EUA e Irã se reúnem hoje, após Trump acusar Teerã de desenvolver míssil que pode atingir país. Acusação faz sentido?

 

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Às vésperas da decisiva reunião marcada para esta quinta-feira em Genebra para discutir os termos de um acordo nuclear com o Irã, o presidente dos EUA, Donald Trump, ofereceu um único elemento novo para explicar a atual escalada de tensões com Teerã. Em seu discurso sobre o Estado da União, diante do Congresso dos EUA, o republicano afirmou que o regime iraniano estaria perto de desenvolver um míssil capaz de atingir o território americano — o que representaria o tipo de ameaça direta que já fundamentou ações militares preventivas em outros momentos da História americana.

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O comentário de Trump ocorreu mais de uma hora e meia após o início do discurso. Após afirmar que não deixaria de confrontar ameaças ao país em qualquer lugar do mundo, o presidente repetiu algumas das críticas costumeiras sobre o Irã, incluindo que o regime dos aiatolás espalhou "terrorismo, morte e ódio" desde a queda do xá, em 1979, condenou a repressão aos atos antigoverno iniciados em dezembro e citou os bombardeios americanos ao programa nuclear iraniano em junho do ano passado. Só então passou para o que considera a ameaça atual.

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— Eles [o Irã] já desenvolveram mísseis capazes de ameaçar a Europa e nossas bases no exterior, e estão trabalhando para construir mísseis que alcançarão em breve os EUA. Após a Operação Martelo da Meia-Noite, eles foram advertidos a não fazerem mais nenhuma tentativa de reconstruir o programa de armas, em particular armas nucleares, mas continuam. Eles estão recomeçando — afirmou.

Embora não tenha se preocupado em apresentar qualquer base para suas alegações, Trump incluiu no cerne da disputa entre os países o programa de mísseis iraniano, que é um pilar central na estratégia de poder e dissuasão projetada pelos aiatolás desde o fim da Guerra Irã x Iraque em 1988.

O desenvolvimento da tecnologia bélica nacional alcançou um nível de sofisticação surpreendente, sobretudo em um país que há décadas atravessa dificuldades econômicas e embargos internacionais. A capacidade exata dos projéteis não é de todo conhecida — centros de estudo dedicados a acompanhar o programa iraniano divergem muitas vezes sobre quais modelos estão em operação ou ainda estão em fase de desenvolvimento, incluindo no alcance efetivo de cada um —, mas, em demonstrações recentes, as forças iranianas se mostraram capazes de atingir alvos com precisão no Oriente Médio, além de aplicar táticas como os "enxames de drones", que se popularizaram na guerra na Ucrânia.

Evidências recentes e informações de inteligência apontam que a reconstrução do programa de mísseis após os ataques dos EUA no ano passado foi uma prioridade para o governo iraniano, superando inclusive a atenção dada a instalações nucleares. Uma análise realizada pelo New York Times no começo do mês, com base em imagens de satélite, constatou que mais de dez locais do programa atingidos por Israel ou Washington passaram por obras, incluindo locais de produção de mísseis. Um dos locais reconstruídos foi a instalação de testes de mísseis de Shahroud, considerada por estudiosos a maior e mais nova fábrica de produção de mísseis de propelente sólido do Irã.

Arsenal de mísseis do Irã

Arte/O GLOBO

Entre a retórica e o alcance

O regime iraniano reagiu às declarações de Trump na manhã de quarta-feira, afirmando que o líder dos EUA reproduzia "grandes mentiras" sobre o programa nuclear, de mísseis e a repressão do governo aos protestos no país. Não houve comentário específico da autoridade iraniana sobre o míssil com alcance para atingir o território americano — que, para tal, provavelmente se trataria de um míssil balístico intercontinental.

Fontes ocidentais afirmam que o Irã já conta com plataformas de lançamento capazes de transportar uma ogiva nuclear — embora reconheçam que o país ainda não possua uma arma atômica. Entre os diferentes tipos de projétil que teriam alcance para além da região, segundo fontes como o Missile Defense Project, do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, e o Iran Watch, um monitor americano das capacidades bélicas iranianas do Wisconsin Project on Nuclear Arms Control, estariam o Sejjil, supostamente capaz de atingir um alvo a 2 mil km de distância, suficiente para ameaçar Israel, Arábia Saudita e mesmo o sul da Europa, e o Soumar, um míssil de cruzeiro de lançamento do solo, desenvolvido a partir do míssil russo Kh-55, com alcance até 3 mil Km.

Mesmo com o poder de fogo estimado pelos relatórios, o caminho para um míssil intercontinental que chegue aos EUA não parece ter sido percorrido. Publicações asiáticas, citando as agências iranianas Fars e Tasnim, noticiaram que o Irã teria realizado seu primeiro teste de um míssil do tipo nos últimos dias. O portal indiano Wion News chegou a mencionar que o projeto objetiva alcançar um modelo com alcance final de 10 mil km — o que chegaria à Costa Leste dos EUA. Não há informações sobre o quão próximo o modelo estaria de ser concluído — ou mesmo o nome do protótipo, embora autoridades da política iraniana tenham sido citadas comentando sobre o pretenso teste.

Alcance do poder de fogo do Irã

Arte/ O GLOBO

Expectativas para Genebra

A menção de Trump ao programa de mísseis iraniano também parece cumprir parte de uma estratégia mais ampla de pressão total de Washington antes do encontro desta quinta. O presidente, que já havia dito na sexta-feira que estava avaliando um possível ataque direto ao Irã caso as negociações não progredissem, autorizou novas sanções por meio do Departamento do Tesouro dos EUA a mais de 30 indivíduos, entidades e embarcações ligadas ao que classificam como "venda ilícita de petróleo iraniano" e a produção de armas no país.

"O Irã explora o sistema financeiro para vender petróleo ilícito, lavar dinheiro, adquirir componentes para seus programas de armas nucleares e convencionais e apoiar seus grupos terroristas", afirmou o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, em um comunicado.

Fontes americanas também declararam a veículos de comunicação nos últimos dias que o genro de Trump, Jared Kushner, e o enviado especial Steve Witkoff fariam uma avaliação decisiva sobre o real interesse do Irã em colaborar por meio de negociações com os objetivos americanos. Uma impressão negativa levaria a autorização de um ataque, especularam as fontes.

Teerã tentou reagir com normalidade e contundência às últimas ameaças. Autoridades prometeram uma reação "feroz" em caso de ataque direto dos EUA, ao mesmo tempo em que expressaram otimismo com um possível desfecho para o acordo. Em declarações nesta quinta-feira, o presidente Masoud Pezeshkian disse que há uma "perspectiva favorável" para as negociações — retomando a mensagem do chanceler Abbas Araghchi, que lidera a delegação do país nesta quinta, que apontou para a rodada como uma "oportunidade histórica". (Com AFP e NYT)