‘Escobar Brasileiro’: Acusado de liderar envio de toneladas de cocaína à Europa volta ao banco dos réus; entenda
O julgamento do ex-major da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul Sérgio Roberto de Carvalho, conhecido como “Escobar Brasileiro”, entra em nova fase nesta quinta-feira, dia 16, e sexta-feira, dia 17, na Bélgica, com a retomada das audiências após o reinício do processo no fim de março. Nesta etapa, os juízes devem começar a analisar o mérito das acusações. O brasileiro é acusado de liderar um esquema de tráfico internacional responsável pelo envio de ao menos 45 toneladas de cocaína da América do Sul para a Europa e de integrar uma organização criminosa que operava em diferentes países.
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A nova fase do processo ocorre após uma audiência realizada em 30 de março, que marcou o reinício formal do julgamento sob responsabilidade de três novos juízes. A sessão teve caráter preliminar e foi destinada à reorganização do caso e à definição do calendário das próximas audiências, após a anulação das etapas anteriores.
O julgamento havia sido interrompido no início de 2026 depois que o Tribunal de Apelação de Gante considerou procedentes 21 pedidos de suspeição apresentados contra os magistrados responsáveis pelo caso. A decisão determinou o afastamento dos juízes e a invalidação de todos os atos processuais já realizados até então.
Crise processual e anulação do julgamento
A crise que levou à anulação se intensificou ao longo das audiências realizadas no complexo de segurança Justitia, em Bruxelas. Iniciado em setembro de 2025, o processo já havia avançado por praticamente todas as fases da instrução, com interrogatórios de réus, oitiva de testemunhas e apresentação de provas, e se aproximava da etapa final de debates.
Foi nesse momento que surgiram os principais conflitos entre o tribunal e as equipes de defesa. Advogados passaram a questionar decisões relacionadas às condições de atuação no plenário, especialmente restrições ao uso de mesas e tomadas elétricas, adotadas sob justificativa de segurança. A defesa alegava que as medidas dificultavam o acesso a documentos e equipamentos essenciais durante as audiências.
O impasse afetou diretamente o andamento das sessões. Houve interrupções frequentes, abandono do plenário por advogados e episódios de retirada de profissionais pela polícia após discussões dentro da sala. Paralelamente, foram apresentados sucessivos pedidos de suspeição contra os juízes, contribuindo para a paralisação do processo em diferentes momentos.
A ruptura definitiva ocorreu em 5 de janeiro, quando o juiz responsável encerrou a fase de debates sem permitir as alegações finais de acusação e defesa — etapa considerada obrigatória antes da sentença. A decisão levou o tribunal de apelação a concluir que houve comprometimento do direito de defesa e da imparcialidade do julgamento.
Inicialmente, a sentença estava prevista para 30 de março. Com a anulação, porém, a data deixou de marcar o desfecho do caso e passou a simbolizar o reinício do processo, agora sob um novo colegiado de magistrados.
Retomada do julgamento e nova fase
Na prática, a audiência realizada em 30 de março serviu para restabelecer as bases do julgamento. Foi nesse momento que o tribunal reorganizou o andamento do caso e definiu as próximas datas de audiência, incluindo as sessões desta semana.
As audiências marcadas para os dias 16 e 17 de abril representam, assim, o avanço efetivo do julgamento sob a condução dos novos juízes, com a continuidade da análise das acusações e dos elementos reunidos ao longo da investigação.
Carvalho permanece preso, e a anulação do processo não alterou sua situação de detenção. Ele responde a acusações de integrar uma organização criminosa responsável por uma das maiores operações de tráfico internacional de cocaína já identificadas pelas autoridades europeias.
Estrutura do esquema e alcance internacional
As investigações apontam que o ex-major atuava como peça central em uma rede que conectava países produtores de cocaína na América do Sul a centros logísticos na Europa. A droga era enviada a partir de países como Peru e Bolívia, passava por portos brasileiros e seguia para destinos como Bélgica, Holanda, Espanha e Portugal.
Segundo as autoridades, o grupo utilizava uma estrutura sofisticada para viabilizar o esquema, incluindo empresas de fachada, transporte por via aérea e marítima, além de mecanismos de lavagem de dinheiro. Parte das remessas teria sido ocultada em cargas legais, como minério, em portos europeus.
Apontado como um dos principais articuladores da operação, Carvalho também é acusado de ter utilizado identidades falsas para circular por diferentes países e escapar de investigações. Ele chegou a viver na Espanha sob o nome de Paul Wouter e simulou a própria morte durante a pandemia de Covid-19, enviando um atestado falso às autoridades para evitar a prisão.
Procurado por diferentes países, ele foi preso em junho de 2022 em Budapeste, na Hungria, utilizando documentos falsos. Após disputas judiciais entre autoridades internacionais, acabou extraditado para a Bélgica, onde permanece detido e agora volta a ser julgado desde o início do processo.
Conexões na Europa e desdobramentos
O caso também se insere em um contexto mais amplo do tráfico internacional de drogas na Europa, com desdobramentos em países como Portugal. Investigações indicam que a droga enviada da América do Sul era distribuída por redes locais que atuavam no controle territorial do tráfico em cidades como Lisboa.
Entre os nomes citados nas apurações está Rúben Oliveira, conhecido como “Xuxa”, apontado como um dos principais parceiros de Carvalho em território português. Segundo reportagens locais, sua rede estaria ligada à distribuição da droga que chegava ao continente europeu.
Mesmo após a prisão de Carvalho, a disputa entre grupos criminosos associados ao esquema continuou em algumas regiões da Europa, evidenciando a dimensão e a complexidade da organização investigada.
O julgamento, agora reiniciado, deve reexaminar todas essas acusações desde o início e pode se estender por meses, em um processo que busca esclarecer o papel do brasileiro em uma das maiores engrenagens do tráfico internacional de cocaína das últimas décadas.
