O pesquisador Bruno Pantaleão: “Pesquisas econômicas sobre o mesmo tema já mostravam que havia a introdução da escola integral trazia efeitos” Gabriel Reis/Valor A introdução de escolas em tempo integral reduz a ocorrência de crimes na região em que estão instaladas. É o que sugere um estudo de economistas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que mostra ainda que o efeito é concentrado justamente nos dias letivos e dentro do horário escolar, mas também ocorre fora dele. Os pesquisadores trabalharam com dados de 2012 a 2024 da cidade de São Paulo, que abriga a maior rede de escolas em tempo integral do país - chegaram a 305 no período analisado. Cruzando dados geolocalizados de crimes da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) com a localidade das escolas que aderiram ao Programa de Ensino Integral (PEI), eles encontraram que o novo formato reduziu crimes contra a propriedade registrados em um raio de 500 metros em 7,3%. Pela metodologia empregada, os pesquisadores cobriram toda a área da capital paulista. Os efeitos foram analisados em um intervalo de seis anos. Em especial, os roubos (quando há violência ou grave intimidação à vítima) caem 9,5%. Essa queda se deu tanto contra veículos (12,1%) como contra pedestres (21,2%). Os dados mostram também uma quedas dos furtos - quando não há violência envolvida. Neste caso, no entanto, não ficou estatisticamente provado que foi a introdução das escolas integrais que levou a esse resultado. “Existem algumas causas possíveis para esse efeito. É possível que ocorra um ganho cultural, educacional dos alunos, que os afaste do crime. Uma outra explicação pode ser o da melhora da perspectiva econômica: à medida que estuda mais, o jovem acredita que terá acesso a salários melhores no mercado de trabalho e, por isso, o incentivo a cometer crimes cai. Mas este trabalho mostra que o canal mais forte pode ser outro, o da ‘incapacitação’ - ao ficar mais tempo sob supervisão, o aluno tem menos oportunidades de cometer crimes”, explica o pesquisador da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP), Bruno Pantaleão, que assina o trabalho com Alei Santos e Arthur Augusto Alves. A tese da incapacitação ganha força quando se observa que a redução dos roubos é concentrada nos dias letivos: recuo de 12% nesse período, contra 6,1% nos dias sem aula. As ocorrências em horário de aula também caem mais que fora dele - 12,1% contra 8,8%, respectivamente. No caso dos furtos, o efeito é ainda mais pronunciado: recuo de 12,4% em dias escolares e 25,8% durante horário de aula, contra 9,5% e 4,2%, respectivamente. “Pesquisas econômicas sobre o mesmo tema já mostravam que havia a introdução da escola integral trazia efeitos. No Chile, foi documentado que o movimento reduziu crimes contra a propriedade e também casos de gravidez na adolescência. Em Pernambuco, outros economistas mostraram a redução de homicídios em nível municipal. Mas não houve uma associação clara como a de mostrar que os crimes caíam nas redondezas dessas escolas”, diz Pantaleão. Os pesquisadores olharam ainda para os registros de delitos cometidos por menores - os chamados “atos infracionais”. Houve forte queda desses registros: redução de 22,8% dos roubos e 64,4% dos furtos nas redondezas das escolas que implementaram o ensino integral. É possível que ocorra um ganho cultural, educacional dos alunos, que os afaste do crime” Esses achados, no entanto, precisam ser considerados com parcimônia, advertem. “Primeiro, porque os atos infracionais representam apenas 0,9% do universo das ocorrências utilizadas no estudo. Depois, porque o ato infracional pressupõe que houve identificação do perpetrador e que ele era menor de idade. Não é possível saber se não houve presença de menores nos demais registros”, diz Pantaleão. Embora a maior parte da queda dos crimes seja observada durante o horário letivo e em dias de aula, os pesquisadores também encontraram queda - ainda que em menor intensidade - dos delitos fora do horário. Esse resultado mostra que nem tudo pode ser atribuído ao efeito incapacitação. Com os dados usados no estudo, no entanto, não é possível saber que outras causas podem estar em ação, dizem os pesquisadores. “Uma ideia, para frente, é poder usar dados identificados dos alunos para poder responder, por exemplo, se o aluno que fez colégio integral tem maior probabilidade de ser detido até depois de se terminar o ensino médio, ou então se as escolas integrais atraem menos alunos que com maior tendência ou conhecimento sobre crime. É o que a literatura chama de ‘peer effect’, e um caso bem conhecido é o das prisões. O cara que entrou na cadeia por roubo sai de lá com conhecimento de outros crimes”, diz Alves, também pesquisador da FGV EAESP. A possível transformação do alunato que escolhe as escolas integrais é outro possível fator em jogo, diz o economista. Em uma pesquisa anterior, ele mostrou que colégios integrais têm maior parcela de estudantes brancos na comparação com escolas tradicionais. Segundo dados do Censo Escolar de 2025, o ensino em tempo integral alcançou 1,8 milhão de jovens no ensino médio em todo o país, ou 26,8% de todas as matrículas nesta faixa. Considerando todas as etapas da educação, existem hoje mais de 8 milhões de matrículas nesta modalidade, ou 25,8% da rede. A elevação da carga horária também tem surtido efeito nas notas. Divulgado no início de agosto, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) revelou que a pontuação média das escolas integrais foi de 4,7 em 2025, contra 4,3 das escolas do ensino regular. Nos anos finais do fundamental (6ª à 9ª série), o Ideb médio foi de 5,2 e 4,9, respectivamente.
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Escola em tempo integral reduz violência na região, aponta estudo
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