Ex-bailarino do Royal Ballet de Londres cria companhia que mescla clássicos com dança de rua e abre portas para talentos periféricos
Foi fora do Brasil que a carreira do bailarino, diretor e coreógrafo Thiago Soares, uma das maiores referências da dança mundial, deu saltos mais altos. Agora, no Rio, onde tudo começou, ele celebra uma nova etapa de sua trajetória bem-sucedida: com dançarinos de diferentes regiões da cidade, sua recém-criada companhia de dança assume o DNA carioca. Seu mais novo espetáculo, “Carmen”, que teve ingressos esgotados nas duas apresentações que fez no Teatro Carlos Gomes, no Centro, em março, é embalado por referências do funk e da cultura de bailes charme, como o do Viaduto de Madureira, na Zona Norte.
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Adaptação de um clássico francês de George Bizet, que conta a história de uma paixão trágica entre a protagonista, que não abre mão de sua liberdade, e um militar, a obra apresentada pela Companhia Thiago Soares também passou por Petrópolis e São Paulo e tem projeto para voltar aos palcos do Rio. Na semana passada, o GLOBO acompanhou um dia de ensaio e pôde observar movimentos que lembram os do passinho.
— É uma companhia que tem a base do balé clássico e exige essa formação dos integrantes, porém nos desafiamos a fazer outras formas de dança a partir dessas fusões. Não tem como uma companhia do Rio não dialogar com a nossa riqueza urbana. Eu queria incluir a brasilidade na nossa produção. Então, temos influências ainda de danças folclóricas e religiosas. Acredito que o erudito clássico só faz sentido hoje se interagir com o asfalto, senão se distancia muito da sociedade — explica o bailarino.
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Da periferia para Londres
Antes dessa nova imersão na cultura carioca, as pontas dos pés de Thiago Soares deslizaram pelos mais importantes palcos mundo afora. Ele ocupou o posto máximo de primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres, uma das companhias mais renomadas do mundo, por 13 anos. Antes, integrou o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio e foi o primeiro brasileiro a conquistar medalha de ouro no Concurso Internacional de Balé Bolshoi, na Rússia. Mais recentemente, foi diretor artístico do Ballet de Monterrey, no México.
Nascido em São Gonçalo e criado em Vila Isabel, ele iniciou seu mergulho na dança através do hip-hop, mas migrou para o balé clássico aos 15 anos. E foi aprimorando sua técnica após ganhar bolsas de estudo.
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— Nós temos muitas escolas de dança e não temos companhias profissionais suficientes. Você forma muitas pessoas, mas elas vão para onde? Então, cria-se esse estigma de que, quando você é bom, tem que ir embora do seu país. Ir pelo mundo afora é uma experiência válida, muitas pessoas querem viver esse sonho, eu tive esse privilégio, mas isso não deve ser obrigatório. Cidades potentes como o Rio de Janeiro deveriam ter mais opções de companhias e investimentos nesse sentido. Nós temos artistas maravilhosos — defende o coreógrafo.
Hoje, Thiago abre portas para pessoas que enfrentam desafios parecidos com os seus no início da carreira. Guilherme Saab, de 20 anos, mora no bairro Boaçu, em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio, e, graças à companhia, tem conseguido viver da dança. Ele entrou para o balé aos 16, como bolsista num projeto social onde vive.
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A apresentação de “Carmen”: obra de Bizet com toques do funk e do baile charme
Marcia Foletto
— Eu tenho que sair de casa às 6h30 para chegar à companhia, na Barra, às 10h. A distância é muito cansativa. Antes e após a rotina de trabalho, sempre tenho que enfrentar trânsito. Às vezes, penso assim: “Por que eu estou fazendo esse esforço todo?”. Mas acredito que serei recompensado de alguma forma. Quero absorver todo o conhecimento que o Thiago tem a oferecer — afirma o jovem.
O grupo, que ainda não tem patrocínio e funciona com ajuda de apoiadores, conta com 11 bailarinos, sendo quatro homens e sete mulheres. Eles recebem um salário fixo por mês. A rotina diária, das 10h às 15h, inclui aula de balé clássico e ensaios dos espetáculos que estão em cartaz ou sendo montados. Os artistas contam ainda com preparação física, por meio de sessões de pilates.
Cria da Pavuna e atual moradora da Vila da Penha, Maria Rianelli, de 18 anos, sonha alto. Deseja usar a experiência com Thiago Soares como trampolim para conquistar o mundo.
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— Eu sou completamente apaixonada por Nova York. Acho que é um lugar que te tira da zona de conforto, porque é muita mistura, muita informação e pessoas de diferentes lugares — diz. — Trabalhando aqui e estando em contato com pessoas totalmente diferentes umas das outras, eu estou chegando cada vez mais perto da bailarina que eu, desde os 2 anos de idade, sonho ser um dia. Quero estar em palcos incríveis.
Gabriela Mendes, de 23 anos e moradora de Del Castilho, tem licenciatura em dança e diz que a oportunidade na Cia Thiago Soares foi providencial.
— Foi uma virada de chave gigantesca, porque foi justamente num momento em que eu estava muito afastada dos palcos por questão financeira. Eu estava me voltando muito mais para dar aulas. E esse desafio me fez reencontrar a bailarina que estava adormecida há um tempo — conta. — Como carioca, acho sensacional ter uma pessoa que mescle tão bem o clássico com danças de rua. O ambiente fica muito divertido.
Peneira
A audição para a companhia, em janeiro, atraiu 70 candidatos de todo o país. Por isso, a origem do elenco formado vai além de cariocas e fluminenses. Após ser selecionada, Deborah Simonian, de 27 anos, mudou-se da capital paulista para a Barra da Tijuca. Chegou com a bagagem de algumas experiências internacionais.
— Comecei numa escola perto de casa e, na adolescência, fiquei um ano dançando em Houston, nos Estados Unidos. Depois, voltei para terminar o ensino médio e fui para uma escola muito tradicional de São Paulo. Por essa instituição, participei de concursos, como o Bolshoi, de Moscou, e outro em Varna, na Bulgária. Aprendi muito porque, nesses lugares, você convive com referências mundiais — destaca Deborah, que também é nutricionista. — Estou muito feliz, por conta da independência que a dança tem me proporcionado e porque sempre quis morar no Rio.
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