Ex-premier israelense acusa governo Netanyahu de conduzir

Ex-premier israelense acusa governo Netanyahu de conduzir 'campanha sistemática de limpeza étnica' na Cisjordânia ocupada

Fonte: Bandeira



Em meio à escalada de violência na Cisjordânia ocupada, o ex-primeiro-ministro de Israel Ehud Olmert acusou o governo israelense de conduzir uma "campanha sistemática de limpeza étnica e de crimes contra a Humanidade" contra palestinos no território, sendo conivente com a atuação de grupos de colonos responsáveis por ataques à população local. Em um artigo de opinião publicado nesta sexta-feira no jornal israelense Haaretz, o ex-premier defende que essas ações não podem mais ser tratadas como "isoladas" e perpetuadas por "extremistas", como costuma justificar o governo israelense.

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"O que está acontecendo hoje na Cisjordânia não é obra de '70 crianças... de lares desfeitos', como o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tentou afirmar, de forma desonesta", escreveu Olmert. "Tampouco são crimes cometidos por uma pequena minoria anômala entre os moradores dos assentamentos, como alguns líderes do movimento de colonos costumam alegar."

Segundo Olmert, a responsabilidade recai sobre o governo de Netanyahu, incluindo o ministro da Defesa Israel Katz e outros integrantes do Gabinete. Ele também cita nominalmente os ministros de extrema direita Itamar Ben-Gvir, da Segurança Nacional, e Bezalel Smotrich, de Finanças, argumentando que suas posições radicais favorecem o movimento de anexação total da Cisjordânia sem a permanência da população palestina.

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O ex-primeiro-ministro descreve um cenário marcado por ataques a aldeias palestinas, incêndios, destruição de propriedades e roubos de rebanhos. Olmert afirma ainda que os autores desses atos contam com proteção, apoio e financiamento de diferentes níveis do governo israelense.

"Nunca antes acusações tão graves foram feitas contra um governo israelense e todo o aparato de defesa, certamente não por alguém que outrora detinha a responsabilidade máxima pela segurança de Israel. Mas, após um longo e doloroso período de contenção, não há outra escolha senão dizer estas coisas de forma clara e completa", completa o ex-premier.

Embora reconheça que a ofensiva israelense após os ataques sem precedentes do movimento islamista palestino Hamas em 7 de outubro de 2023, que desencadearam a guerra em Gaza, foi marcada por extrema dureza e incluiu ações que "só podem ser descritas como crimes de guerra", ele rejeita as acusações de genocídio formuladas por parte da comunidade internacional.

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Para o ex-premier, houve, sim, graves falhas na condução da campanha militar e nas decisões tomadas sem consideração pelas consequências para a população civil no enclave palestino, mas ele considera que essas violações não decorreram de uma política deliberada de extermínio e que o governo israelense não buscou promover assassinatos em massa de forma sistemática — diferentemente do caso da Cisjordânia, ocupada por Israel desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967.

"Surgiram inúmeros casos em que soldados das Forças de Defesa de Israel (IDF), tanto recrutas quanto reservistas, estiveram envolvidos em agressões e ataques contra palestinos. O porta-voz das IDF costuma responder dizendo que tais incidentes não refletem os valores ou a política do Exército. Mas isso se tornou pouco mais que um ritual vazio. A realidade é que soldados em vários locais continuam a participar de ataques violentos e, por vezes, até mesmo letais contra residentes palestinos", escreveu.

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As críticas também abragem as instituições encarregadas da segurança e da aplicação da lei. Segundo Olmert, a polícia israelense frequentemente deixa de impedir os ataques e, em alguns casos, age de forma conivente com seus autores. Ele também aponta falhas das Forças Armadas e do serviço de inteligência interna, o Shin Bet, no combate ao que descreve como "terrorismo judaico".

Para o ex-primeiro-ministro, a continuidade dessas práticas pode provocar reações mais duras da comunidade internacional, incluindo investigações e medidas por parte do Tribunal Penal Internacional (TPI), defendendo que o país precisa abandonar a complacência diante da violência praticada por seus próprios cidadãos e "enfrentar os inimigos internos".

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"A resposta instintiva dos terroristas judeus e seus apoiadores – e, às vezes, de muitos israelenses decentes e bem-intencionados – é descartar críticas, hostilidade contra israelenses no exterior ou ações contra instituições israelenses e judaicas como antissemitismo", conclui Olmert. "O antissemitismo, sem dúvida, existe e se intensificou nos últimos anos. Tem sido uma constante na história judaica. Mas não deve ser confundido com a condenação das ações do governo israelense ou com a oposição a políticas e ações realizadas em nome de Israel."

Pressão sobre os assentamentos

Vários países ocidentais, incluindo Reino Unido e França anunciaram recentemente novas sanções contra colonos e organizações israelenses ligados à violência e à expansão ilegal dos assentamentos na Cisjordânia ocupada, medidas classificadas como "vergonhosas" por Israel. Esses países pedem a Israel que aja "rapidamente" para garantir que "os autores da violência na Cisjordânia prestem realmente contas" e não descartam "novas medidas".

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O governo israelense, por sua vez, denunciou imediatamente "medidas vergonhosas", tomadas em uma "tentativa de impor uma posição política sobre o direito dos judeus de se instalar na terra de Israel e sobre o conflito israelense-palestino", reagiu o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Oren Marmorstein.

Sem contar Jerusalém Oriental, ocupada e anexada por Israel, mais de 500 mil israelenses vivem atualmente em assentamentos na Cisjordânia considerados ilegais pela ONU, em meio a uma população de cerca de três milhões de palestinos.

Segundo dados da Nações Unidas, a violência dos colonos israelenses na Cisjordânia vive um ritmo "recorde", com uma média de seis ataques diários.