“Já votei no Lula, mas, hoje, acho que o governo não pensa o suficiente no futuro”. A correspondente do Le Monde, Anne-Dominique Correa, registrou a reação da engenheira mineira Cibele Santiago, de 38 anos, que complementa com bicos o salário de 4,5 mil reais recebido da prefeitura de Ribeirão das Neves.
Ela encarna o que a correspondente descreve como “as gerações tiradas da pobreza graças às políticas sociais aplicadas em dezessete anos de governos da esquerda, mas que, levados por novas inspirações, hoje dão as costas” ao presidente Lula da Silva. A reação dos veículos estrangeiros que tratam das eleições no Brasil costuma ser de surpresa ofendida: como podem esses infiéis rejeitarem o pai dos pobres? Não é muito diferente do que diz o próprio Lula.
A grande imprensa, mesmo que excepcionalmente não tenda à esquerda, em geral simpatiza com Lula e tem verdadeiro horror a qualquer coisa ligada a Jair Bolsonaro, inclusive e, agora, principalmente, seu filho candidato. O tema mais importante é a Amazônia: os olhos do mundo, principalmente o desenvolvido, o Brasil é a floresta e está acabado.
Como excelente jornal de referência, o New York Times fez várias reportagens a respeito. Numa delas, chega muito perto de culpar os brasileiros por terem a estranha ideia de votar no candidato que preferem, seguindo as linhas de grandes mudanças registradas por Katrin Bennhold.
Na visão da jornalista, os habitantes da Amazônia praticamente saltaram direto da tribo para o mundo de inspiração agro. Um espanto.
Continua após a publicidade “Uma região outrora associada a tribos indígenas e ativistas ambientais está crescentemente dominada por uma cultura caubói chique – rodeios atraem multidões e música sertaneja celebrando a vida nas fazendas lidera as listas das mais ouvidas”, descreveu a jornalista.
“E, no domingo, eleitores de uma das mais importantes regiões ambientais do mundo irão às urnas, e todos os sinais indicam que vão votar em Flávio Bolsonaro, que nega que os humanos sejam responsáveis pela mudança climática”. CARNE DE BURRO
Continua após a publicidade A correspondente fixa do jornal, Ana Ionova, fez uma boa reportagem sobre a influência da inteligência artificial nessa eleição, notando o uso intensivo que os brasileiros fazem da internet e o caráter pioneiro do que pode ser considerado a primeira campanha inteiramente da era da IA.
“Em última instância, especialistas dizem que a IA simplesmente tornou mais rápido , mais barato e mais fácil criar narrativas políticas distorcidas ou mentirosas que já circulavam online”, constata a correspondente. O Tio Sam andando por Ipanema com bombardeiros B1 explodindo bombas na praia é indubitavelmente criativo.
Saiu do lugar comum “gigante da esquerda” ameaçado (Wall Street Journal, para desgosto de vários leitores). Ficou faltando na imprensa estrangeira uma reportagem mostrando como a campanha, no fundo, foi travada entre dois gênios das redes, escolham se do bem ou do mal, Nikolas Ferreira e André Janones.
Continua após a publicidade Os jornais argentinos, pela proximidade e maior conhecimento, fizeram uma cobertura mais detalhada.
Por motivos óbvios, com destaque para as referências a Javier Milei e aos argentinos “comendo carne de burro” no debate de sexta-feira. O site Infobae foi o único a destacar que “Lula aposta em propostas populistas de alto custo para passar na frente de Bolsonaro”.
O espanhol El País recorreu a Joseph Stiglitz, o Nobel de esquerda, para uma previsão à la Janones: “Se o candidato da ultradireita ganhar, o desemprego aumentará, a pobreza crescerá e a situação da classe média piorará”. Continua após a publicidade
Quem precisa de fake news quando tem a grande mídia para cumprir esse papel? A cobertura do El País é a mais extensa da imprensa estrangeira, movida pelas convicções esquerdistas do jornal, que distorcem consideravelmente suas boas reportagens, criando a sensação de que o Brasil mergulhará nas trevas infinitas se a direita ganhar.
Não deixa de ser uma forma de dizer que muitos eleitores resolveram votar contra a opinião da mídia. Se a maré virar, a maior celebração será do jornal espanhol, inclusive porque já está sendo prevista uma derrota da esquerda na própria Espanha, no fim do ano.
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