247 – É Bom Quando o Pai Viaja é o título do novo livro da escritora Lucila Silva. A frase, que à primeira vista poderia parecer uma simples constatação, assume um significado doloroso ao revelar o alívio de uma criança diante da ausência do próprio pai.
Inspirado em acontecimentos reais, o romance aborda os maus-tratos no ambiente doméstico, o abuso sexual e as marcas deixadas por experiências traumáticas na infância, muitas vezes encobertas pela rotina, pela religiosidade e pelas aparências de uma família tradicional brasileira.
Em 2025, a obra conquistou o terceiro lugar no Prêmio Cruz e Souza de Literatura, na categoria Romance de Autor Catarinense. A decisão de transformar essas experiências em literatura não foi simples para Lucila, que escreveu a intensa autoficção aos 60 anos.
Após décadas convivendo com lembranças dolorosas, a autora encontrou na escrita uma maneira de dar nome a vivências que permaneceram silenciadas por muito tempo. O processo resultou em uma narrativa que combina memória, reflexão e crítica às estruturas familiares e sociais que permitem a perpetuação da violência.
Ambientado na primeira colônia alemã de Santa Catarina, o romance incorpora elementos da cultura, da linguagem, dos costumes e da religiosidade da região. A história atravessa décadas e acompanha a infância de três irmãos — duas meninas e um menino —, além das consequências de uma convivência familiar marcada pelo autoritarismo e pelo assédio paterno.
Ao reconstruir essas experiências, Lucila vai além da descrição dos episódios de violência e procura compreender como uma comunidade pode conviver com situações que não consegue, ou se recusa, a enxergar. As marcas dos abusos aparecem em gestos cotidianos das personagens.
Uma das crianças sente vergonha de entrar na água, enquanto outra tenta, durante o banho, livrar-se da sensação de repulsa provocada pelas agressões do pai. O medo também se manifesta na relação com os adultos, que, apesar dos sinais, não percebem o sofrimento dos irmãos.
Para enfrentar a rotina familiar, as crianças desenvolvem suas próprias estratégias de sobrevivência: cantam para se sentir seguras, procuram se esconder do abusador, evitam conflitos e permanecem em constante estado de alerta. Até mesmo a expressão “Bença, Pai”, tradicionalmente associada ao respeito, à educação e à religiosidade, adquire um sentido perturbador no contexto da narrativa.
Para Lucila, escrever sobre a violência infantil significa também confrontar a vergonha frequentemente imposta às próprias vítimas. Ao expor experiências que costumam permanecer restritas ao ambiente doméstico, a autora transforma uma dor íntima em uma reflexão coletiva, capaz de contribuir para que outras pessoas identifiquem situações de abuso, reconheçam seus sinais e procurem ajuda.
O romance apresenta um relato franco, por vezes duro, atravessado também pela ironia. Sem romantizar o sofrimento ou suavizar seus aspectos mais incômodos, É Bom Quando o Pai Viaja busca romper o silêncio em torno da violência intrafamiliar.
A história de três crianças que encontram tranquilidade justamente quando o pai está ausente conduz a uma questão central: quantas vezes o sofrimento infantil permanece invisível, mesmo diante de adultos que poderiam reconhecê-lo? A escritora também defende a importância da educação sexual como instrumento de prevenção da violência e de fortalecimento da capacidade de crianças reconhecerem situações de abuso.
“A educação sexual é uma ferramenta fundamental de proteção da infância. Uma criança precisa saber que ninguém tem direito de tocá-la de maneira inadequada e, principalmente, que ela pode dizer “não”.
Além disso, a criança precisa entender que não existem segredos que devam ser guardados, quando envolve algum desconforto, medo, e muito menos ameaças. Porque o silêncio é um grande aliado do abusador e a criança não entende a violência, acredita que vai ser culpada se contar.
Educação sexual não rouba a inocência de uma criança, a violência sim, rouba a infância!”, ressalta a autora. Lucila destaca ainda que a prevenção dos abusos não pode ficar restrita ao ambiente familiar.
Para ela, é necessário que a sociedade reconheça os sinais apresentados pelas crianças, acolha seus relatos e questione padrões de educação baseados na obediência irrestrita aos adultos. “A proteção da criança não pode ser responsabilidade exclusiva das famílias, precisa ser um compromisso coletivo.
É muito importante que a gente rompa com a ideia de que aquilo que acontece dentro de casa é um assunto privado. Muitas crianças dão sinais, elas tentam contar, ou manifestam algumas mudanças de comportamento.
Nós precisamos acreditar nelas, não as constranger e não transformar o seu relato em interrogatório, gerando ainda mais sofrimento. Nós não podemos ensinar uma criança a obedecer a todos os adultos, por exemplo, e depois esperar que ela saiba se defender de um que seja autoritário e violento.
Então é importante que a gente conheça os perigos da obediência irrestrita”. O livro É Bom Quando o Pai Viaja, escrito por Lucila Silva e publicado pela Editora Yantra (ISBN 978-65-01-15307-0), conta com 175 páginas e está disponível para compra pelo valor de R$ 64,90 neste link.
Mais informações sobre a obra podem ser acompanhadas no Instagram da autora (@lucilasilva108). Natural de São Pedro de Alcântara, em Santa Catarina, Lucila Silva é formada em Administração, com especialização em Gestão de Pessoas.
Durante mais de 20 anos, atuou como professora de Yôga, Tantra e Sámkhya, ministrando cursos no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina sobre meditação, respiração, concentração, autoconhecimento, gestão de conflitos e relacionamentos interpessoais. É autora de Léxico de Yôga Antigo (Swásthya Yôga Kôsha), considerado um dos mais importantes dicionários de Sânscrito-Português publicados no Brasil.
Brasil 247