Euforia toma conta da bolsa, mas mercado ainda não precifica eleição 50/50 - QTU Questões do Universo

Euforia toma conta da bolsa, mas mercado ainda não precifica eleição 50/50

Fonte: Bandeira da fonte

Embora o Ibovespa passe por uma forte reprecificação recente — como mostra a disparada das ações brasileiras nesta quarta-feira —, na esteira de pesquisas eleitorais apontarem uma disputa presidencial mais apertada, os preços atuais ainda não refletem que o mercado precifica um cenário “50/50”, em que há 50% de chance de reeleição do presidente Luiz Inácio lula da Silva (PT) e 50% de possibilidade de vitória do senador Flávio Bolsonaro.

Na euforia após a pesquisa Quaest apontar Lula com 42% e Flávio com 41% em um eventual segundo turno entre os dois, o Ibovespa subia 3,23%, aos 185.531 pontos por volta de 12h30.
Pouco tempo antes, chegou a ultrapassar os 186 mil pontos na máxima da sessão.

A avaliação é defendida por João Luiz Braga, sócio da Encore Asset Management.
“Acho que ainda não precifica o cenário 50/50.
Difícil dizer o que poderia indicar essa precificação, mas as ações domésticas ainda estão longe de um patamar razoável”, observa Braga.
“Acho teria mais espaço de ‘upside’ [valorização] na bolsa, mais fechamento da taxa dos [títulos] prefixados.
O mercado teria de melhorar mais.”

Na avaliação do gestor, uma das explicações é o fato de as ações cíclicas domésticas ainda não terem começado a se recuperar de verdade.
“Estão devolvendo o que caíram com a venda de estrangeiros.”

O gestor explica que a queda expressiva do Ibovespa durante a primeira parte de agosto não foi impulsionada por uma piora nos fundamentos, mas sim pela saída de investidores estrangeiros.
Até 20 de agosto, os alocadores não residentes somaram 13 sessões seguidas de saídas de capital de ações já listadas na B3; apenas no dia 21 de agosto que a situação começou a mudar e a categoria voltou a aportar.

“Um gringo grande vendeu Brasil e arrastou fundos quantitativos e levou a um ‘stop’ de venda no mercado local, o que fez a bolsa chegar no ‘low’ [no pior momento] semanas atrás.
O mercado precificava uma chance gigantesca de a situação continuar [de o Lula ganhar] e eu não concordava.
Achava que a probabilidade não era 65/35 ou 70/30, mas sim 50/50, ou até menos.”

Ações para se posicionar

Embora parte relevante do mercado enxergue diferenças no grau de comprometimento de Lula e Flávio Bolsonaro com as contas públicas, a equipe do Citi liderada por André Mazini avalia que a necessidade de ajuste fiscal será a mesma independentemente de quem vencer as eleições.
O que muda, segundo o banco, é principalmente a forma como cada governo deve conduzir esse processo, o que leva a estratégias distintas para a bolsa brasileira.

Em um cenário de reeleição de Lula, o Citi prefere ações de empresas mais resilientes, com balanços sólidos e poder de repasse de preços, além de nomes expostos a programas do governo, como o Minha Casa, Minha Vida.

Entre as principais escolhas estão Cury, Embraer, WEG, Axia, Copel, RD Saúde, Ultrapar, Gerdau, BTG Pactual e Caixa Seguridade.

Já em caso de vitória de Flávio Bolsonaro, a preferência dos estrategistas do banco é por ações de maior “duration”, empresas mais cíclicas e, de forma seletiva, companhias mais alavancadas, diante da expectativa de juros de longo prazo mais baixos.
Nesse caso, o banco destaca Cyrela, Multiplan, Sabesp, Assaí, C&A, Hapvida, Petrobras, Vale, XP e B3.

Para o Citi, Lula deve manter o atual arcabouço fiscal, mas com a possibilidade de regras mais rígidas.
Entre as medidas avaliadas está a redução do limite para o crescimento real das despesas primárias, de 2,5% para 1,5% ao ano, além de iniciativas pelo lado da arrecadação.

Em um eventual governo Flávio, por outro lado, a expectativa é de uma reformulação das atuais regras fiscais, com maior ênfase no corte de despesas no curto prazo.
O programa do candidato prevê medidas como reforma administrativa, redução do número de ministérios, de cargos comissionados e de gastos administrativos.

Caso essa estratégia avance, diz o banco, o ajuste fiscal pode ser mais ambicioso do que o considerado em seu cenário base.
João Luiz Braga, sócio da Encore Asset Management
Edilson Dantas/Agência O Globo