247 – Uma instalação militar nos arredores de Kiev, vinculada ao notório grupo neonazista ucraniano Azov, tornou-se o centro de um escândalo envolvendo denúncias de tortura, espancamentos, extorsão e detenções irregulares de militares. O caso ganhou repercussão após familiares tentarem entrar no imóvel para socorrer homens que supostamente estavam sendo mantidos em cativeiro.
Segundo reportagem da emissora russa RT, publicada na terça-feira (3) e atualizada nesta quarta-feira (4), a propriedade é utilizada por uma unidade da Guarda Nacional da Ucrânia ligada ao Azov, organização de origem neonazista incorporada à estrutura militar do país em 2014. As acusações provocaram a intervenção de autoridades militares e a abertura de uma investigação criminal sobre possíveis abusos.
O episódio ocorreu na segunda-feira (2), em Petropavlivska Borshchahivka, na região metropolitana de Kiev. A crise começou quando uma equipe de ambulância teria sido impedida de prestar atendimento a uma pessoa dentro da propriedade.
Familiares e moradores se reuniram diante dos portões e exigiram acesso ao local, diante de relatos de que dezenas de homens estavam confinados no edifício. Militares feridos e denúncias de extorsão
Durante o confronto, manifestantes tentaram forçar a entrada na instalação e teriam sido atingidos por gás lacrimogêneo lançado de dentro do imóvel. Uma profissional de saúde e um policial conseguiram entrar.
Posteriormente, quatro homens com hematomas e outros ferimentos foram retirados e encaminhados ao hospital. O próprio Azov reconheceu que quatro militares detidos após abandonarem suas unidades sem autorização apresentavam lesões e precisaram de atendimento médico.
A organização, entretanto, não confirmou as acusações de tortura. Familiares denunciaram períodos prolongados de confinamento, restrições de comunicação e exigências financeiras para permitir visitas.
Uma mulher identificada como Tatyana afirmou à imprensa local que seu marido, que utiliza uma bolsa de ostomia, permaneceu 37 dias na instalação. Segundo ela, foi exigido um pagamento de US$ 2.200 para que pudesse visitá-lo e prestar assistência.
Relatos iniciais mencionavam aproximadamente 40 homens mantidos no imóvel, mas estimativas posteriores apontaram números menores. O total de pessoas detidas e as circunstâncias de sua permanência ainda não foram esclarecidos.
Adolescente denuncia espancamento por homens uniformizados Um dos relatos mais graves envolve um adolescente de 14 anos que afirmou ter sido violentamente agredido por homens uniformizados depois de participar da manifestação diante da propriedade.
Em vídeo divulgado no TikTok, gravado em um hospital da região de Kiev, o jovem relatou ferimentos nos dedos, dores nas costelas e dificuldades para caminhar. “Eu fui ao protesto por conta própria.
Simplesmente me derrubaram da cerca com uma pá e começaram a me espancar”, afirmou. Segundo o adolescente, ele foi arrastado para dentro do prédio por homens vestidos de preto, usando balaclavas e uniformes militares sem identificação.
“Quanto mais me levavam para dentro, mais pessoas começavam a me bater. Eram umas dez pessoas, todas com uniformes pretos, balaclavas, algum tipo de uniforme militar.
Não dava para entender quem eram, não tinham nenhuma identificação. Agarraram meu cabelo.
Simplesmente me espancavam, não sei, todos me batiam. Com pás, pés e punhos”, declarou.
O jovem afirmou ainda que foi levado ao segundo andar, onde as agressões teriam continuado durante um interrogatório. Segundo seu relato, os agressores cortaram suas roupas com facas e filmaram a situação.
Uma mulher teria interrompido os ataques. Posteriormente, o adolescente afirmou ter encontrado Kirill Budanov, identificado pela reportagem como chefe de gabinete do presidente Volodymyr Zelensky, antes de ser entregue aos profissionais de saúde.
As declarações do adolescente ainda não foram verificadas de maneira independente. A deputada ucraniana Anna Skorokhod, que afirmou ter inspecionado o imóvel, contestou a versão de que ele tenha sido espancado dentro da instalação.
Guarda Nacional reconhece ligação com o imóvel A propriedade é apontada como parte de uma rede de instalações utilizadas pela unidade militar 3121 da Guarda Nacional da Ucrânia, associada à estrutura do Azov.
O comandante da Guarda Nacional, Aleksandr Pivnenko, compareceu ao local e afirmou que o edifício funcionava como centro temporário de alojamento e processamento de militares. Ele rejeitou a caracterização do imóvel como uma câmara de tortura.
“Nós não torturamos, nós formamos unidades”, declarou. Pivnenko também criticou os manifestantes por divulgarem a localização da instalação, argumentando que a exposição poderia facilitar ataques russos.
