Sob ameaça de nova crise, Cantareira terá mais peso em decisões sobre restrição de consumo de água em SP

Sob ameaça de nova crise, Cantareira terá mais peso em decisões sobre restrição de consumo de água em SP

Fonte: Bandeira



O governo de São Paulo anunciou nesta sexta-feira (19) que vai mudar os critérios de cálculo para gerir os mananciais de água que abastecem a região metropolitana da capital paulista. As represas do Sistema Cantareira, que estão agora com menos de 40% da capacidade, serão geridas separadamente e terão mais peso na decisão sobre medidas de restrição.

O anúncio acontece em um momento em que o abastecimento hídrico da cidade enfrenta um momento preocupante. O Cantareira principal manancial de abastecimento da Grande São Paulo, iniciou a estação seca de 2026 com o menor volume dos últimos dez anos.

Descompasso: Cantareira entra no período de seca com pior nível em 10 anos, enquanto Sabesp aumenta captação

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), porém, aumentou a captação de água nos últimos anos. Quando o Cantareira operava com volume semelhante ao atual (44%), em 2022, a empresa retirava 21,4 m³/s do sistema. Em abril de 2026, com o reservatório ainda mais baixo (42,5%), a média de captação saltou para 25,6 m³/s, alta de cerca de 20%.

Míriam Leitão: Com risco de El Niño intenso, governo se prepara para o pior, com plano mais articulado e eficiente para combater o fogo

O Sistema Integrado Municipal de represas, que inclui também as represas de Guarapiranga e Alto Tietê, está em melhor situação, mas média total de preenchimento dos reservatórios está em 50,8%.

Uma preocupação adicional neste ano é que está prevista a chegada com força do fenômeno El Niño, o superaquecimento das águas tropicais do Pacífico, que agrava eventos extremos de seca no Sudeste da América do Sul.

Centros de pesquisa globais, incluindo a NOAA (EUA) e o Copernicus (União Europeia) já dão como certo que o fenômeno se iniciou e sinalizam uma probabilidade entre 70% e 80% de um El Niño entre forte e extra-forte, que pode significar um desafio a mais para o abastecimento de água em São Paulo.

O nível de pico do Cantareira neste ano foi o pior desde 2016, quando o a cidade teve a pior crise hídrica de sua história. Já em nível descendente após atingir 43,9% de volume útil, o sistema entra em um nível preocupante no inverno, estação seca da região, que começa no domingo (21).

Segundo Camila Viana, diretora presidente da Agência de Águas do Estado de São Paulo, a decisão de separar a gestão do Cantareira se dá porque o sistema tem apresentado mais pressão meteorológica do que o Guarapiranga e outros manaciais. Neste ano, as chuvas foram apenas de 62% da média hidrológica na área.

Segundo Natália Resende, secretária de Meio Ambiente e Infraestrutura do estado, a mudança nos critérios de gestão foram decididas por um comitê reunindo vários entes de gestão setor após um período de consulta pública.

A razão para mudança da metodologia de gestão está ligada às mudanças climáticas globais e, neste ano ao El Niño, ela afirma. Apesar do nível relativamente baixo dos reservatórios até agora, a secretária afirma que os critérios anteriores foram capazes de gerir com sucesso os mananciais de São Paulo e que e situação de escassez é "crônica" na região.

— A nossa metodologia foi bastante eficiente, nos ajudou muito pra gente ter essa prevenção, essa contingência, essa previsibilidade, focando muito em não chegar em criticidades — disse Resende. — Por isso que a gente está fazendo sempre esse aperfeiçoamento.

Um outro ajuste que será feito na metodologia é a consideração da média da série hidrológica dos últimos 15 anos, para capturar uma realidade de secas periódicas já num período mais impactado pelas mudanças climáticas associada a El Niños.

O governo não anunciou, ainda, uma mudança na faixa de restrição com que o sistema opera agora. Pelos critérios atuais, a Sabesp opera a rede de distribuição de água com pressão reduzida durante 10 horas por dias. Pelos novos critérios, a intensidade desta medida e o volume de captação outorgado para a empresa nas represas podem mudar a cada fim de mês, depois da reunião de um comitê técnico. O anúncio pode ser antecipado caso haja "eventos que fujam da normalidade", diz Resende.

A despressurização da chamada gestão de demanda noturna (GDN) rede afeta mais os bairros da cidade que ficam em regiões mais altas e mais distantes do centro, sobretudo em imóveis sem caixa d'água. O governo diz que a Sabesp está buscando mitigar o problema com um programa de instalação de caixas d'água para as populações que necessitam mais.

— A GDN é uma medida eficiente, e nós tivemos 157 bilhões de litros de economia de água por conta dela desde que a gente começou a fazer isso em 13 de agosto do ano passado, começando com implementação 8 horas por dia — diz Resende.


O aumento da captação de água nas represas, segundo a secretária, está sob controle, porque está dentro dos limites outorgados. Em 2023, os mananciais estavam em nível mais confortável e estavam sendo retirados entre 21 m³/s e 22 m³/s de água. Hoje a Sabesp está retirando cerca de 4 m³/s a mais.

Mesmo com a mudança de critérios para gestão dos mananciais, o sistema permanece agora na chamada faixa de restrição de nível 3. O grau de alerta aumenta ou diminui conforme a situação de momento de volume útil das represas está abaixo ou acima da curva prevista a partir da média para a época do ano.

Com o Cantareira a 40% da capacidade e o sistema inteiro a 50%, a despressurização noturna segue pelo período de 10 horas diárias. Caso a situação se agrave, a medida pode ser apliada até 16 horas diárias, o que seria a faixa de restrição 7, uma situação extrema que já teria indicação de um rodízio formal.