EUA classificam captura de Maduro como operação de aplicação policial após críticas no Conselho de Segurança da ONU

 

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Os Estados Unidos classificaram a operação que resultou na captura do líder chavista, Nicolás Maduro, como uma operação policial "com apoio militar" nesta segunda-feira, após serem alvo de críticas por parte de diversos países durante uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, convocada a pedido da Venezuela. O caso provocou uma série de questionamentos sobre a legalidade da ação americana à luz do direito internacional, e acendeu um sinal de alerta em países adversários e aliados de Washington, que se mantêm atentos sobre uma eventual validação à violação de soberania.

— Os EUA realizaram com sucesso uma operação policial cirúrgica, com apoio de militares, contra dois fugitivos procurados pela justiça americana: o narcoterrorista Nicolás Maduro e Cilia Flores — afirmou o representante americano no Conselho de Segurança, repetindo falas do secretário de Estado Marco Rubio, de que não há uma guerra contra a Venezuela ou os venezuelanos. — Os EUA prenderam um narcotraficante que agora será julgado nos EUA, seguindo o devido processo legal.

A manifestação da delegação americana, na primeira reunião do principal órgão de segurança da ONU em 2026, aconteceu após uma série de países se pronunciarem criticamente com relação à operação americana, incluindo Rússia e China. A operação foi classificada por Pequim e Moscou como uma "agressão armada" contra Caracas.

— A China está profundamente chocada e condena fortemente os atos unilaterais, ilegais e ameaçadores dos EUA — disse o porta-voz chinês no conselho, acrescentando posteriormente: — Nenhum país pode agir como a polícia do mundo ou presumir ser a justiça internacional.

Embora as reações à prisão de Maduro tenham sido variadas, boa parte da comunidade internacional manifestou preocupação com possíveis violações da Carta da ONU. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, expressou preocupação em uma declaração lida ao início da sessão pela subsecretária-geral da ONU para Assuntos Políticos e de Consolidação da Paz, Rosemary DiCarlo, em que cobrou respeito pela independência política dos Estados, e pelos princípios que regem as relações internacionais.

— Em situações tão confusas e complexas como a que enfrentamos agora, é importante mantermos a fidelidade aos princípios: respeitar a Carta da ONU e todos os outros marcos legais aplicáveis ​​para salvaguardar a paz e a segurança — pontuou a mensagem de Guterres. — Respeito aos princípios da soberania, da independência política e da integridade territorial dos Estados. A proibição da ameaça ou do uso da força. O poder da lei deve prevalecer. O direito internacional contém instrumentos para abordar questões como o tráfico ilícito de narcóticos, as disputas por recursos e as preocupações com os direitos humanos. Este é o caminho que devemos seguir".

O encontro das representações diplomáticas na sede do Conselho de Segurança ocorre a poucos metros do tribunal federal de Nova York onde Maduro será apresentado a um juiz federal ainda nesta segunda-feira. O presidente venezuelano e sua esposa serão apresentados às denúncias e deverão se declarar culpados ou inocentes das acusações. Espera-se que o juiz do caso decrete que os dois aguardem o julgamento na prisão. A presença dos venezuelanos na cidade americana foi abordado pela Rússia, que exigiu a libertação de ambos.

Maduro chega de helicóptero para a primeira audiência em tribunal de Nova York

— Em relação aos relatos confirmados sobre a presença do presidente sequestrado da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa nos EUA... Hoje, como sabemos, eles estão em Nova York... Apelamos à liderança dos EUA para que liberte imediatamente o presidente legitimamente eleito de um Estado independente e sua esposa — afirmou o representante diplomático russo, Vasily Nebenzya.

Moscou também endereçou críticas contundentes às ações de Washington e à aplicação de regras internacionais, afirmando que os organismos multilaterais teriam um padrão duplo ao encarar as situações fáticas.

— Hoje, enfrentamos as consequências da irresponsabilidade e da seletividade da aplicação das leis de direito internacional que se vinculavam com o chamado Ordem Mundial baseada em normas. Aqui está sua Ordem Mundial, em todo seu esplendor — disse.

Embora não seja membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o Brasil pretende pedir para se pronunciar. Segundo interlocutores a par do assunto ouvidos pelo GLOBO, a ideia é reforçar a posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que condenou publicamente a ofensiva dos EUA. A participação brasileira, será feita por meio do embaixador brasileiro na ONU, Sergio Danese.

Maduro governou a Venezuela com mão de ferro por mais de uma década, por meio de uma série de eleições consideradas fraudulentas. Ele chegou ao poder em 2013, após a morte de seu mentor Hugo Chávez, e passou a liderava com um pequeno grupo de cinco pessoas o chavismo: a esposa, Cilia, a agora presidente interina Delcy Rodríguez, seu irmão Jorge Rodríguez e Diosdado Cabello.

— É como um clube de cinco — disse uma fonte diplomática em Caracas à AFP. — Eles podem falar, têm voz [no governo, mas] Maduro era quem garantia o equilíbrio. Agora que ele se foi, quem sabe. (Com AFP)