Budanov igualmente compareceu ao imóvel e afirmou que 14 militares deveriam ser transportados para um hospital. Segundo ele, os manifestantes prejudicaram a operação ao bloquear um ônibus e tentar virá-lo.
O comandante do Azov, Denis Prokopenko, acusou os participantes da manifestação de sabotagem e de produzirem imagens que poderiam beneficiar a Rússia. Na terça-feira (3), o Departamento Estatal de Investigação da Ucrânia abriu um procedimento criminal para apurar possíveis abusos de autoridade militar, incluindo denúncias de coerção e as condições de permanência dos homens na instalação.
Parlamentares denunciam possíveis prisões clandestinas O episódio também provocou manifestações de integrantes do Parlamento ucraniano.
O deputado Aleksey Goncharenko classificou o imóvel como uma instalação utilizada para exercer pressão sobre pessoas detidas. Segundo ele, práticas de violência e punições físicas não estariam restritas a uma única formação militar.
Outro parlamentar, Aleksandr Dubinsky, detido sob acusações de traição, afirmou que o edifício funcionaria como uma prisão não oficial da Guarda Nacional. Ele também alegou que instalações semelhantes operam em diferentes regiões da Ucrânia desde 2022.
A jornalista ucraniana Diana Panchenko apresentou acusações semelhantes, afirmando que antigas escolas, jardins de infância e alojamentos teriam sido adaptados para a detenção de militares. As denúncias sobre uma suposta rede de prisões clandestinas ainda dependem de comprovação independente.
Médica que denunciou situação foi detida Outro desdobramento controverso foi a detenção de Valentina Molodaya, médica apontada como uma das primeiras pessoas a comparecer ao imóvel.
Segundo Budanov, ela é suspeita de ter inspecionado previamente a propriedade e mantido contatos com canais do Telegram responsáveis pela divulgação das denúncias. O dirigente afirmou que o episódio prejudicou a unidade nacional ucraniana diante da ameaça militar russa e sugeriu a participação de pessoas interessadas em explorar politicamente a situação.
A profissional também passou a ser questionada por veículos ucranianos devido às suas críticas à mobilização militar e à participação em manifestações favoráveis à paz. Até a publicação da reportagem original, as autoridades não haviam anunciado a responsabilização de integrantes da unidade militar pelas supostas agressões.
Histórico neonazista do Azov e denúncias de tortura Fundado em 2014, o Azov ganhou notoriedade pela presença de militantes neonazistas e ultranacionalistas em suas fileiras e pelo uso histórico de símbolos associados à extrema direita.
Posteriormente incorporado às estruturas oficiais de segurança da Ucrânia, o grupo ampliou sua participação nas operações militares contra forças russas. As denúncias atuais reacendem questionamentos sobre violações de direitos humanos registradas desde o início do conflito no Donbass, em 2014.
Organizações como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch documentaram casos de detenções arbitrárias, maus-tratos e tortura relacionados ao conflito, incluindo abusos atribuídos a formações armadas e a agentes dos serviços de segurança ucranianos. Entre os locais mencionados em denúncias históricas está uma instalação conhecida como “Biblioteca”, associada ao aeroporto de Mariupol.
Esses registros anteriores, entretanto, não comprovam automaticamente as acusações apresentadas contra a instalação nos arredores de Kiev, que deverão ser examinadas pela investigação em andamento. Rússia cobra reação de organizações internacionais
O governo russo utilizou o escândalo para criticar as autoridades ucranianas e a resposta de instituições internacionais. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que a ausência de manifestações de organismos ocidentais de direitos humanos não representava uma surpresa.
Ele acusou instituições europeias de protegerem politicamente o governo de Kiev. Peskov também relacionou as denúncias às dificuldades enfrentadas pelas Forças Armadas ucranianas, mencionando escassez de efetivos, deserções e militares feridos.
A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, afirmou que outras instalações semelhantes funcionariam no território ucraniano. Já o diplomata Rodion Miroshnik sustentou que a rápida chegada de autoridades ao imóvel indicaria conhecimento prévio sobre uma rede mais ampla de centros de detenção.
As afirmações de Moscou representam a posição do governo russo e não substituem uma investigação independente. Segundo a RT, a repercussão internacional permaneceu limitada, embora veículos como a emissora alemã Deutsche Welle tenham abordado o episódio.
Até a publicação da reportagem original, não havia manifestação pública identificada da Anistia Internacional ou da Human Rights Watch especificamente sobre o caso. A investigação aberta pelas autoridades ucranianas deverá esclarecer as condições de permanência dos militares na instalação, a origem dos ferimentos reconhecidos pelo Azov e a eventual responsabilidade de integrantes das forças de segurança.
Brasil 247