Operação contra funkeiros: Irmão do MC Ryan também é preso pela PF
O influenciador Mateus Magrini Santana foi preso pela Polícia Federal sob suspeita de integrar o esquema que teria sido montado por seu irmão, Ryan Santana dos Santos, o MC Ryan SP, para lavagem de dinheiro. Segundo as investigações, Mateus atuaria na recepção de recursos e na divulgação de plataformas de jogos de azar utilizadas para movimentar dinheiro ilícito.
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Ele foi detido em Jundiaí, no interior de São Paulo, em uma casa pertencente ao irmão, conforme a Polícia Militar. No momento da prisão, estava acompanhado do pai, Eduardo Magrini, conhecido como “Diabo Loiro”, preso em outubro do ano passado sob suspeita de envolvimento com lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Conforme o pedido de prisão temporária, Mateus foi identificado como “receptor de fluxos financeiros e vetor de divulgação das plataformas de jogos de azar”. Na prática, os investigadores apontam que ele atuava tanto na captação de recursos quanto na promoção de apostas ilegais e rifas digitais, usadas como fachada para inserir dinheiro do tráfico de drogas no sistema financeiro formal.
O influenciador também foi alvo de medidas de sequestro de bens e valores — até o limite de R$ 1,63 bilhão para o grupo — além do bloqueio de contas bancárias e criptoativos. A decisão inclui ainda busca pessoal e apreensão de dispositivos eletrônicos, como celulares e computadores, e acesso a dados armazenados em nuvem.
Mateus e os demais investigados poderão responder por associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A defesa do influenciador não foi localizada até a última atualização deste texto. O espaço segue aberto.
Entenda o esquema
O esquema que utilizava funkeiros para lavar dinheiro do tráfico operava por meio da chamada “instrumentalização de pessoas físicas”. Segundo a Polícia Federal, o grupo liderado por Ryan Santana dos Santos, o MC Ryan SP, e usava empresas ligadas à produção musical e ao entretenimento para misturar receitas legítimas com recursos oriundos de apostas ilegais e rifas digitais.
O esquema foi alvo da Operação Narco Fluxo, deflagrada nesta quarta-feira, 15. Conforme investigações, o grupo movimentou mais de R$ 1,6 bilhão nos últimos 24 meses, e Ryan foi identificado como o líder e principal beneficiário econômico da estrutura.
A escolha de artistas e influenciadores era estratégica, como explicou o delegado regional Polícia Judiciária, Marcelo Maceira. Com milhões de seguidores e alta circulação financeira, esses nomes conseguiam movimentar grandes quantias sem levantar alerta imediatos nos sistemas de compliance bancário.
— Essas pessoas públicas com muitos seguidores conseguem movimentar grandes quantias sem chamar a atenção dos sistemas de compliance das autoridades e dos bancos. Então eles são muito úteis e facilmente recrutáveis por essas organizações, por essa estrutura de lavagem — disse.
Para dificultar o rastreamento, o grupo utilizava processadoras de pagamento e realizava centenas de transferências fracionadas — técnica conhecida como “smurfing” — além de recorrer a “laranjas” e empresas de fachada para dispersar os recursos.
No exterior, a organização recorria a ativos digitais, especialmente a criptomoeda USDT (Tether), para remessas internacionais e ocultação de patrimônio.
Embora o esquema fosse divulgado como “bets” e rifas, a Polícia Federal sustenta que sua base está ligada ao crime organizado. A investigação é um desdobramento de apreensões de drogas realizadas em 2023 e indica que parte do capital que alimentava o sistema tem origem no tráfico internacional de entorpecentes.
De acordo com a investigação, Ryan foi identificado como "líder e beneficiário econômico da engrenagem" enquanto MC Poze, que também foi alvo de um mandado de prisão preventiva, assim como outros investigados, aparecem vinculados a empresas e estruturas financeiras relacionadas à circulação de recursos oriundos de rifas digitais e apostas.
Já o dono da página "Choquei", Raphael Sousa Oliveira, atuava como operador de mídia da organização, "recebendo altos valores diretamente [...] Sua função consiste, em tese, na divulgação de conteúdos favoráveis ao artista e na promoção de plataformas de apostas e rifas, além de potencialmente atuar na mitigação de crises de imagem relacionadas às investigações".
Mais de 200 policiais federais cumprem 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária, expedidos pela 5ª Vara Federal de Santos, dos quais 33 foram cumpridos. As diligências ocorrem em endereços nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e no Distrito Federal.
Durante o cumprimento das ordens judiciais, já foram apreendidos veículos, valores em espécie, documentos e equipamentos eletrônicos que devem subsidiar o aprofundamento das investigações, além de um fuzil. Os envolvidos poderão responder pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
A defesa do funkeiro diz que "até o presente momento" não teve acesso ao procedimento que tramita sob sigilo, "razão pela qual está impossibilitada de apresentar manifestação específica sobre os fatos". A defesa do MC Poze do Rodo também disse que "desconhece os autos ou teor do mandado de prisão", e que "com acesso aos mesmos, se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário".
Já os advogados da GR6, do empresário Rodrigo Inácio de Lima Oliveira, que também foi alvo de um mandado de prisão, diz que os valores e transações financeiras mencionados referem-se a "relações comerciais lícitas e regulares, inerentes à atividade empresarial da companhia, todas devidamente formalizadas e respaldadas por contratos e documentação fiscal".
