrico da marca: ‘Espero que retirem o cavalinho’

Ex-presidente da Ferrari detona carro 100% elétrico da marca: ‘Espero que retirem o cavalinho’

 

Fonte: Bandeira



Luca Cordero di Montezemolo, presidente da Ferrari entre 1991 e 2014, criticou duramente o primeiro carro 100% elétrico da história da marca. Batizado de Ferrari Luce, o modelo de quatro portas e cinco lugares marca uma nova etapa da fabricante italiana, mas provocou reação negativa entre fãs, analistas e críticos do setor automotivo.

— Se dissesse o que penso, prejudicaria a Ferrari. Há o risco de destruir um mito, e lamento profundamente. Espero que pelo menos retirem o “Cavallino Rampante” deste carro — afirmou Montezemolo a jornalistas, ao chegar a um evento em Roma.

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Questionado sobre a crescente concorrência da indústria automotiva chinesa, o ex-presidente da montadora respondeu com ironia:

— Este é certamente um automóvel que pelo menos os chineses não conseguirão copiar.

O Luce, que significa “luz” em italiano, foi desenvolvido em colaboração com a LoveFrom, agência fundada por Sir Jony Ive, ex-chefe de design da Apple. O veículo tem 1.000 cavalos de potência, acelera de 0 a 60 milhas por hora — cerca de 96 km/h — em 2,5 segundos e tem autonomia superior a 329 milhas, aproximadamente 529 quilômetros. O modelo conta ainda com quatro motores elétricos, um para cada roda.

A Ferrari afirmou que projetar o som do primeiro elétrico foi “um dos desafios mais complexos e inovadores” da história da marca. Para preservar a identidade emocional da fabricante, o carro usa um sistema que amplifica vibrações reais dos componentes elétricos, produzindo um som mecânico autêntico, em vez de simular artificialmente o ronco de um motor a combustão.

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Nas redes sociais, a reação ao design foi intensa. Usuários compararam o Luce a aspiradores de pó, carros amassados e até a um veículo mal desenhado por Homer Simpson. “A Ferrari acabou de matar sua marca, assim como a Jaguar fez. Isto vai direto para o lixo do ferro-velho”, dizia um comentário.

O modelo também recebeu críticas de especialistas. Para Matt Prior, editor do site britânico Autocar, o interior é bem executado, mas o veículo não “grita Ferrari”.

— A grande questão aqui é que não há um lugar óbvio onde o motor fica, porque não há motor; a bateria vai sob o assoalho, o que naturalmente torna o carro mais alto, e muitos fabricantes precisam lidar com como fazem isso — afirmou Prior.

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— Isso faz com que pareçam mais altos. Isso torna o visual menos elegante — acrescentou. — Para uma empresa cuja história inteira é baseada em fazer carros dinâmicos e elegantes, talvez seja mais difícil para a Ferrari contornar isso do que para outros fabricantes.

Pierre-Olivier Essig, chefe de pesquisa da AIR Capital, escreveu em nota a clientes que o Luce parece uma “mistura entre um Honda Accord EV e um Tesla 3”. “Estamos perdidos na tradução com a nova estratégia da Ferrari”, afirmou.

Nem todas as reações, porém, foram negativas. Um usuário classificou o lançamento como “uma aula magistral absoluta de design” e disse que a Ferrari apresentou “um conceito LUCE de tirar o fôlego” e “totalmente revolucionário”. Outro chamou o modelo de “diferente, mas deslumbrante”, enquanto um terceiro escreveu: “Eu adorei: é uma ruptura ousada para a Ferrari, mas é tão moderno e estiloso quanto qualquer EV de quatro portas e cinco lugares poderia ser.”

O CEO da Ferrari, Benedetto Vigna, defendeu o lançamento em Roma e disse que o projeto levou meia década para ser desenvolvido.

— Estamos convencidos de que uma empresa demonstra sua liderança quando tem coragem de ousar e enfrentar o desafio das novas tecnologias. Ferrari Luce nasceu precisamente deste desafio, oferecendo nossa visão inédita de eletrificação — afirmou.

O presidente da marca, John Elkann, também apresentou o novo modelo ao Papa Leão, na residência de verão do pontífice em Castel Gandolfo. “Este é o primeiro Ferrari de quatro portas?”, perguntou Leão. “O primeiro de cinco lugares”, respondeu Elkann.

— Não estamos simplesmente revelando um novo carro, estamos inaugurando um capítulo que transforma nossa visão em realidade, fortalecendo a tradição da Ferrari de antecipar e moldar o futuro — disse Elkann, em comunicado.

O lançamento ocorre em um momento de incerteza para o mercado global de veículos elétricos. Embora as vendas tenham atingido 20 milhões de unidades no ano passado, segundo a Agência Internacional de Energia, várias montadoras reduziram planos de eletrificação diante de baixa demanda, prejuízos bilionários e aumento da concorrência chinesa.

A própria Ferrari, que já vende modelos híbridos, reduziu sua meta para 2030: a previsão de que 40% da linha fosse totalmente elétrica caiu para 20%. Após a apresentação do Luce, as ações da montadora recuaram mais de 8% na Bolsa de Milão e mais de 5% em Nova York.