Estudo mapeia conexão entre onças em 11 países diferentes

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Onça-pintada é o maior felino das Américas; animal matou égua e atacou homem na zona rural de Porto VelhoReprodução Wikimedia Commons/Lea Maimone - Own work Um estudo elaborado por pesquisadores do Instituto Mamirauá e da Universidade de Oxford identificou uma extensa rede de áreas conectadas que permite o deslocamento de onças-pintadas por diferentes regiões da América do Sul.Com aproximadamente 6,5 milhões de quilômetros quadrados, a área funciona como uma espécie de “espinha dorsal” para a conservação do maior felino das Américas.

O estudo também aponta que o desmatamento, as estradas e a expansão das atividades humanas ameaçam a conexão entre populações da espécie.Liderado pelo pesquisador brasileiro Guilherme Costa Alvarenga, o trabalho foi publicado na revista científica Global Change Biology e reuniu dados de 172 onças-pintadas monitoradas por colares de GPS em diferentes países.

Ao todo, foram analisados 231.017 registros de localização, utilizados para mapear os caminhos que favorecem ou dificultam a movimentação dos animais.A pesquisa identificou 307 áreas consideradas centrais para a movimentação da espécie, que somam aproximadamente 7,75 milhões de quilômetros quadrados, além de 176 corredores de dispersão.

Essas áreas e passagens são importantes para permitir que os animais encontrem alimento, estabeleçam territórios e encontrem parceiros para a reprodução.Conexão entre populações é essencial para a sobrevivênciaA conectividade entre as populações de onças-pintadas é fundamental para a manutenção da diversidade genética da espécie.

Quando os animais conseguem circular entre diferentes áreas e se reproduzir com indivíduos de outros grupos, ocorre o chamado fluxo gênico, processo que contribui para reduzir os riscos associados ao isolamento populacional.Por outro lado, a fragmentação dos habitats pode limitar esses deslocamentos.

Estradas, cidades, áreas agrícolas e outras intervenções humanas dificultam a passagem dos felinos, deixando grupos cada vez mais isolados.Segundo Guilherme Alvarenga, a redução e a fragmentação dos ambientes naturais também diminuem o número de indivíduos que conseguem sobreviver em determinada região.

Sem a possibilidade de encontrar animais de outras populações, os cruzamentos entre indivíduos aparentados tornam-se mais frequentes, o que pode reduzir a capacidade de adaptação e favorecer doenças de origem genética.Esse processo já foi identificado em populações da Mata Atlântica e da América Central, regiões nas quais os modelos utilizados no estudo apontaram baixa conectividade.América do Sul concentra a principal rede de conexãoA maior rede identificada pelos pesquisadores se estende por diferentes ecossistemas sul-americanos, incluindo os Llanos, a Amazônia, o Gran Chaco, o Pantanal, o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica, por meio do chamado Corredor Verde, entre Brasil e Argentina.A área de aproximadamente 6,5 milhões de quilômetros quadrados reúne regiões importantes para o deslocamento dos animais e para a manutenção de populações conectadas.

De acordo com o estudo, essa rede se estende pelo território de 11 países e constitui a principal estrutura de conexão identificada para a conservação da espécie.O cenário, porém, não é uniforme em toda a área de ocorrência das onças-pintadas, que vai da fronteira entre os Estados Unidos e o México até o norte da Argentina.

No México e na América Central, os pesquisadores identificaram diversas interrupções entre as populações.Na Mata Atlântica costeira brasileira, os grupos também aparecem amplamente isolados tanto da grande rede sul-americana quanto uns dos outros.Onça-pintadaReprodução Wikimedia Commons/Charles J.

Sharp - Own work, from Sharp Photography Áreas protegidas e terras indígenasO levantamento mostrou que aproximadamente metade da extensão das 307 áreas centrais identificadas está localizada em áreas protegidas e Terras Indígenas. Esses territórios desempenham um papel importante na conservação dos habitats e na manutenção das conexões entre as populações de onças-pintadas.Em uma análise complementar, os pesquisadores identificaram 507 corredores potenciais entre 905 áreas protegidas e terras indígenas distribuídas ao longo da área de ocorrência da espécie.

Grande parte das áreas consideradas mais estratégicas nessa avaliação está na Amazônia, onde se encontram algumas das maiores e mais estáveis populações de onças-pintadas.Fora da região amazônica, áreas da Floresta Maia, na América Central, do Chaco e da Mata Atlântica também foram apontadas como importantes para conectar populações fragmentadas.Os pesquisadores destacam que a identificação dessas áreas pode ajudar governos, organizações ambientais e gestores territoriais a definir prioridades de conservação.

Entre as medidas possíveis estão a restauração de ambientes degradados, a proteção da vegetação, o combate à caça e a redução de conflitos entre pessoas e grandes felinos.Mapas podem orientar ações de conservaçãoOs mapas e dados geográficos produzidos pelo estudo foram disponibilizados publicamente e podem servir de base para o planejamento de políticas ambientais e novas pesquisas de campo.Segundo Alvarenga, os resultados ajudam a identificar onde as ações de conservação podem ser mais efetivas para manter ou recuperar as conexões entre as populações.

A partir dessas informações, gestores podem direcionar recursos para proteger áreas estratégicas, restaurar corredores degradados e avaliar a criação de novas áreas protegidas.O estudo também apontou conexões potenciais que ainda precisam ser verificadas em campo. Uma delas poderia ligar a região de Darién, entre o Panamá e a Colômbia, aos Llanos e à Amazônia, passando pela Colômbia e pela Venezuela.Outra possível conexão ligaria o Corredor Verde–Iguaçu, na divisa entre Brasil e Argentina, à Serra do Mar, entre Paraná e São Paulo.

As duas possibilidades apareceram em apenas um dos modelos utilizados e, por isso, precisam ser interpretadas com cautela.Caso sejam confirmadas, essas conexões poderão contribuir para aproximar populações atualmente isoladas, especialmente na Mata Atlântica, onde os animais enfrentam maior vulnerabilidade.A pesquisa atualiza um esforço científico iniciado há cerca de 15 anos, quando uma primeira avaliação da conectividade da onça-pintada ajudou a estabelecer as bases da Jaguar Corridor Initiative, iniciativa internacional voltada ao planejamento da conservação da espécie.

Com o uso de registros reais de movimentação por GPS, o novo levantamento oferece um retrato mais detalhado das conexões que ainda existem e dos caminhos que precisam ser preservados ou recuperados.

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