Escassez de óleo para motores compromete geradores de hospitais e residências em Gaza

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Fonte da notícia: Valor Valor

À medida que cortes de energia se sucedem em um dos maiores hospitais ainda em funcionamento em Gaza e pacientes aguardam atendimento em enfermarias sob calor sufocante, profissionais de saúde alertam que a escassez de óleo para motores e peças de reposição está fazendo geradores pararem de funcionar, colocando vidas em risco. Leia também: Aliados de Netanyahu renovam apelos pela retirada de palestinos de Gaza às vésperas das eleições em Israel Embaixador dos EUA em Israel diz que não há plano para expulsar palestinos de Gaza

A crise está se espalhando para além dos hospitais, onde a disparada dos custos do óleo e do diesel torna a eletricidade fornecida por geradores de bairro cada vez mais inacessível para as famílias que dependem dela.

Gaza está sem eletricidade da rede desde o início da ofensiva militar de Israel no território, lançada em resposta aos ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023. Israel interrompeu o fornecimento de eletricidade e restringiu a importação de combustível e de óleo para motores, descrevendo as medidas como uma forma de punir o Hamas.

Essas restrições continuaram apesar de um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos em outubro de 2025, que pôs fim aos combates em grande escala, mas não conseguiu interromper os ataques israelenses, garantir o desarmamento do Hamas nem aliviar as crises humanitária e energética de Gaza.

Ahmed Al-Nabris, especialista em medicina interna do Hospital Nasser, disse que a escassez de combustível, óleo para motores e peças de reposição obrigou o hospital a adotar um plano de austeridade que inclui cortes alternados de energia entre os prédios.

“Os pacientes correm grave perigo, porque qualquer corte de energia coloca suas vidas em sério risco”, disse Nabris.

Um dos quatro geradores do hospital está agora fora de serviço, e os dois maiores entre os três restantes estão sobrecarregados, afirmou. Normalmente, o óleo dos geradores deveria ser trocado a cada 250 horas de funcionamento, mas a escassez obrigou os técnicos a estender esse intervalo para cerca de mil horas.

Al-Nabris disse que o sistema elétrico do hospital sofreu danos repetidos desde uma incursão militar israelense no início de 2024. Um sistema de energia solar foi destruído e nunca substituído, enquanto um gerador principal e outro de reserva foram perdidos. Israel acusa militantes palestinos de usarem hospitais de Gaza como bases.

Estoques em queda Fatima Abu Taima, paciente do Hospital Nasser que sofre de fibrose pulmonar, diz que aqueles que precisam ser conectados a um respirador ou nebulizador têm de esperar enquanto o fornecimento de eletricidade é alternado entre os diferentes setores.

“Ficamos esperando, contando os segundos e os minutos”, disse. “É preciso esperar a eletricidade voltar.”

A mãe de quatro filhos disse que seu quadro piorou desde o início da guerra, em 2023, obrigando-a a se mudar para o hospital. A paciente palestina Fatima Abu Taima, de 40 anos, que sofre de fibrose pulmonar REUTERS/Ramadan Abed

A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras afirmou em comunicado em agosto que milhares de pessoas enfrentam riscos maiores de adoecer e morrer porque as restrições à entrada de óleo para motores e peças de reposição estão comprometendo o funcionamento de geradores hospitalares, ambulâncias, bombas d'água e caminhões-pipa.

A redução dos estoques obrigou grupos humanitários a recorrer ao mercado local, afirmou a organização, onde, segundo moradores, os preços dispararam de cerca de US$ 3 por litro antes da guerra para US$ 1.300.

O Cogat, órgão militar israelense que controla o acesso a Gaza, afirmou em comunicado que um mecanismo coordenado com a comunidade internacional facilita, sob monitoramento e supervisão, a entrada em Gaza de óleo para motores, peças de reposição para geradores, ambulâncias e outros equipamentos hospitalares.

O órgão também disse que o mecanismo tem “o objetivo de impedir que equipamentos avançados caiam nas mãos do Hamas e garantir que esses equipamentos cheguem diretamente à população”.

Custo da eletricidade doméstica disparou, dizem moradores Além dos hospitais, a escassez atingiu a rede de geradores privados e de bairro de Gaza, que fornece às residências algumas horas de eletricidade por dia.

Registros palestinos e da ONU mostraram no início deste ano que pelo menos dois terços dos cerca de 2 milhões de habitantes de Gaza ainda viviam em mais de mil locais para deslocados espalhados pelo território, em meio a uma grave escassez de água e eletricidade. Moradores dizem que apenas uma pequena parcela da população consegue pagar por geradores privados.

Yasser Ashour, que vende eletricidade produzida por geradores de sua propriedade, disse que, apesar da necessidade urgente de um fornecimento estável de energia — especialmente para pessoas com problemas de saúde ou ferimentos graves —, manter o negócio tornou-se cada vez mais difícil com a disparada dos preços do óleo para motores, diesel e peças de reposição. Um palestino despeja óleo de um recipiente em outro perto de um gerador, em meio à escassez de combustível e óleo necessários para manter os geradores funcionando, em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza REUTERS/Ramadan Abed

A escassez elevou em cerca de 20 vezes o custo do fornecimento de eletricidade às residências nos últimos meses, segundo moradores. Ainda assim, muitos têm pouca escolha a não ser pagar.

Alaa Al-Hourani, de 65 anos, que sofre de fibrose hepática e baixos níveis de oxigênio, disse que as dificuldades para conseguir alimentos e água, ambos caros, às vezes o deixam sem condições de pagar pela eletricidade.

“É sufocante e angustiante, mas não há nada que possamos fazer. Não temos nada além de pedaços de papelão para nos abanar”, disse.

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